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segunda-feira, 14 de agosto de 2023


                  Sonnet  104

To me, fair friend, you never can be old,
For as you were when first your eye I eyed,
Such seems your beauty still. Three winters cold
Have from the forests shook three summers' pride,
Three beauteous springs to yellow autumn turned
In process of the seasons have I seen,
Three April perfumes in three hot Junes burned,
Since first I saw you fresh, which yet are green.
Ah, yet doth beauty like a dial hand,
Steal from his figure, and no pace perceived;
So your sweet hue, which methinks still doth stand,
Hath motion, and mine eye may be deceived;
    For fear of which, hear this, thou age unbred:
    Ere you were born was beauty's summer dead.
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 William Shakespeare. 31 Sonetos. Lisboa: Relógio D' Água, 2015, p 58.
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Tradução de Ana Luísa Amaral:
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            Soneto 104

Para mim, belo amigo, nunca terás idade,
Pois tal como me foste, quando te olhei no olhar,
Assim me és: belo ainda. Três invernos medonhos
Agitaram dos ramos três Estios em esplendor.
Três gentis Primaveras se tornaram Outonos,
Eu vi as estações em constante mudar,
Três perfumes de Abril queimados por três Junhos
Desde que então te vi; e ainda: igual frescor.
Ah! Porém, a beleza, sem passo percebido,
Como braço do tempo recua, rouba a forma;
E a tua doce cor, parecendo não mudar,
Varia na mudança, pode iludir-me o olhar.
    Para que tal não fora, escutais, vós, por nascer:
    Antes de vós nascerdes, o mais belo morrera.
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William Shakespeare, idem, Tradução de Ana Luísa Amaral, p 59.
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quarta-feira, 15 de dezembro de 2021


              Falando em línguas


Em Praga, descobri um café
sem música nenhuma a ameaçar-me as musas,
só as vozes humanas
vestidas de uma língua que não sei,
de declinações tantas e muito
fricativa

À minha frente, dois jovens desatentos
a tudo o que não seja pele e olhar,
nesse desejo inconsequente e belo
de acolher o abismo,
de ser um corpo só, uma só alma
(ou isso que chamamos ao que
nos sobrevoa)

Foi partilhada a fatia de bolo que pediram
em êxtase comum,
neste café deste pedaço curto da cidade,
e a língua de uma música tão estranha para mim
vestiu-se de paixão,
foi declinada com os dois sorrindo,
comendo o bolo, seria doce e bom,
mereceria Magnificats quem sabe,
decerto o olhar deles, sim,
porque daqui, do canto do café onde me sento,
sou ignorante
da língua e dos costumes,
mas não o sou do amor

Podia o bolo ser moldado entre ovos
sem sabor, farinha muito rude e pouco fina,
que lhes havia de saber na mesma
àquilo a que chamamos paraíso:
um corpo em sobressalto e a língua
a apetecer palavras generosas,
como beatífico ou resplandecente

E a gente toda sentada a conversar neste café
sem música, a cidade, o céu já a escurecer,
tudo agora à volta deles ganha um halo
de luz
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  Ana Luísa Amaral. Mundo. Porto: Assírio & Alvim, 2021, pp 86-87.
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quinta-feira, 12 de dezembro de 2019


       A tentação: fala a serpente


Olha como é macia
a minha pele, mais macia
que a dele

como dispenso pernas,
braços, mãos, e me confundo
a verde e a castanho,

e o tronco atrás de nós
se compraz no meu corpo
e toda a árvore estremece
de prazer

Vem comigo e partilha
o segredo de ser sob
as estrelas: um lume
original

Não tenhas medo,
não te assustem as cores
da minha pele
nem o meu olho em fenda,
porta de entrada para tantas delícias
perdidas no jardim

nem esta coisa bífida
que fala,
mas que eles dizem fundir-se
com o mal

A lisura macia
que te ofereço
não custa o sal da terra:

tem o preço
do sol
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   Amaral, Ana Luísa. Ágora. Porto: Assírio & Alvim, 2019, pp 97-98.
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quarta-feira, 11 de dezembro de 2019


         Salomé após o crime


Quantas vezes te vi
e me surpreendi porque te olhava?
Sentindo a tentação de te espiar
e o desejo de amar
o que não tinha

Como saber
pelos sonhos mais nus
que me assaltavam
que eu não era paisagem
para ti?

Dizem luxúria só
onde houve amor
e um crime tão enorme de luxúria:
mas eu quis-te indefeso
como festa,
os teus lábios a festa para mim

Quantas vezes me vi
pensando no meu crime
e na história dos homens
a julgar-me!

Mas o que eu li
na bandeja do crime
foram os olhos com que tu
me olhavas
(finalmente eu paisagem)

e a luxúria
que há sempre
no amor


  Amaral, Ana Luísa. Ágora. Porto: Assírio & Alvim, 2019, pp 41-42.
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