terça-feira, 28 de agosto de 2018


   Mas Santiago. Desde pequenino que gostava de ir brincar para ao pé da mãe, levava uma bola para dar pontapés, ou o caixote a abarrotar de pecinhas de Lego (...)
   É nesta mudez que mãe e filho se sentem próximos. É um código que apareceu naturalmente. Mas não há nisto só tranquilidade. Maria Clara preocupa-se, Santiago fala pouco ou nada desde que balbuciou as primeiras palavras. Como se informasse que sabe da existência da linguagem, mas não lhe apetece usá-la.
   Maria Clara vive portanto em dois compartimentos muito distintos, sendo um o silêncio empedernido do filho e o outro as consultas com os pacientes, choros e pedidos de ajuda, alucinados a esbracejar.
   Foi Nuno Maria, desde pequeno atento e inquieto e lúcido, que um dia questionou os pais, enquanto o irmão mais novo baloiçava o tronco, sentado na beirinha do sofá  (...)
- Vocês sabem que isto não é normal, certo?
e a mãe não comentou, e foi o pai
- Dá-lhe tempo, temos de lhe dar tempo
- Mas qual tempo, pai, quanto mais tempo pior
- As pessoas não são todas iguais
- Sim, grande novidade, pai, sabes o que é que eu estou a dizer, achas que o vamos ajudar a fingir que não se passa nada?
- Não fales de normalidade, o que é isso da normalidade, quem somos nós para definir o que é normal? (...)
   O pai ficava zangado mais tempo, a mãe só muito triste, e quando ficavam a sós
- O Nuno, caramba, sempre a atacar, sempre agressivo
- Está só preocupado, Francisco, não está a atacar, acha é que nós não nos preocupamos com o irmão
- Não nos preocupamos? Ai não nos preocupamos, Clara? Quanto exames de merda já fez? Quantos consultas e relatórios e mais não sei quê? E o que é que tu e os teus coleguinhas descobriram? Nada, porra nenhuma, tu desculpa lá, mas foda-se mas é para isto tudo
   Maria Clara não responde, uma coisa sabe bem é que com o marido ou com o filho mais velho, a dado momento de uma conversa, é melhor não dizer mais nada (...)
   E nestas ocasiões ela cala-se, afasta-se devagarinho, até eles não a verem.
   E atrás da primeira porta que encontrar. Deixa-se deslizar até ao chão e chora.
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 Carvalho, Rodrigo Guedes de. Jogos de Raiva. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2018, pp 64-66.
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domingo, 26 de agosto de 2018


(...) Lourenço sentiu-se abrasado, contar como matara o motorista excitava-o, revelou uma mentira, disse-lhe que ele confessara aonde tinham ido, o que tinham feito, como tinham feito, não entrava em pormenores, extremou a mentira, gozou contigo, disse que há muito tempo não tinha uma mulher tão carecida, d. Consolação dirigiu-se-lhe, revoltada, deu-lhe uma bofetada, d. Consolação começou a chorar, Lourenço desapertou o cinto, desprendeu os botões da braguilha e forçou-a a colar a cara ao membro descomunal, do tamanho do rosto de d. Consolação, as cuecas cheiravam a mijo, d. Consolação enojou-se, golfou uma aguadilha, cuspo espesso, a garganta bolçava (...) Lourenço queria humilhá-la, ao mais íntimo do pudor católico, até às lágrimas, rasgar-lhe a vergonha, não imaginava que essa tarde d. Consolação brincara com a língua na glande do pénis do motorista, desejava preparar-se para, em futuros encontros, o chuchar consoladamente, dar um infinito prazer ao seu amor, como lhe chamava, ele poderia fazer com ela o que quisesse, era essa a prova do amor, amor desnudo (...) ele tinha de deixá-la em casa, ficaria para outro encontro, veio todo o caminho sentada no banco da frente, com a mão esquerda sobre a braguilha do motorista, roçando a fazenda das calças até ele, tresloucado, parar o carro na berma e depositar-lhe as duas mãos sobre o pénis, ela ria-se como uma menina enquanto, curiosa, lhe olhava as caretas que ele remedava enquanto se vinha.
   Presa pelo punho, d. Consolação foi obrigada a encostar a cara ao pénis do marido, um cheiro fedorento a urina agoniou-a fisicamente (...) um homem que assim força a esposa não é marido, é um embusteiro, um pervertido, d. Consolação percebeu que o motorista nada confessara, a sua personalidade não o permitia, homem de pundonor, não um farrapo como aquele Lourençozito, percebeu igualmente por uma frase solta - sofres na tua honra o que o teu amante sofreu na carne - que ele, o amante, já não estava vivo, uma cólera indómita, maior do que o peito que a albergava, uma cólera transformada em raiva assassina tomou conta de d. Consolação, não foi premeditada (...) d. Consolação, com o polegar e o indicador de uma mão tapou as narinas, para que o cheiro do mijo imundo a não agoniasse, entreabriu os lábios trementes dispostos a receber o cume cónico esponjoso do pénis de Lourenço, o rebotalho da humanidade, o refugo dos maridos, a ralé dos esposos, Lourenço empurrou o pénis para a boca da esposa, esta abriu ao máximo os lábios, como se o acolhesse de boa vontade, e, num instante, um segundo maior do que as 24 horas do dia, trincou-o com a máxima força possível, mordeu-o com o prazer do leão a esgarçar a carne da gazela, prazer tão excelso que, sem o querer nem esperar, sentiu líquidos vaginais a irromperem pela vulva, e mordeu de novo, e uma terceira vez, as mandíbulas como hastes de uma tenaz, os maxilares sólidos como as queixadas de um crocodilo, incisivos, caninos e molares numa força única, uma só direcção, um só ímpeto. Um líquido quente correu na língua de d. Consolação, encheu-lhe a boca, aflorou a garganta, Lourenço urrava como um urso encurralado, d. Consolação cuspiu o sangue, jogou-se para o tapete do quarto, rastejando, Lourenço, as calças em baixo, cuecas a meio das coxas, agarrado ao pénis ensanguentado...
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 Real, Miguel. Cadáveres às Costas. Alfragide: Publicações D. Quixote, 2018, pp 443-445.
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Morreu, em Livorno, o grande Lindsay Kemp (3/5/1938-25/8/2018). De nacionalidade inglesa, foi um brilhante coreógrafo, bailarino, ator, mimo e professor. De entre os seus alunos ressaltam nomes como David Bowie e Kate Bush. Kemp trabalhou praticamente até às vésperas da sua morte. Neste clip, com 77 anos, Kemp sobe ao palco como mimo para interpetar a sua Traviata de Verdi.
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terça-feira, 21 de agosto de 2018


   Ouvi claramente a sua voz no interior do meu cérebro, vi claramente a imagem do seu rosto, baixei a cabeça como se ele estivesse à minha frente e, ansioso e perturbado, pedi-lhe que me desse mais uns dias, uma semana no máximo, talvez um mês, o ano lectivo terminara, jurei ao inventado fantasma do meu pai (...). Não cumpri, não mais me lembrei da promessa. Direito era, para mim, um cadáver que já não arrastava às costas, um tempo longínquo que sabia à pré-história da minha vida. Não queria estragar a minha vida, não queria ser um advogadozeco como há mil por aí, não queria casar-me com mais uma Cremilde e ter um Tiago e uma Vanessa, almoçar cozido à portuguesa e ir ao cinema à segunda-feira que é mais barato (...) não queria tornar-me avô de netos como os filhos do Martim, não queria reformar-me e morrer num lar.
   Queria ser escritor, se preciso solteiro, pobre e viciado em café e nicotina, viver numa pequena cidade de província numa casa de quatro-águas, publicar um romance de dois em dois anos, gostaria de não dar entrevistas mas, se fosse necessário, lá teria de aturar a ignorância dos jornalistas, porventura conhecer um ou outro escritor, mas não frequentaria tertúlias e não defenderia nada nem acusaria ninguém, viveria como se o mundo não existisse embora ele fosse o alimento da minha escrita, os livros, as revistas, os jornais, não a televisão, seriam suficientes como companhia.
   "Pai, dá-me uns meses, não te desiludirei." Escrevi esta frase no caderno a tinta vermelha, ocupava uma linha na sua totalidade, e repeti e repeti a escrita, furiosamente, sempre por cima da primeira versão, até se tornar ininteligível, um borrão vermelho, uma mancha indecifrável.
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 Real, Miguel. Cadáveres às Costas. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2018, pp 267-268.
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   Como eu próprio o experimentara, d. Bartolomeu, desde o início dos tempos da democracia, simulava respeitar a burguesia, os professores do colégio dos filhos, os advogados da família, os funcionários públicos, os empregados bancários, os profissionais de seguros, os polícias, mas tratava-se apenas de um fingimento social, nunca deixara de olhar para a classe média como uma classe rafeira, advinda dos fundos da sociedade, ocupando os lugares do poder, como verdadeiros apparatchiques, impondo a sua ordem burocrática e burguesa. Fizera-me ver que, há duas ou três décadas, os avós e os pais destes zeladores do boa consciência social, analfabetos, lavravam a terra a pés nus e enxada alçada, não havia dinheiro para um burro ou um boi que lhes arrastasse o arado, desconheciam o que era uma casa de banho, dormiam embrulhados em palha com os filhos à ilharga e sorviam a sopa da mesma escudela, primeiro o pai, depois os filhos por ordem etária, finalmente a mãe, os restos. Hoje, com a democracia, os pais tinham ganho reformas da segurança social, as câmaras municipais tinham-lhes montado água e luz em casa, subsidiado o levantamento da casa de banho e da cozinha, e os filhos, aqueles que ora confrontavam a ascendência aristocrata de d. Bartolomeu, tinham estudado na primária e na secundária com livros custeados pela acção social escolar (...). Numa geração ou duas, tinham passado de crianças ranhosas e grosseiras, de mente obtusa, enfiadas nos esconsos dos casebres dos pais, a senhores doutores urbanos (...).  Eram estes senhoritos burgueses de fibra inferior, aqueles que no passado não subiriam do porão das naus, que o chamavam às finanças inspeccionando os dinheiros da família Peralta Perestrêllo. D. Bartolomeu estava fulo, gritava pelos corredores da mansão, já lhe tinham matado o pai na prisão, já o tinham obrigado a fugir para o Brasil durante um ano, desgastando-lhe os rendimentos, já lhe tinham roubado o latifúndio, o maior do Baixo Alentejo, quereriam agora, porventura, que ele se pusesse a trabalhar, a abrir escritório de advogado, como um vulgar burguesito, como o era o seu advogado, filho de um fura bilhetes dos comboios suburbanos, munido porém de uma inteligente lábia na barra dos tribunais, raramente perdia um processo, fora por isso que lhe entregara, logo em 1979, o da devolução da herdade alentejana da família, cuja indemnização equilibrara as contas da família por muitos anos.
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 Real, Miguel. Cadáveres às Costas. Alfragide: Publicações D. Quixote, 2018, pp 129-131.
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domingo, 19 de agosto de 2018



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Conferência de Tristan Garcia sobre o Real e suas Configurações, em 25 out. 2015.

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segunda-feira, 13 de agosto de 2018


       47  (Esta Secção 47 pertence ao longo poema Canto de mim mesmo )


Eu sou o mestre dos atletas,
Aquele que ao meu lado dilata mais o peito que eu vem provar a largura do meu,
Aquele que mais honra o meu estilo é quem com ele aprende a destruir o mestre.

O rapaz que amo, esse mesmo, torna-se homem não através de uma força
       fictícia mas pelos seus próprios meios,
Mais vale ser imoral que virtuoso por conformismo ou medo,
Amigo do seu amante, saboreando com prazer um pedaço de carne,
O amor não correspondido ou o desprezo ferem-no mais que o aço cortante,
Primeiro a cavalgar, a lutar, a atirar, a manobrar um batel, a cantar uma canção
       ou a tocar banjo,
Prefere as cicatrizes e a barba e as caras marcadas pela varíola às que foram
       ensaboadas,
E as queimadas pelo sol àquelas que dele se abrigam.

Ensino a afastarem-se de mim, mas quem se pode afastar de mim?
Quem quer que sejas, sigo-te desde este momento,
As minhas palavras hão-de atormentar-te os ouvidos até as compreenderes.

Não digo estas coisas só por um dólar ou para matar o tempo enquanto
       espero por um barco,
(Tu falas tanto como eu e eu sou a tua língua
Presa à tua boca e ela começa a soltar-se na minha.)

Juro nunca mais mencionar o amor ou a morte dentro de uma casa,
E juro nunca me revelar a ninguém senão àquele ou àquela que ficar a sós
       comigo ao ar livre.

Se quiseres compreender-me vai para as alturas ou para a praia,
O mosquito mais próximo é uma explicação, e uma gota ou um movimento
       das ondas uma chave,
O malho, o remo, o serrote, secundam as minhas palavras.

Nem um quarto ou uma escola com as janelas fechadas conseguem
       comungar comigo,
Só os simples e as crianças o fazem melhor.

O jovem mecânico está mais próximo de mim, conhece-me bem,
O lenhador que traz consigo o machado e o cântaro leva-me consigo
       durante todo o dia,
O rapaz da quinta, enquanto ara o campo, sente-se bem ao ouvir a
       minha voz,
Nos navios que navegam, navegam as minhas palavras, vou com os
       pescadores e marinheiros e amo-os.

É meu o soldado acampado ou em marcha,
Na noite anterior à batalha iminente muitos me procuram e não os
       esqueço,
Nessa noite solene (talvez seja a última) vêm procurar-me os que me
       conhecem.

O meu rosto roça o do caçador quando se deita só no seu cobertor,
O condutor pensando em mim não se importa com os solavancos
       da carruagem,
A jovem mãe e a velha mãe compreendem-me,
A rapariga e a esposa pousam a agulha por um instante e esquecem
       onde estão,
Elas e todos os outros querem retomar o que lhes tenho dito.
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 Whitman, Walt. Folhas de Erva/ Leaves of Grass Vol I. Lisboa: Relógio D' Água Editores, 2002, pp 161-163 ( Tradução de Maria de Lourdes Guimarães, Prefácio de Fernando Guimarães).
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domingo, 12 de agosto de 2018


(...) ousarei dizer que os seres humanos os conheço em mim mesma, e que os outros seres - de animais a plantas - é preciso escutá-los, ver-lhes a forma que passa - pêlos, folhas, pedras - e seguir com o texto a sua vida oculta e resplandecente.
   Eu não sou uma intelectual, conheço e cultivo o que é necessário à minha vida; se me lembrei de escrever foi porque,
sem esse lado da revelação, eu ficaria sem caminho; caminho sobre a escrita como sobre as águas; e, sem saber porquê, afirmo que da escrita só se pode desaparecer com precauções; um longo rasto de memória perdida me conduz; ainda bem que tenho pouca memória, a que retém conhecimentos já elaborados. Eu sirvo-me das passagens da cultura para atravessar sucessivas grutas onde eu própria ousei penetrar, num dia fechado da humanidade, ou seja, num dia em que tinham fechado a humanidade. Mas foi breve.
(...) Os cheiros da noite trazem-me uma recordação longínqua; são-me indispensáveis para viver.
(...) Sinto-me, outra vez, desamparada e triste. Se não fossem as colchas de renda das janelas para onde olho frequentes vezes, faltar-me-ia ainda mais espaço para continuar a viver com lucidez.
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 Llansol, Maria Gabriela. Numerosas Linhas, Livro de Horas III. Porto: Assírio & Alvim, 2013, pp 333-334.
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sexta-feira, 10 de agosto de 2018

A Gazeta de Poesia Inédita publicou hoje um inédito meu. Aqui: https://gazetadepoesiainedita.blogs.sapo.pt/victor-oliveira-mateus-interiores-19260
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                        Interiores
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O abandono estendia-se pela noite.
Nem um marco, por mais insignificante
que fosse, te desenhava uma clareira
alijada nas margens em que ias tecendo
gentes e terras que só tu sabias.
Um rumor avançava pelas fissuras do negro,
uma estranheza que não decifravas,
estampando nos barrotes do teto
um clamor de espíritos antigos,
de náufragos insidiosos
cuja vingança se ia esboroando
entre a trapeira e as latas enferrujadas
com craveiros e malvas à mistura.
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O abandono era o mais recuado cenário
e dele pendia um cabide, uma farda
da guerra de 14-18 com bolor nas bainhas.
Ao lado, entre a embocadura do sótão
e uma cómoda sufocada de molduras,
havia também um relógio de pé alto;
um relógio de mostrador amarelecido,
com numeração romana desenhada
a régua e esquadro. Um relógio
já sem ponteiros nem pêndulo,
relíquia com a qual passarias a medir
esse abandono, que não mais te largaria.
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© Victor Oliveira Mateus.
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terça-feira, 7 de agosto de 2018




                                    CLII

                           O Último Amante

Filho, não passes distraído ao lado do amor que te destino. À luz da obscuridade, tenho ainda a minha beleza, verás; o meu ocaso é mais ardente do que as primícias de qualquer jovem.

Não te deixes tentar pelo amor das virgens. O amor é uma arte difícil em que as jovens são pouco versadas. Darei de presente ao meu último amante toda a arte que aprendi. Uma vida, em suma.

Serás o meu último amante, eu sei. Esta é a boca que fez empalidecer de desejo uma cidade inteira. Estes, os cabelos, esses mesmos que foram celebrados num poema da grande Safo.

Para teu gozo, farei um ramo de tudo o que me resta da minha perdida mocidade.
Toda a memória será consumida nesse instante. Ofereço-te o mais precioso
- a flauta de Lykas, a faixa de Mnasídica,
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 Louÿs, Pierre. O Sexo de Ler de Bilitis (Les Chansons de Bilitis). Lisboa: Relógio D'Água Editores, 2010, p 339 (Prefácio e tradução de Maria Gabriela Llansol).
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segunda-feira, 6 de agosto de 2018


Henry Wriothesley, 3º Conde de Southampton, patrono e amigo próximo de Shakespeare.



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Sempre pensei os Sonetos 18 e 23 como dos mais belos poemas de amor alguma vez escritos. A Rebecca Shoptaw fez com o 23 uma curta. Muito se tem discutido acerca dos Sonetos, parece que do 127 ao 154 são todos dedicados a uma mulher (Lady Dark), enquanto os outros referem como muso Henry Wriothesley, 3º Conde de Southanpton. Uma coisa é certa: nenhum dos Sonetos é dedicado a Anne Hathaway, esposa de Shakespeare e mãe dos seus três filhos, mas  sem entrar nessa discussão, direi tão-só que confirmei a legendagem do filme e esta corresponde rigorosamente ao Soneto em causa.
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                       Soneto 23


Como imperfeito actor sobre o proscénio
com medo sai da parte que lhe dão,
ou fúria a mais nalgum mais feroz génio
sendo excessiva afrouxa o coração,
com medo da verdade até me esquece
dizer do amor o claro ritual
e a força o meu amor perder parece
co'a carga a mais do meu amor total.
Oh, deixa que em meu livro, eloquente,
fale meu peito num presságio mudo
que amor defende, espera e paga urgente,
mais que a língua que disse tudo e tudo.
    Saibas ler o silente amor escrito!
    Olhos ouvir, do amor é fino esprito.
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  Shakespeare. Sonetos. Lisboa: Bertrand Editora, 2002, p 57 (Tradução de Vasco Graça Moura).
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Outra tradução:
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Soneto 23 - William Shakespeare

Como no palco o ator que é imperfeito
Faz mal o seu papel só por temor,
Ou quem, por ter repleto de ódio o peito
Vê o coração quebrar-se num tremor,

Em mim, por timidez, fica omitido
O rito mais solene da paixão;
E o meu amor eu vejo enfraquecido,
Vergado pela própria dimensão.

Seja meu livro então minha eloqüência,
Arauto mudo do que diz meu peito,
Que implora amor e busca recompensa
Mais que a língua que mais o tenha feito.
Saiba ler o que escreve o amor calado:
Ouvir com os olhos é do amor o fado.
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O site brasileiro como eu escrevo é administrado pelo doutorando em Direito José Nunes. Para ele têm sido entrevistadas várias figuras da lusofonia, das quais saliento o teólogo Leonardo Boff e a filósofa Marcia Tiburi. Em julho deste ano, concedi também ao dito site, cujo convite agradeço, a entrevista que se segue, aqui:  https://comoeuescrevo.com/victor-oliveira-mateus/  
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O livro Negro Marfim (Editora Labirinto, 2015) esgotou a sua 1ª Edição, assim, foi posta à venda uma 2ª Edição da mesma obra (Editora Labirinto, 2018) e em outubro deste ano será apresentado um novo original: Aquilo que não tem nome (Editora Coisas de Ler, 2018), que incluirá um estudo sobre o mesmo texto da autoria da Profª Dra. Ana Paula Dias.
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domingo, 5 de agosto de 2018


Foi já publicada a Programação do Festival Literário de Ovar, 4ª Edição, cuja Mesa 11 irei integrar. A informação que se segue é apenas uma síntese, para informações mais detalhadas consultar os sites respetivos.
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Dia 13 de setembro (5ª feira):
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21:00H Sessão de Abertura: Engº Salvador Malheiro, Presidente da Câmara de Ovar.
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21:30H - Mesa 1: Luís Carlos Patraquim, Álvaro Laborinho Lúcio, Bruno Henrique.
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23:00H - Performance de Poesia: Daniel Maia-Pinto Rodrigues.
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Dia 14 de setembro (6ª feira):
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21:30H - Mesa 2: José Gardeazabal, Rodrigo Magalhães, Jacinto Lucas Pires, Ana Maria Ferreira.
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23:00H - Performance de Poesia: Aurelino Costa
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Dia 15 de setembro (sábado):
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11:00H - Mesa 3: Manuela Leitão, Miguel Borges, Carlos Nuno Granja.
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15:00H - Mesa 4: Fernando Pinto do Amaral, Fernando Mira Barros, Marcelo Teixeira.
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16:00 - Workshop de ilustração: Anabela Dias.
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16:30H - Mesa 5: Cristina Almeida Serôdio, Manuela Gonzaga, Isabel Nery.
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18:00H - Mesa 6: Joel Neto, João Morales.
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21:30H - Mesa 7: Joana Bertholo, Helena Vasconcelos, Cristina Marques.
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23:00H - Contar histórias - Clara Haddad.
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Dia 16 (domingo):
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11:30H - Mesa 8: Pedro Seromenho, Sofia Braga, Carlos Nuno Granja.
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15:00H - Mesa 9: Carlos Fiolhais, Maria João Cantinho.
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16:30H - Mesa 10: Filipa Martins; Raquel Gaspar Silva, Ana Maria Ferreira.
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18:00H - Mesa 11: Pedro Guilherme-Moreira, Rodrigo Guedes de Carvalho, Victor Oliveira Mateus.
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19:00H - Sessão de Encerramento.
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sexta-feira, 3 de agosto de 2018


                      CXVI

                A Criadagem


Quatro escravos me guardam a casa. À porta
tenho dois robustos trácios; na cozinha, um siciliano
e, para o serviço de quarto, uma frígia dócil e muda.

Os dois trácios são belos homens.
Usam um varapau para expulsar os amantes pobres
e um martelo para pregar na parede as coroas que me enviam.

O siciliano é un cozinheiro excepcional;
paguei por ele doze minas. É incomparável a cozinhar
bolinhos fritos e pastéis de papoulas.

A frígia dá-me banho, penteia-me, depila-me.
De manhã, dorme na minha cama
e, três noites por mês, substitui-me junto dos amantes.
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 Louÿs, Pierre. O Sexo de Ler de Bilitis (Les Chansons de Bilitis). Lisboa: Relógio D'Água Editores, 2010, p 267 (Prefácio e tradução de Maria Gabriela Llansol).
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                        LXXV

          Palavras na Noite


Descansamos, os olhos fechados, envoltas
no silêncio profundo que paira sobre a nossa cama.
Inefáveis noites de verão! Mas ela, que me crê adormecida,
pousa a sua mão ardente no meu braço.

Sussurra: "Estás a dormir, Bilitis?". Meu coração
estremece e, sem responder, continuo a respiração pousada
de uma mulher deitada nos seus sonhos.
Ouço o que me diz perfeitamente.

"Já que não podes ouvir-me, diz ela, ah!, como te amo!"
Diz e rediz o meu nome: "Bilitis... Bilitis...",
e aflora-me com as pontas trémulas dos seus dedos.

"É minha esta boca! Só minha! Haverá outra
que se lhe iguale neste mundo? Ah!, meu tesouro,
meu bem! São meus estes cabelos, esta nuca e estes braços nus..."
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Louÿs, Pierre. O Sexo de Ler de Bilitis (Les Chansons de Bilitis). Lisboa: Relógio D'Água Editores, 2010, p 183 (Prefácio e tradução de Maria Gabriela Llansol).
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quinta-feira, 2 de agosto de 2018



              Hotel en Cartagena


Como dormimos separados,
espero que amanezca
lo más pronto posible
para irme a tu cama.
Es lo mejor del día.


   Barrero, Hilario. Blending. Brooklyn, NY: Editorial Cuadernos de Humo, 2017, p 40.
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Así estamos nosotros, amor,
cada vez más invierno,
una rosa fugaz e inalcanzable
que mancha con su nieve
nuestras noches.

En estado de guerra nuestra alcoba
sitiada de humedad,
una grieta en el aire,
sabandijas de musgo por la luz.

No diseques la rosa,
déjala en el rosal
que el polvo funeral que en su belleza crece
nos tizne y nos prepare
para sentir su espina
que al clavarse
salte un chorro de sangre y nos condene


  Barrero, Hilario. Blending. Brooklyn, NY: Editorial Cuadernos de Humo, 2017, p 26.
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quarta-feira, 1 de agosto de 2018


       Tipografia Urbana


Nova Sodoma
tem criança
esquelética,
tropeçada
na pedra química.
Tem crime de faca,
de tiro
e de tarifas.
Casas
e calçadas
tristes,
cabisbaixas.
Tem arte circense
impregnada
de correria
ao compasso semafórico
e escritos rupestres
atravancados
em muros
e ideologias.
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  Frazon, Luis. O nome pela metade, São Paulo: Editora Patuá, 2017, p 49.
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   Archytas of Tarentum


O que sabemos
de nós mesmos
é um pouco mais
do que uma chave de fenda sabe
sobre um parafuso:
é um jeito abissal
de enroscar o mundo
e prendê-lo, firme.
Um íntimo conhecer, profundo,
do seu nome ferroso,
a matéria que se abraça.
É lançar-se adentro
e entretecer o aço
sob pressão
de mão alheia.
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 Frazon, Luiz. o nome pela metade. São Paulo: Editora Patuá, 2017, p 15.
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     Por todas as coisas que já estavam aqui


No lugar da casa que construímos
Havia antes um muro
Vivemos a vida toda com o nariz
Diante do muro

A casa que construímos
É de tempo e coisas juntadas
De pedrinhas recolhidas
Desse muro.


  Benini, Marcelo.Currais Concretos. São Paulo: Editora Intermeios, 2018, p 113.
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                     Desaparecidos


Não estamos entre os desaparecidos de nenhuma ditadura
Não tivemos nossos rostos estampados em contas de água e luz
Não estávamos no genocídio armênio
Nem fomos enviados a campos de concentração
Não lutamos ao lado de Solano López
Não somos vítimas da política liberal para os povos originários
Nem mesmo tivemos nossos nomes anunciados
Pelos alto-falantes dos parques de diversão
Simplesmente desaparecemos.


  Benini, Marcelo. Currais Concretos. São Paulo: Editora Intermeios, 2018, p 69.
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