Mostrar mensagens com a etiqueta Julian Stryjkowski. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Julian Stryjkowski. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 28 de setembro de 2018



   Alguém bateu à porta do vestíbulo.
   Era Cornélia, toda em lágrimas, com o filho Miguel Ângelo.
   Pôs-se de joelhos diante da cama e começou a lamentar-se em voz alta.
   - Senhor, nosso benfeitor, senhor, nosso benfeitor.
   O moribundo já não ouvia.
   - Sou eu, Cornélia, a viúva de Urbino. De Francesco Amadori. E este é o seu afilhado, Miguel Ângelo.
(...)
   Comecei a chorar.
   Tive um acesso de fúria.
   Renunciaste à vida dos sentidos, e aquele a quem amavas não está aqui. Deste-lhe o teu sentimento, grande como nenhum outro. Sofrias, crendo que os teus braços eram indignos de abraçar a pessoa amada. Mas ele era uma sombra. Deste-lhe o rosto de Cristo, e tu, senhor, foste o seu brinquedo. Se ele queria, tu empalidecias, se ele queria, o sangue inundava o teu rosto. Vias o mundo com os seus olhos. Tendo asas mais fortes, preferiste elevar-te com as dele. Deixaste-o apoderar-se de tua vontade. Preferiste ser a Lua que reflectia a sua luz, a luz do Sol.
   Voltei a mim.
   O moribundo deixara de estertorar. (...) Foi então que apareceu Tommaso del Cavaliere.
   Sentou-se num banco, apoiou o cotovelo no joelho, calado.
   - Já há muito tempo que o Mestre está a dormir?- perguntou subitamente.
   - O Mestre está a morrer.
   Tommaso virou lentamente a cabeça, levantando os olhos para mim. Depois virou-a de novo, e apoiou o queixo nas mão enlaçadas.
(...)
   - Durante toda a vida o Mestre não fez outra coisa senão dar.
   - Era rico.
   - Era um pobre.
   Tommaso evitou o meu olhar. Calámo-nos
   De repente o doente gemeu.
   Tommaso levantou-se de um salto.
   - Á...gua - sussurrou o Mestre.
   Quando eu ia buscar um copo, Tommaso inclinou-se sobre ele.
   - Mestre - disse em voz alta e clara - sou eu, Tommaso, sou eu Tommaso... Não me reconhece, Mestre?
   Os olhos brilhantes do Mestre estavam imóveis.
   - Sou eu, Tommaso, eu, Tommaso - gritava.
   Deixou-se cair num banco e escondeu o rosto nas mãos- Chorava.
(...) Daniello da Volterra conseguiu regressar a tempo de o ver morrer (...). Com dois dedos, Daniello da Volterra cerrou as pálpebras do morto.
   Tommaso inclinou-se e depositou um beijo sobre o rosto imerso na paz da morte.
   Mas ele já não o sentiu.
.
.
 Stryjkowski, Julian. Tommaso del Cavaliere. Lisboa: Edições Cotovia, 1990, pp 88-93.
.
.
Nota - A passagem "Deste-lhe o rosto de Cristo" refere-se ao facto de, com um certo mal estar, os católicos terem vindo a descobrir, tempos depois, que o Cristo de Miguel Ângelo tinha o rosto de Tommaso del Cavaliere.
.
.

terça-feira, 25 de setembro de 2018


   Um sentimento de vergonha acompanhava-o sempre. Tinha vergonha da sua fraqueza, das suas hesitações, da sua timidez e da sua origem humilde. Enxertou-as com sincera convicção na árvore genealógica dos Canossa, rica em condes e imperadores, Infelizmente, os seus modos traíam-no. Brigava com toda a gente, recusava-se a pagar à velha Catarina o mês em que ela estivera doente. Tratava os outros com aspereza. Não se portava melhor com os grandes senhores.
   Uma vez chegou a ofender Leonardo da Vinci sem razão alguma. (...) As pessoas tinham medo do Mestre. Chamavam-lhe "terrível". O papa Leão X disse que o temia porque era rude e selvagem. O papa Clemente VII considerava-o um ruão sem educação alguma, sempre pronto a sentar-se sem ser convidado a fazê-lo, e por isso preferia estar de pé na sua presença. Durante uma discussão com Júlio II, irritado, pôs o chapéu na cabeça. Ele mesmo o contou a Daniello da Volterre.
   - Já é muito bom não me ter mandado cortar a cabeça - disse, rindo-se.
   Certa vez deu-se uma cena engraçada, como nas comédias do cardeal de Bibbiena. Foi em Bolonha, onde o papa se encontrou com o Mestre após a sua fuga de Roma. Júlio II levantou o seu báculo de marfim e gritou:
   - Em vez de seres tu a correr atrás de mim, sou eu que corro atrás de ti.
   Um prelado que estava presente, no intuito de acalmar a ira do papa, tentou justificar o comportamento do Mestre pela falta de bom senso e de tacto.
   Só então o papa verdadeiramente se encolerizou.
   - Como te atreves a ofender o nosso artista? Fora daqui! - gritou e indicou-lhe a porta.
   Mas o pobre prelado não se moveu, estava como que pregado ao chão.
   - Ponham-no fora - gritou o papa aos camareiros - e apliquem-lhe umas bastonadas.
(...) A maior vergonha, porém, era causada pela sua fealdade. Envergonhava-se de ter o rosto deformado.
   - Ao lado do meu rosto feio, o rosto daquele que amo é ainda mais belo.
.
.
  Stryjkowski, Julian. Tommaso del Cavaliere. Lisboa: Edições Cotovia, 1990, pp 50-51.
.
.
.

segunda-feira, 24 de setembro de 2018


O jovem artista foi apresentado ao Mestre, então com sessenta anos, por um primo do cardeal Niccolò Ridolfi, o escultor Pierantonio, que ajudava o Mestre nos trabalhos do túmulo de Lourenço e Juliano, na Sacristia Nova da Igreja de San Lorenzo. Uma grande amizade unira depois o Mestre ao cardeal Ridolfi. Tommaso, jovem pintor, exercia sobre todos um fascínio particular. Pierantonio, Vasari, biógrafo do Mestre e obviamente Varchi não tinham palavras suficientes para exprimir o seu enlevo. É preciso reconhecer, em abono da verdade, que o jovem não tinha ninguém igual em toda a cidade de Roma. Belo como um anjo, encantava todos com a sua agudeza de espírito, discrição e galantaria: qualidades dos melhor nascidos.
(...) Um trecho da carta não foi enviado. Como tudo já terminou, posso citá-lo. De resto não há nada nele que não houvesse em outras cartas (em vários sonetos pode encontrar-se uma expressão poética dessa passagem). "Tudo o que vejo - escrevia o velho enamorado - tudo, murmura ao meu ouvido, tudo me pede e induz a que te ame. Tudo o que não és tu, é nada para mim. Tenho saudades de ti, meu sol, e ardo não só de ti, mas de tudo que tem traços de semelhança com as tuas sobrancelhas e com os teus olhos. E quando estais ausentes, meus olhos, minha vida, cai a noite. Quem vos perdeu, perdeu o céu."
   Numa outra carta, que levei a Tommaso del Cavaliere, o Mestre prestava-lhe homenagem:(...) Além das cartas levava também presentes. Uma vez foi um desenho de Ganímedes, raptado por uma águia, outra as Bacanais, outra ainda Faetonte fulminado, ao cair no Pó (...).
   Tommaso del Cavalieri habitava um palácio em Trastevere. Fiquei deslumbrado pelo esplendor da sua residência e com muita pena comparei-a com a nossa, modesta casa na Rua Macel de Corvi.
.
.
 Stryjkowski, Julian. Tommaso del Cavalieri. Lisboa: Edições Cotovia, 1990, pp 14-16.
.
.
.