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segunda-feira, 29 de novembro de 2021


   Como tem mudado o tom desta narrativa! Perco as rédeas dos meus nervos. A unidade do que somos - é tão fácil perdê-la! Dá-me a ideia de que me pegaram pela mão, arrastando-me para uma feira alucinante de surpresas. Quem entra na roda, subindo, descendo e cabriolando sem o querer, só poderá parar, recuperar-se, quando a roda parar também. E a desconexão dos factos? Sinto-a, mesmo sem a ir averiguar no que aí fica escrito. As vozes da coerência ensurdecem nestas malhas de neblina, ficam só audíveis os gritos.
   Mas tudo deve ser da noite. À hora em que vos escrevo, as lâmpadas adormecem nas esquinas, penduradas, como enforcados, da névoa ribeirinha. Ainda pensei em percorrer as ruas - fugindo de mim. Hoje, porém, seria inútil. Prefiro, daí, continuar amanhã. Amanhã é dia.
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Fernando Namora. domingo à tarde. Lisboa: TV Guia Editora, 1996, p 150.
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terça-feira, 16 de novembro de 2021


    Escrevo estas recordações com um mal-estar que não tenho capacidade para definir. É que da maneira como as narro, elas surgem-me tão adulteradas e ridículas que seria bem melhor, nem que fosse por pudor, guardá-las para mim. E talvez sejam mesmo ridículas e não haja modo de lhes dar coerência e dignidade. A vida é assim. É por isso que as histórias que se contam nos bons livros são suportáveis: torcem a vida, inventam-na, até lhe darem verosimilhança e uns restos de grandeza. (...)
    Mas já agora que comecei e me é urgente pôr cá fora uns entulhos para melhor os clarificar e esquecer, terei de ir por diante. Não volto a pedir-vos desculpa de ser tão desastrado nestas evocações.
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 Fernando Namora. domingo à tarde. Lisboa: TVGuia Editora, 1996, p 59.
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