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terça-feira, 31 de julho de 2018



                      Soneto: A Prenda (1)


Envia-me uma prenda para que a minha esperança sobreviva
   ou os meus pensamentos ansiosos possam dormir e repousar;
envia-me algum mel para adoçar a minha colmeia,
   para que nas minhas paixões possa esperar pelo melhor.
Não te peço uma fita tecida pelas tuas mãos,
   para tecer os nossos amores no maravilhoso esforço
da juventude agora emocionada, nem um anel para mostrar
   a situação do nosso afecto que, como este, é redondo e simples,
assim na simplicidade, deveriam encontrar-se os nossos amores.
   Não, nem os corais que envolvem o teu pulso,
entrelaçados, juntos, para que venham mostrar
   aos nossos pensamentos como deviam ficar unidos.
Não, nem o teu retrato ainda que tão gracioso
   e atraente, porque o que é melhor é do melhor que gosta:
nem os engenhosos versos que tantos são
   entre os escritos que tu me enviaste.

Tudo o que de ti já possuo é para mim suficiente:
Jura apenas acreditares como te amo, e nada mais.
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  Donee, John. Poemas. Lisboa: Relógio D'Água Editores, 2017, p 81 (Tradução e Prefácio de Maria de Lourdes Guimarães e Fernando Guimarães).
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(1) Este soneto que pertence ao conjunto "Songs and Sonnets" apresenta uma certa liberdade quanto à forma, pois ultrapassa o número habitual de versos que, no caso do chamado estrambote do soneto tradicional, se seguem aos catorze versos do soneto tradicional, pois esse acrescento raramente atinge mais do que dois versos.
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segunda-feira, 30 de julho de 2018


              O Isco

Vem viver comigo e sê o meu amor,
e novos prazeres experimentaremos
entre areias douradas e ribeiros cristalinos,
com fios de seda e anzóis de prata.

Ali correrá o rumoroso rio
mais aquecido pelos teus olhos do que pelo sol,
onde os peixes enamorados, implorando,
entre si, a si mesmos se atraiçoam.

Quando nadares naquela água viva,
cada peixe em cada canal
há-de dirigir-se a ti amorosamente,
mais feliz por te achar do que tu a ele.

Se odeias ser assim vista
pelo sol e pela lua, obscurece-os a ambos,
e se eu próprio te puder ver,
da sua luz não necessitarei, tendo-te a ti.

Que outros, enregelados, com canas de pesca,
feridas as suas pernas por conchas e algas,
ou traiçoeiramente prendam o pobre peixe
com laços que o apanhem ou com redes ondulantes;

que mãos ásperas e ousadas, do seu ninho viscoso
o venham libertar junto aos bancos de areia;
ou que, estranhos traidores, as moscas nos fios de seda
enfeiticem os olhos errantes do infeliz peixe.

Tu não necessitas de tais embustes,
porque és o teu próprio isco,
e, ai de mim, muito mais sábio que eu
será aquele peixe que não é apanhado.
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  Donne, John. Poemas. Lisboa: Relógio D'Água Editores, 2017, p 23 (Tradução e Prefácio de Maria de Lourdes Guimarães e Fernando Guimarães).
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