quinta-feira, 23 de setembro de 2021


 Parque dos Poetas, Templo da Poesia, Oeiras
Apresentação da Antologia
‘19 POETAS DE PORTUGAL’
Numa edição de Lastura Ediciones (Madrid) apresentamos no dia 1 de Outubro no Templo da Poesia, em Oeiras, com Isabel Miguel e Montserrat Villar González, uma obra única pelo universo representativo da poesia portuguesa actual, com:
Manuel Alegre, Ana Luisa Amaral , Rosa Alice Branco, Casimiro de Brito, Fernando Cabrita, Maria Cantinho, Luis Castro Mendes, Mário Cláudio, Renata Correia Botelho, Maria Teresa Horta, Nuno Júdice, Isabel Isabel Maria Mendes Ferreira, Raquel Nobre Guerra, Victor Oliveira Mateus, Maria do Rosário Pedreira, João Rasteiro, Jorge Reis-Sá, Isabel de Sá, Cláudia R. Sampaio.
Foi com um gosto imenso que assinei o prólogo do volume. Deixo um agradecimento adicional à Lidia López Miguel e à Ana.
Dia 1 de Outubro às 18.00h.
Apoio à apresentação: Município de Oeiras
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quarta-feira, 22 de setembro de 2021

(Excerto do monólogo ficcionado do escultor Miguel Ângelo para o seu jovem modelo Gherardo Perini):
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.Se fosses meu filho, Gherardo, eu não te amaria mais, mas não teria que perguntar-te porquê. Toda a minha vida procurei respostas a perguntas que talvez não tenham resposta (...)
Assim, tu partes. Na minha idade já não se dá importância a uma separação, mesmo que definitiva. Eu bem sei que os seres que amamos e que nos amam mais se vão separando insensivelmente de nós a cada momento que passa. É também deste modo que se vão separando de si próprios. (...) É certo que compreendo que tudo isto é ilusão, como o resto, e que o futuro não existe. Os homens que inventaram o tempo, inventaram por contraste a eternidade, mas a negação do tempo é tão vã como ele próprio. Não há nem passado nem futuro mas apenas uma série de presentes sucessivos, um caminho perpetuamente destruído e continuado onde todos vamos avançando (...)
O amor de alguém é um presente tão inesperado e tão pouco merecido que devemos espantar-nos que não no-lo retirem mais cedo. (...) Não se possui ninguém (mesmo os que pecam não o conseguem) e, sendo a arte a única forma de posse verdadeira, o que importa é recriar um ser e não prendê-lo.
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 Marguerite Yourcenar. O Tempo Esse Grande Escultor. Miraflores: Difel, 2001, pp 18-19 (Tradução de Helena Vaz da Silva).
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segunda-feira, 20 de setembro de 2021


       Desencontro II


o mundo era a tua ostra


eu queria-te
pérola



    Renato Filipe Cardoso. Passageiro do Real. Fafe: Editora Labirinto, 2021, p 82.
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sexta-feira, 17 de setembro de 2021


                   Antes de tempo


éramos tão velozes
que a bala do amor
nos atingiu antes da partida


Renato Filipe Cardoso. Passageiro do real. Fafe: Editora Labirinto, 2021, p 66.

terça-feira, 14 de setembro de 2021


                                       Museu do Futuro

               mano e cielo e terra (Dante, Paradiso, XXV, 2)


Haverá somente peças desirmanadas nesse museu do futuro a que um dia chamámos planeta. Seja esta a melhor hipótese. Ocorreu-me, por entre destroços e sombras, definir o pensamento como o lugar onde corrigimos, em permanência, os abusos e as intrusões que nos legaram. Caminho dentro de uma cidade, retomo a sua capilaridade. Alguém te abandonou, como se abandona um artefacto sem préstimo, excluído da soberania da função, dos seus sistemas e métricas. Deverá haver um dia uma assinalável descrição destes objectos corrompidos, sem uso reconhecível. Haverá vitrinas, vidros limpos que separem a ferida dos que a contemplam, que os separem de vez, que os afastem de uma pestífera vontade de toque e apropriação. Cada um dos visitantes desse museu de peças desirmanadas será uma fera domiciliada na sua impotência perante o Paraíso que está para lá da mão, do céu, e da terra..
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 Luís Quintais. Ângulo Morto. Porto: Assírio & Alvim, 2021, p 107.
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segunda-feira, 13 de setembro de 2021

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 Lembro-me do meu pai a tremer

de frio. O seu corpo magro

sacudido pela fúria do vento


numa praia fora de estação.

Lembro-me de como era frágil,

sem peso, exposto.


É essa a minha condição.

Eu sou aquele que se expõe

e morre ferido por uma lembrança.



   Luís Quintais. Ângulo Morto. Porto: Assírio & Alvim, 2021, p 32.

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segunda-feira, 6 de setembro de 2021


             Encantador de pássaros


Encantador de pássaros, tenho nos dedos o instante
dos rios em que se oculta um leve bater de asas,
a mestria do aceno reflectido no lago,
a chuva como a pele nas ledas madrugadas.
Um anelo de sedes irrompe-me dos lábios
reclamando da boca a memória da água,
o vitral de uma luz que venha e não se atarde
a derramar o sol entre cristais de orvalho.
Não sei como deter esta abstracta vontade de absorver o opaco,
segurar entre as mãos o adejar das asas,
beber a alquimia da lonjura do voo
predestinado à melodia da obscuridade
que carrega consigo o segredo das ásvores
e deixo-me ficar, como barro sedento,
ou vertigem de musgo segurando-se à laje,
observando o azul de um telhado sem casa
e o espanto da miragem crecendo num menino parado.


  Fernando Fitas. Elegia dos Pássaros. Fafe: Editora Labirinto, 2021, p 58.
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domingo, 5 de setembro de 2021


                         Rarefação


certas tardes a presença das coisas e de nós
rarefaz-se até ao remorso


é em março, em junho, em setembro,
caímos na melancolia do silêncio
sobre as paredes,
não habitamos lugar nenhum,
somos inóspitos
e sós


o ar queima ao passar 
nas narinas e pela boca


é como se uma violência
mansa, desmedida,
deslassasse o mundo
e fosse culpa nossa


como se nem a poesia
pudesse suportar dor tamanha,
nem para ela houvesse
consolo ou outra forma
de expiação


João Ricardo Lopes. Eutrapelia. Fafe: Editora Labirinto, 2021, p 48.
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