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terça-feira, 6 de setembro de 2022


Héracles de pé junto à janela olhando o escuro antes da madrugada.
Quando faziam amor
Gerião gostava de tocar em lenta sucessão cada um dos ossos das costas de Héracles
à medida que se dobravam para longe de si
até a um qualquer sonho obscuro, passando as mãos
desde o início do pescoço
até ao fim da coluna, causando-lhe arrepios como uma raíz à chuva.
Héracles faz
um som baixo e move a cabeça na almofada, abre lentamente os olhos.
Começa.
Gerião o que se passa? Fogo, detesto quando choras. O que foi?
Gerião pensa intensamente.
Amei-te um dia, agora não te conheço. Não o diz.
Estava a pensar no tempo - ele tacteia -
sabes, como as pessoas estão distantes no tempo juntas e distantes
ao mesmo tempo - pára.
Héracles limpa as lágrimas do rosto de Gerião
com a mão. Não podes apenas foder e não pensar? Héracles sai da cama
e entra na casa-de-banho.
Depois volta e fica de pé junto à janela um longo bocado. Quando regressa
para a cama já está a amanhecer.
Bem Gerião é só mais um sábado de manhã eu a rir e tu a chorar,
diz, enquanto se deita.
Gerião vê-o a puxar o cobertor até ao queixo. Como nos velhos tempos,
Como nos velhos tempos, diz igualmente Gerião.


  Anne Carson. Autobiografia do vermelho. S/c.: não (edições), 2020, pp 149-150 (Tradução de João Concha e Ricardo Marques).
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quarta-feira, 31 de agosto de 2022


Face a outro ser humano os nossos comportamentos definem-se.

Gerião estava surpreendido consigo mesmo. Agora via Héracles quase todos os dias.
O instante natural
formando-se entre os dois drenou cada gota das paredes da sua vida
deixando para trás apenas fantasmas
farfalhando como um velho mapa. Não tinha nada a dizer a ninguém.
Sentia-se solto e brilhante.
Ardia na presença da mãe.
Já quase nem te conheço, disse ela encostada à porta do quarto dele.
(...)
O amor não
me tornou gentil ou bondoso, pensou Gerião enquanto ele e a sua mãe se olhavam
a partir de cantos opostos da luz.
Ele enchia os bolsos com dinheiro, chaves, rolos. Ela bateu levemente com o cigarro nas costas da mão.
(...)
A que horas voltas para casa? Perguntou ela. Não muito tarde, respondeu.
Uma pura e ousada vontade de desaparecer invadiu-o.
Diz-me Gerião o que é que tu gostas neste rapaz nesse Héracles podes dizer-me?
Se te posso dizer, pensou Gerião.
Mil coisas que não podia contar passaram-lhe pela cabeça. Héracles sabe muito sobre arte. Temos boas conversas.
Ela olhava não para ele mas através dele à medida que colocava o cigarro por acender no bolso da frente da camisa..
"Como é que a distância se mostra?" é uma simples pergunta directa. Estende-se a partir de um interior sem espaço até ao limite
do que pode ser amado. Depende da luz. Acendo isso? disse ele tirando
a caixa de fósforos
dos jeans enquanto caminhava até ela. Não querido. Ela afastava-se.
Devia mesmo deixar isto.


  Anne Carson. Autobiografia do vermelho. S/c.: não (edições), 2020, pp 48-49 (Tradução de Ricardo Marques e João Concha).
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domingo, 22 de agosto de 2021


(...)
A madrugada puxava o céu para cima como uma persiana
e de algures
o azul correu a direito em direcção ao mundo.
Então ultimamente ele liga-te.
Sim.
E diz-te que agora é melhor pessoa.
Mais ou menos.

E que mais.
E que não pode viver sem mim.
Sabes que dei com ele numa discoteca há umas noites e ele parecia vivo.
Ray o que é que ele quer que eu diga.
Não a pergunta é o que tu queres que ele diga.
Quero que ele diga que não pode viver sem mim.
Pois bingo.
Mas de modo a que eu acredite.
Lá estás tu a clamar às portas do paraíso.
Ou a sentir-me como me sinto como um corpo rasgado ao meio como um estado incompleto de algum metal num processo químico como uma gota de cobre incandescente à espera de ser ressuscitado
em ouro -
Não fiques à espera disso.
Figura de estilo.
Ele ainda tem roupa em tua casa?
Alguma.
Deita-a fora.
Não posso,
Conheces as regras para isto?
Não.
É porque há regras para isto. Um navio passa, forma-se um sulco e alguma espuma e depois desaparece.
Cala-te Ray.
Ele cuspiu.
Queres entrar para comer puré de batat? Depois tenho de pintar.
Estavam em casa do Ray.
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 Anne Carson. A beleza do marido. S/c: não (edições), 2020, pp 125-126 (Tradução de Tatiana Faia).
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sexta-feira, 20 de agosto de 2021


Porque me entregou a natureza a esta criatura - não lhe chames escolha minha,
eu fui aventurada: 
por alguma pura gravidade da própria existência,
conspiração do ser!
Tínhamos quinze anos,
era a aula de latim, fim da Primavera e fim de tarde, a perifrástica passiva,
por qualquer motivo virei-me na minha cadeira
e lá estava ele.
(...)
e não peço desculpa porque como disse a culpa não foi minha, eu estava desprotegida
em face da existência
e a existência depende da beleza.
No final. 
A existência não pára
até chegar à beleza e seguem-se então todas as consequencias que levam ao final.
Inútil é interpor uma análise
ou fazer sugestões equívocas.
Quid enim futurum fuit si ... O que é que teria acontecido se, etc.
A voz do professor de Latim
subiu e desceu em ondas calmas. Uma perifrástica passiva
pode substituir o imperfeito ou o mais que perfeito do conjuntivo
numa condicional irreal.
(...)
Porque é que tenho
esta frase na cabeça
como se tivesse acontecido há três horas e não há trinta anos!
Estou desprotegida ainda, agora que é noite.
Quão certos eles estavam em temer os seus perigos.
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 Anne Carson. A beleza do marido. S/c.: não (edições), 2020, pp 63-64 (Tradução de Tatiana Faia).
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