Mostrar mensagens com a etiqueta Mário Baggio. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Mário Baggio. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 16 de março de 2021


                     Aprendizado
.
.
Perguntei a meu pai enquanto caminhávamos:
- Pai, o que é a vida?
Meu pai ia com um facão numa das mãos, e dava golpes certeiros no capinzal, abrindo passagem. Eu ia atrás dele, admirado, observando como, num passe de mágica, o mundo se abria às minhas retinas ainda sem muito traquejo para ver o mundo. Ele suava. Eu suava. O braço de meu pai era incansável. Ele tinha afiado o facão na véspera, de modo que a lâmina não falhava diante do mato alto. O caminho se criava à nossa frente e eu estava cada vez mais espantado.
- A vida, filho - respondeu ele -, a vida é uma coisa que nunca é do jeito que a gente quer.
E continuou abrindo caminho a golpes de facão. Seguimos avançando.
.
.
  Mário Baggio. verás que tudo é mentira. Cachoeira do Sul: Editora Coralina, 2020, pp 15-16.
.
.
.

domingo, 14 de março de 2021


Amor
    

     A mensagem que ela mandou não poderia ser mais clara: "Não quero. Não insista. Me esqueça."
   Ele leu e desligou o celular. Buscou no armário uma mala pequena onde coubesse o necessário. Percorreu metade do mundo. Viu as novidades, experimentou comidas, descobriu cores, admirou luares e constelações, conheceu pessoas, estudou culturas, aprendeu idiomas, cantou canções e dançou danças, calçou sandálias e andou descalço, bebeu água de mares desconhecidos e quase morreu de sede, recuperou a risada amortecida, comprou casa.
    Ali, na casa, deitado na rede e olhando o céu, ligou o celular e respondeu: "Como se eu pudesse!"
.
.
 Mário Baggio. espantos para uso diário. Cachoeira do Sul: Editora Coralina, 2019, p 79.
.
.
.