terça-feira, 8 de dezembro de 2020

 Informação sem sabedoria


47. A verdadeira sabedoria pressupõe o encontro com a realidade. Hoje, porém, tudo se pode produzir, dissimular, modificar. Isto faz com que o encontro direto com as limitações da realidade se torne insuportável. Em consequência, implementa-se um mecanismo de "seleção", criando-se o hábito de separar imediatamente o que gosto daquilo que não gosto, as coisas atraentes das desagradáveis. A mesma lógica preside à escolha das pessoas com quem se decide partilhar o mundo. Assim, as pessoas ou situações que feriam a nossa sensibilidade ou nos causavam aversão, hoje, são simplesmente eliminadas nas redes virtuais, construindo um círculo virtual que nos isola do mundo em que vivemos.


48. Sentar-se a escutar o outro, característico dum encontro humano, é um paradigma de atitude recetiva, de quem supera o narcisismo e acolhe o outro, presta-lhe atenção, dá-lhe lugar no próprio círculo. Mas "o mundo de hoje, na sua maioria, é um mundo surdo (...). Às vezes, a velocidade do mundo moderno, o frenesim impede-nos de escutar bem o que outro diz. Quando está a meio do seu diálogo, já o interrompemos e queremos replicar quando ele ainda não acabou de falar. Não devemos perder a capacidade de escuta" (...).


49. Ao desaparecer o silêncio e a escuta, transformando tudo em cliques e mensagens rápidas e ansiosas, coloca-se em perigo esta escuta básica de uma comunicação humana sábia. Cria-se um novo estilo de vida, no qual cada um constrói o que deseja ter à sua frente, excluindo tudo aquilo que não se pode controlar ou conhecer superficial e instantaneamente. Por sua lógica intrínseca, esta dinâmica impede aquela reflexão serena que poderia levar-nos a uma sabedoria comum..


50. Podemos buscar juntos a verdade no diálogo, na conversa tranquila ou na discussão apaixonada. É um caminho perseverante, feito também de silêncios e sofrimentos, capaz de recolher pacientemente a vasta experiência das pessoas e dos povos. A acumulação esmagadora de informações que nos inundam não significa maior sabedoria. A sabedoria não se fabrica com buscas impacientes na internet, nem é um somatório de informações cuja veracidade não está garantida. Desta forma, não se amadurece no encontro com a verdade. As conversas giram, em última análise, ao redor das notícias mais recentes; são meramente horizontais e cumulativas. Mas não se presta uma atenção prolongada e penetrante ao coração da vida, nem se reconhece o que é essencial para dar um sentido à existência. Assim, a liberdade transforma-se numa ilusão que nos vendem, confundindo-se com a liberdade de navegar frente a um visor. O problema é que um caminho de fraternidade, local e universal, só pode ser percorrido por espíritos livres e dispostos a encontros reais.

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    Francisco, Papa. Fratelli Tutti, Carta Encíclica Sobre a Fraternidade e a Amizade Social. Lisboa: Paulinas, 2020, pp 32-34.

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domingo, 6 de dezembro de 2020

 

   A criança, frente a uma mãe que lhe surge como maravilhosa, grandiosa, sabendo tudo, capaz de tudo prever ou tendo um comportamento demasiado atencioso, corre o risco de construir uma inquietação específica relativamente à sua condição infantil, é a posição daquele que não está ainda concluído, então a função materna coloca a mãe numa posição de objeto  omnipotente.

   Uma má mãe pode assumir papeis diferenciados. Semelhante à fada Carabosse, ela lançará um mau olhado sobre a criança tornando-a dependente dela, indo mesmo para além dos pedidos da criança antes mesmo que ela os tenha manifestado, o que faz com que ela nunca chegue a saber aquilo que quer ou sente na realidade. Ora, todos nós temos necessidade, para nos construirmos, de abandonar o imediato que nos satisfaz, de conseguir distanciamento relativamente ao objeto. Separar-se da sua mãe equivale a abandonar a satisfação imediata e renunciar ao prazer que agrada para poder encontrar a via do seu próprio desejo, pois o aparelho psíquico precisa de se desenvolver e de diferir a satisfação.

   Essa mãe, que se coloca de imediato no lugar do seu filho e que julga saber - antes mesmo dele - aquilo de que ele tem necessidade, pratica uma espécie de engorda não permitindo uma boa diferenciação do estado oral (1). Por essa razão, o seu filho terá dificuldade em exprimir as suas necessidades, em distingui-las das pretensões dela e não conseguirá saber onde se situa o seu próprio desejo. Esta mãe má por excesso que acabo de descrever é uma mãe tóxica: ao tornar-se indispensável, intoxica o seu filho impedindo-o de crescer.(...) O pai nesta díade fusional mãe-filho não consegue o seu lugar, não tem mesmo lugar. Só existem ela e o filho.(...) Podemos ver nesta situação a origem de numerosas depressões chamadas anaclíticas e sobretudo de múltiplas toxicodependências ou farmacodependências - cujo desenvolvimento é considerável na nossa época - que acabam chamando a atenção para o facto de que a criança não pode adquirir a sua autonomia de homem.

   (...) Hoje, é o ciclo do desenvolvimento desestruturado que aumenta: perturbações da personalidade, perturbações identitárias e do comportamento, dependências, personalidade frágil ou procura desenfreada do prazer por incapacidade de se ter distanciado da mãe e integrado a perda e o desmame como estruturantes, daí o número considerável dos estados limite, mas também o incremento da rigidez perversa ou da paranoia (...). Daí também as passagens ao ato agressivo, à delinquência, à depressão e sobretudo às toxicodependências que conhecem hoje um aumento considerável.

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(1) O Estado Oral é o 1º Estádio do desenvolvimento do Aparelho Psíquico segundo Freud (N.T.).

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 Barbier, Dominique. La fabrique de l' homme pervers. Paris: Odile Jacob, 2017, pp 165-171 (Tradução de Victor Oliveira Mateus.)


sábado, 5 de dezembro de 2020


 A poetisa boliviana Paura Rodriguez Leyton mediou uma Mesa com Alfredo Pérez Alencart ( Espanha - Peru) e Victor Oliveira Mateus (Portugal), no dia 3 de dezembro pelas 16:00H (hora do Peru), 17:00H (hora da Bolívia), 21:00H (hora de Portugal), 22:00H (hora de Espanha). A referida Mesa constava da leitura de textos e de um debate subordinado ao tema: "A Poesia frente aos limites da Ciência" e inseria-se na "VII Semana Internacional de la Poesía en la Ciudad de los Anillos" (Bolívia).

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No dia 6 de novembro, pelas 14:00H (hora do Brasil) e 17:00H (hora de Portugal), o editor brasileiro Marcos Pamplona esteve à conversa com Victor Oliveira Mateus numa emissão da Rádio KotterTv.

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terça-feira, 1 de dezembro de 2020