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sexta-feira, 25 de junho de 2021


     Mitologia galante


Pudesse eu ser um touro,
um touro belo, manso e branco,
que te levasse à certa; às montanhas brancas
de Creta, como uma cratera de Tarento,
um retrato de jovem de Rafael,
sobre a ilha hormonal de velha criança.

Salvar-te-ia (afinal, eu era filho de um deus),
dirias: "Estou apaixonada por um touro"
e seríamos cantados por poetas de Alexandria.
Neva. Todo o país é um gueto.

Deuses precisam por vezes de se sentir vivos.
A crise de meia-idade gera
incontinentes e continentes
e tu, matrona, com tuas colinas cansadas
olharás com acinte a ninfa: o teu espelho passado.
Aproxima-te. Eu sou um touro.
Eu sou um touro, belo, manso, branco.


   Daniel Jonas. Cães de chuva. Porto: Assírio & Alvim, 2021, p 112.
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quinta-feira, 24 de junho de 2021


       Ele teme não ter amor para o tanto que ama


O que te faço desta alegria com que te olho?
Perder-te seria inglório, cuidar-te parece pouco.
Que faço, o que te faço,
se ultrapasso o que me sinto,
da transfusão me transbordando,
e mais temo o fracasso
de não saber chamar o nome
ao que desamo de tanto amar?

Talvez que eu em mim já não exista...
Que vivas, provas que há vida
pra lá de mim;
porém não podes tu apenas ser quem sejas
e seres, resplendente,
a sombra de perdão.
O que fazer às coisas que eram antes...
Que te olho de lá de mim!

Que a alegria tomou conta das alegrias,
esboroou a crosta ao pão da noite
e deu a ver o miolo azul do dia
e um girassol de luz por entre as nuvens!
Que o pouco de mim que eu era
entornou-se e se fez grande
e a baleia quis pulmões no lento mar
pra respirar-se em se afundar de si...

Não sei o que me faça deste tanto que me apouca.
Que fazer? Que as montanhas são tão altas!
Como dançar com gigantes?
Que loucura de se ter!
Quando me esqueceres, por Deus, não me esqueças!
O espelho fez-me novo já tão velho...
Desliga a máquina a este sonho.
O meu coração mais puro do que eu!


  Daniel Jonas. Cães de chuva. Porto: Assírio & Alvim, 2021, pp 25-26.
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quinta-feira, 31 de outubro de 2019


Jamais tive eu amor senão por ti.
Paixões o vento as trouxe e as levou
Qual ave migratória que pousou
Em temporário ninho onde vivi,
Amor, porém, é ave que povoa
O coração da gente e nele exulta
E ocupa de outra ave mais estulta
O coração partido e o perdoa.
Mas que fazer, se amor o dei ao vento
E sinto o coração ninho vazio
E sinto um grão calor e grande frio
E amo em oração no meu convento?
Eu amo quem amei e me deixou;
Não amo quem pousou - só quem voou.
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    Jonas, Daniel. Oblívio. Porto: Assírio & Alvim, 2017, p 50.
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quarta-feira, 30 de outubro de 2019


Aqui nesta tebaida, ouço a paz.
Aceito a tua luz, o teu negrume,
Meus olhos são pastagens p'ra teu estrume,
Aceito o que me deres e o que não dás.
Eu ouço a metafísica das sarças.
As bruxas megalíticas das argas,
Reviro pedras, lágrimas amargas,
Procuro-te nos paus, nas rãs, nas esparsas.
Aceito que te busque e não me fales.
Onde estarás: na urze, na perpétua,
No verso mais perfeito, em rima incerta?
Aceito ouvir-te e tudo tu me cales.
À uma és e não; o tudo e o quase.
Em toda a parte estás, eclipse e fase.
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  Jonas, Daniel. Oblívio. Porto: Assírio & Alvim, 2017, p 41.
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