terça-feira, 26 de julho de 2022


      o tempo não faz concessões ao tempo


o olhar vai nu, desfasado das intenções que o tempo ardeu
dos dois lados do espelho.
atrás das costas move-se uma brisa imparável.
pressinto a doença no corpo que desenlaça discretamente a
luz e segue adiante.
o tempo não faz concessões ao tempo.
a sombra jurou fidelidade à luz desde o primeiro engano.


   Maria José Quintela. Breviário de Sombras. Fafe: Editora Labirinto, 2022, p 31.
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domingo, 24 de julho de 2022


                 Altro Compimento


È il primo di febbraio: e quando stamattina
ho aperto le persiane, nella terra di un vaso
ho scorto questo segno - una testina viva
un mezzo centimetro di verde senza colpa
che sarà tulipano, corolla fiammeggiante,

bucava la sua tana e il corso anticipava

e proprio l'altro giorno sui colli e nei giardini
scoppiavano mimose con squilli nel tepore
e dicono che i ghiri, i tassi e le marmotte
stravolti nel letargo si affaccino anzitempo
a vivere il risveglio traditi nell' istinto

e cosa ancora accade che sfugge al nostro sguardo
non tanto li all' esterno, ma al nostro microcosmo
dell' anima l' abisso, la sfida addormentata

a un orizzonte degno - un altro compimento.
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  Luca Bardoni. Anno naturale. Firenze: Passigli Editori, 2021, p 38 ( prefazione di Tommaso Lisa).
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sábado, 23 de julho de 2022


Não regresses do teu naufrágio,
tenho pedras no coração e uma neblina nos olhos
que me ofusca a memória.


Não regresses do teu naufrágio,
as palavras morreram onde as cotovias
procuravam amoras, framboesas e poemas de lume.


Não regresses do teu naufrágio,
os barcos atravessaram o sol, os bosques estão em silêncio,
o teu nome foi escrito nos lábios do vento.


  Luís Aguiar. No regaço da madrugada. Fafe: Editora Labirinto, 2022, p 25.
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quinta-feira, 21 de julho de 2022


                  La buscadora y la sombra


No SE ENCUENTRA lo que se busca,
                                             si una no está preparada.
Yo fui buscando una luz, arañando el silencio de tus
ojos, rasgando el manto de los nada, con un dejo in-
consciente de amargura. Y encontré lunas llenas de
lágrimas, extendidas por la humedad de los páramos.
Encontré una llama sin (co)lapso y una flor equívoca
con un corazón tan negro como el resplandor del sol.
La luna masculina/ alemana me dijo: "hay que sombrear
la luz, darle la oscuridad de una orquídea y el latir
de un corazón verdadero". Toda fui huida, retorno,
negror, al fin Sombra: Sombra del hombre bajo mi
pesado párparo de luz y lloré, improvisando el
Olvido, de memoria, porque quien busca la luz
tiene que descubrir el verdadero sentido de la Sombra.


   Santiago Aguaded Landero. Volaverunt opus nigrum. Sevilla: Algaida Editores, 2018, p 65.
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segunda-feira, 18 de julho de 2022


                                  Vida


Os meus mortos não morreram nem sequer me pertencem.
Vivem na fímbria das estrelas, em animadas conversas
com deuses de parte incerta, que lhes invejam a graça,
o estilo e o modo peculiar como dobram
com a ponta da língua algumas consoantes mais afoitas.
Os meus mortos espreitam-me sempre do lado de lá.
Vigiam-me o sono com os seus delicados olhos de âmbar
e ciciam palavras redentoras que me agasalham os dias
e apaziguam as noites mais escuras.
Os meus mortos visitam-me sem se fazerem anunciar.
Trazem-me memórias embrulhadas nos mais finos cetins,
cobertas com uma fina película de orvalho,
que apenas me atrevo a abrir
quando pouso a cabeça sobre a almofada
e ouço as suas vozes suaves virem ao meu encontro.


  Sérgio Almeida. revolver. Lisboa: Guerra e Paz Editores, 2022, p 32.
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quarta-feira, 13 de julho de 2022


      Inventário


Nu
desprevenido
sentado sobre um tufo de urtigas
delas sofrendo a irritação
tomada como dádiva
de quem assim se oferece em calado amor
e mágoa
aceitando a espinha encravada na garganta
espinha miúda e ligeiro memorial
da vida contra o nada

tão vasto é o drama da terra
entre humanos e seus cúmplices e vítimas
no circuito imparável do terror
- feroz diagonal da sufocação -

esta pequena dor
não constará no inventário divino


   Levi Condinho. Colheita serôdia, inéditos e dispersos. Vila Nova de Famalicão: Edições Húmus, 2020, p 33.
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terça-feira, 12 de julho de 2022


             Ressonância magnética


O amor verdadeiro não cabe nas palavras
é um incêndio sem nome uma longa viagem
que a solidão percorre à luz de ouro dos dias
Tal como a força do mar com seu rumor sem fim
recebe-o um areal sempre desabitado
ou as falésias firmes prontas à combustão
do sol nascente
Envelhece lado a lado o amor mais perfeito
mas é diante do frio que bem se faz sentir
a marcha do crepúsculo a folhagem do tempo
caída no lago das palavras perante espigas que
resistem
na estranha lealdade que junta
o coração aos dedos infinitos
Apesar das razões do corpo
das suas vadiagens perdidas
o amor verdadeiro é uma morada
que dispensa o sentido


   José Manuel de Vasconcelos. Os grandes lagos da noite. Vila Nova de Famalicão: Edições Húmus, 2021, p 7.
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quinta-feira, 7 de julho de 2022


LIVRA-ME DO REINO DA QUANTIDADE

 

 Livra-me do reino da quantidade.

Não permitas que seja valorado

pelo número de amigos ou de seguidores

que pudesse ter numa coisa chamada rede.

Faz de mim esse milagre minúsculo como a folha de um salgueiro acabada de irromper.

Apaga a minha assinatura eletrónica dos servidores que me sufocam.

Limpa de servilismos a minha rotina.

Faz com que me escutem ainda que seja eu o único que diz o que digo.

Faz com que não tenha de pedir milhares

ou dezenas de milhar de assinaturas para obter uma ligeira mutação na ordem do mundo.

Livra-me das estatísticas, dos megafones, dos muitos.

Livra-me do engenho que seduz os fáceis.

Faz com que não tenha de me integrar em equipas.

Destrói a palavra cronograma.

Apaga os documentos em que anotei

o que vou pensar e sonhar nos próximos anos.

Concede transparência ao meu futuro.

Investe-me com a sabedoria da árvore,

Guarda para mim uma partícula da integridade de Sócrates

quando molha os seus pés no rio de Atenas.

Que possa sonhar único, escrever como único

rodeado de únicos.

Deixa-me que vista as minhas melhores roupas

para ler os clássicos.

Não tenha de olhar para as listas de ficção ou da não ficção,

as cifras de audiência, o número de visitantes.

Retira-me da cultura de massas que me oprime a caixa torácica

com o seu descaramento crescente em proporção geométrica.

Faz com que a razão como um vento delicado cruze no meu cérebro outros cérebros sem gritos.

Dá-me força para prosseguir ainda que não tenha ninguém

que acompanhe o meu pensamento.

Dá-me um coração sensato, mas não excluas a loucura nem a valentia necessárias

para me opor com elegância às necessidades,

para ser invulnerável às modas,

para prescindir das bibliografias com um golpe de audácia.

Cumpre a tua promessa: Que se abram as portas.

Arromba as grades das reuniões, dos conselhos, comités, comissões e assembleias,

para que possa irromper a manhã em que sopra a primavera impaciente.

Apaga as convocatórias e as notificações.

Tu, que és inimigo acérrimo de todo o absurdo,

anula de vez as entelequias.

Faz com que não tenha de preencher mais formulários.

Livra a minha pele os códigos de barras.

Deixa que tire de cima de mim as cifras alfanuméricas que o Poder me impõe.

Conduz-me ao meu tempo, à época da água.

Deixa que me descalce no meio do prado.

Deixa-me ser o último qualitativo.

Concede-me que viva como Montaigne

ou como Jaccottet à luz do inverno.

Liberta-me do reino da quantidade.

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 Juan Antonio Gonzalez Iglesias. Confiado. Madrid: Visor Libros, 2015, pp 32-34 (Tradução de Victor Oliveira Mateus).

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quarta-feira, 6 de julho de 2022


           margem

 

afinal não era difícil

 

 tranquei as portas

entaipei as janelas

calafetei todas as frestas

 

 deixei num estendal perdido

rodilhos robertos restos

 

 e trouxe para dentro

os livros a música os amigos

apenas os mais leais

 

 e digo entredentes

fodam-se uns aos outros

que a mim não fodem mais

 

 (Inédito)

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domingo, 3 de julho de 2022


os dias de Soror Alicante do Céu
no mosteiro de Soole


o castigo e o cinto
a lã ao postigo
(é pecado mijar
no silêncio da grade)


o mendigo enganado
o bardo e o frade
de cotão no umbigo
e espinho do cardo


o carneiro inchado
a donzela porreira
de seio fanado
e liga de freira


o cilício de nastro
o amante filtrado
o cu de alabastro
da alcoviteira


o fim do silêncio
a angústia monástica
a fita de enxofre


(que lua fantástica!)
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  António Ferra. lengas e narrativas. Vila Nova de Famalicão: Edições Húmus, 2022, pp 41-42.
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sexta-feira, 1 de julho de 2022


                Elegia retomada

Turistas que pastais ao sol poente
olhai:
António Nobre passou por aqui um dia
achacado e só
(os males de Anto, já se vê)
à frente do cortejo tísico de velhas como choupos,
de pescadores e virgens enluaradas.
É certo que em Paris não aprendera línguas
mas escrevia fluentemente o português
e sobretudo lia
lia Garrett mais este livro triste que é Portugal
escrito sobre as margens do nosso largo rio emocional,
lia-o por dentro como mais ninguém nas linhas
e entrelinhas onde cresciam musgos
e misérias.
Mas porquê lixar-vos com estas tretas?
- os Cursos de Verão são na Faculdade de Letras
e ainda vão na 44ª edição! -
Ficai à vontade!
Passados os estivais calores de '75
podeis de novo encharcar-vos da melancolia deste país
em que de Abril
só restam m/águas mil:
servi-vos do sal ou do céu
com que temperamos a humidade que nos vai na alma
bebei-nos o sol de norte a sul
fotografai-nos os rostos espantados
para entulho e glória dos Museus do Subdesenvolvimento
contemporâneo.
Mas sabei que um rio subterrâneo
recomeça dentro de nós a comprimir-se contra as margens.


   Urbano Bettencourt. outros nomes outras guerras, Antologia. Lajes do Pico: Companhia das Ilhas, 2014, pp 13-14.
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