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quinta-feira, 12 de setembro de 2024


Nunca perder de vista o gráfico de uma vida humana, que não se compõe, digam o que disserem, de uma horizontal e duas perpendiculares, mas sim de três linhas sinuosas, prolongadas no infinito, incessantemente aproximadas e divergindo sem cessar: o que um homem julgou ser, o que ele quis ser e o que ele foi.
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Marguerite Yourcenar. Apontamentos sobre as Memórias de Adriano. Lisboa: Editora Ulisseia, 2000, p 265 (Tradução de Maria Lamas).
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Foto: Marguerite Yourcenar com a tradutora e académica Grace Frick, sua companheira  até à morte de Grace ( 40 anos!), na sua casa na ilha de Mount Desert (E.U.A.).
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sábado, 17 de agosto de 2024


Com a maior parte dos seres, os mais ligeiros, os mais superficiais desses contactos bastam ao nosso desejo, ou mesmo já o excedem.. Que eles insistam, se multipliquem em volta de uma única criatura até a cativar completamente; que cada parcela de um corpo assuma para nós tantas significações perturbantes como os traços de uma fisionomia; que um único ser, em vez de nos inspirar quando muito irritação, prazer ou aborrecimento, nos obsidie como uma música ou nos atormente como um problema; que ele passe da periferia do nosso universo ao seu centro, se nos torne, enfim, mais indispensável que nós próprios, e o espantoso prodígio realiza-se, no que eu vejo mais uma invasão da carne pelo espírito que um jogo da carne.
Tais pontos de vista sobre o amor poderiam conduzir a uma carreira de sedutor. Se a não segui foi sem dúvida porque fiz outra coisa, aliás melhor. À falta de génio, semelhante carreira requer cuidados e mesmo estratagemas, para os quais me sentia pouco disposto. Essas armadilhas preparadas, sempre as mesmas, essa rotina restringida a perpétuos encontros, limitada pela pela própria conquista, fatigaram-me. A técnica do grande sedutor exige, na passagem de um objecto a outro, uma facilidade, uma indiferença que eu não tenho relativamente a eles; de qualquer maneira, deixaram-me mais que eu os deixei a eles; nunca compreendi que alguém se saciasse de um ser. O desejo de conhecer exactamente as riquezas que cada novo amor nos traz, de o ver mudar, talvez de o ver envelhecer, concilia-se mal com a multiplicidade das conquitas (...) O amador de beleza acaba por encontrá-la em toda a parte, filão de ouro nos mais ignóbeis veios; por experimentar, ao tocar essas obras-primas fragmentárias, sujas ou quebradas, um prazer de único conhecedor a coleccionar barros considerados vulgares.
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Marguerite Yourcenar. Memórias de Adriano. Lisboa: Editora Ulisseia, 2000, pp 18-19 (Tradução de Maria Lamas).
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quarta-feira, 22 de setembro de 2021

(Excerto do monólogo ficcionado do escultor Miguel Ângelo para o seu jovem modelo Gherardo Perini):
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.Se fosses meu filho, Gherardo, eu não te amaria mais, mas não teria que perguntar-te porquê. Toda a minha vida procurei respostas a perguntas que talvez não tenham resposta (...)
Assim, tu partes. Na minha idade já não se dá importância a uma separação, mesmo que definitiva. Eu bem sei que os seres que amamos e que nos amam mais se vão separando insensivelmente de nós a cada momento que passa. É também deste modo que se vão separando de si próprios. (...) É certo que compreendo que tudo isto é ilusão, como o resto, e que o futuro não existe. Os homens que inventaram o tempo, inventaram por contraste a eternidade, mas a negação do tempo é tão vã como ele próprio. Não há nem passado nem futuro mas apenas uma série de presentes sucessivos, um caminho perpetuamente destruído e continuado onde todos vamos avançando (...)
O amor de alguém é um presente tão inesperado e tão pouco merecido que devemos espantar-nos que não no-lo retirem mais cedo. (...) Não se possui ninguém (mesmo os que pecam não o conseguem) e, sendo a arte a única forma de posse verdadeira, o que importa é recriar um ser e não prendê-lo.
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 Marguerite Yourcenar. O Tempo Esse Grande Escultor. Miraflores: Difel, 2001, pp 18-19 (Tradução de Helena Vaz da Silva).
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sexta-feira, 14 de agosto de 2020

 

A ternura humana tem necessidade de solidão à sua volta, e dum mínimo de calma na insegurança. Faz-se mal o amor, ou a amizade, num aposento cheio de gente, entre dois serviços de faxina numa estrumeira. Contra todas as previsões, essa estrumeira era bem aquilo em que a vida se tornara para mim em Kratovicé. Apenas Sofia resistia nesta atmosfera dum tédio sinistro e verdadeiramente mortal, e é bastante natural que a infelicidade resista melhor às chatices do que o seu contrário.

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   Yourcenar, Marguerite. O Golpe de Misericórdia. Lisboa: Editora Arcádia,, 1978, p 65.

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quarta-feira, 12 de agosto de 2020

(...) vi reaparecer um Conrad envergando um elegante uniforme que deveria ter custado um dos últimos diamantes da tia (...). Conservava uma inocência de criança, uma doçura de rapariga, e aquela valentia de sonâmbulo com que outrora trepava para o dorso de um touro ou duma vaca (...). Logo à primeira vista, reconheci que a sua vida tinha parado na minha ausência; custou-me mais ter de admitir, a despeito das aparências, que o mesmo se passava comigo. Longe de Conrad eu vivera como em viagem. Tudo nele me inspirava uma confiança que de futuro nunca me seria possível depositar noutra pessoa. A seu lado, o espírito e o corpo não podiam deixar de estar em repouso, tranquilizados por tanta simplicidade e franqueza, e por isso mesmo livres para se ocuparem do resto com o máximo de eficácia. Era o ideal companheiro de guerra, assim como tinha sido o ideal companheiro de infância. A amizade é, acima de tudo, certeza - é isso o que a distingue do amor. É também respeito, e aceitação total dum outro ser. 
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  Yourcenar, Marguerite. O Golpe de Misericórdia. Lisboa: Editora Arcádia, 1978, pp 40-41.
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sábado, 8 de fevereiro de 2020


E não podemos encerrar-nos durante anos num único pensamento sem fazer entrar nele, pouco a pouco, todas as rotinas de uma vida.
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 Yourcenar, Marguerite. Memórias de Adriano. Alfragide: Leya, 2018, p 247 (Tradução de Maria Lamas).
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sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

A Académie Française foi criada em 1635 por Richelieu, no reinado de Luís XIII, a ela compete ainda hoje a regulamentação do francês (vocabulário, sintaxe, etc.) é formada por 40 cadeiras, as dos imortais, que as ocuparão até à morte ou caso decidam resignar a esse estatuto. Apenas em 1980, e com forte empenho do escritor e académico Jean d' Ormesson, uma mulher consegue entrar na Casa dos Imortais.
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   Não tenho filhos e não o lamento. Sem dúvida, nas horas de fadiga e de fraqueza, em que nos renegamos a nós próprios, acusei-me por vezes de não ter procriado um filho que me continuasse. Mas esse desgosto tão vão baseia-se em duas hipóteses igualmente duvidosas: a de que um filho forçosamente nos prolonga e a de que este estranho amontoado de bem e de mal, esta massa de particularidades ínfimas e bizarras que constitui uma pessoa mereça ser prolongado. Utilizei o melhor que pude as minhas virtudes; tirei partido dos meus vícios; mas não tenho especial empenho em legar-me a alguém. Não é, aliás, pelo sangue que se estabelece a verdadeira continuidade humana...


 Yourcenar, Marguerite. Memórias de Adriano. Alfragide: Leya, 2018, p 222 (Tradução de Maria Lamas).
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terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

 Soube mais tarde que Antínoo aproveitara aquela ausência para persuadir Chábrias a acompanhá-lo a Canopo. E voltou a casa da feiticeira.
(...) Mas de manhã aconteceu-me tocar, por acaso, num rosto  coberto de lágrimas. Perguntei-lhe com impaciência a razão daquele choro; respondeu-me humildemente desculpando-se com a fadiga. Aceitei a mentira; tornei a adormecer. A sua verdadeira agonia passou-se naquele leito, a meu lado.
(...) não sei em que momento aquele belo lebréu saiu da minha vida. Pela décima segunda hora, Chábrias entrou, agitado. Contrariamente a todas as regras, o jovem havia saído da barca sem explicar o fim e a duração da ausência: tinham passado pelo menos duas horas depois da partida.
(...) Não havia nada mais a fazer senão explorar a margem. Uma série de reservatórios que deviam ter servido outrora para cerimónias sagradas comunicava com a enseada do rio: à claridade do crepúsculo, que descia rapidamente, Chábrias avistou na borda do último tanque uma veste dobrada e sandálias. Desci os degraus escorregadios: Antínoo estava deitado no fundo, já mergulhado no lado do rio. Com a ajuda de Chábrias, consegui levantar o corpo, que pesava, subitamente, como pedra. Chábrias chamou os barqueiros que improvisaram uma maca de pano. Hermógenes, chamado à presa, só pode verificar a morte (...) Tudo se desmoronava; tudo pareceu extinguir-se. O Zeus Olímpico, o Senhor de Tudo, o Salvador do Mundo aluíram e ficou só um homem de cabelos grisalhos soluçando na ponte de uma barca.


   Yourcenar, Marguerite. Memórias de Adriano. Alfragide: Leya, 2018, pp 177-179 (Tradução de Maria Lamas).
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segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020


(...) era demasiado fino para se não aperceber de que sucede com as violências da virtude o mesmo que com as do amor, que o seu mérito está precisamente na sua raridade, no seu carácter de obra-prima única, de excesso de belo.


  Yourcenar, Marguerite. Memórias de Adriano. Alfragide: Leya, 2018, p 149 (Tradução de Maria Lamas).
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domingo, 2 de fevereiro de 2020


   Duvido de que toda a filosofia do mundo consiga suprimir a escravatura: o mais que poderá suceder é mudarem-lhe o nome. Sou capaz  de imaginar formas de servidão piores que as nossas, por serem mais insidiosas: seja que consigam transformar os homens em máquinas estúpidas e satisfeitas, que se julgam livres quando estão subjugados, seja que desenvolvam neles, com exclusão dos repousos e prazeres humanos, um gosto pelo trabalho tão arrebatado como a paixão da guerra entre as raças bárbaras.


 Yourcenar, Marguerite. Memórias de Adriano. Alfragide: Leya, 2018, p 113 (Tradução de Maria Lamas).
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   A moral é uma convenção privada; a decência é uma questão pública; todo o desregramento excessivamente visível deu-me sempre a impressão de uma exibição de má qualidade.


Yourcenar, Marguerite. Memórias de Adriano. Alfragide: Leya, 2018, p 105 (Tradução de Maria Lamas).
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