Mostrar mensagens com a etiqueta António Botto. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta António Botto. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 7 de março de 2019


          Filosofia de um alcoólico

                            Diálogo com a própria sombra.
                            Noite de primavera.

Vós sabeis o que é o mundo?
Respondam todos à uma -
Os ignorantes e os sábios:
O mundo é um disparate
Em que os homens são cativos!
E esta vida? O que é a vida?
Sendo o mundo um disparate,
os vivos não podem ser
Senão disparates vivos!
Que tal? Fui ou não fui genial?
Eu quando as digo sem cuspo
É porque tenho razão...
Estavas aí? Nem te via!
O quê? Sei lá que horas são!
Não é noite nem é dia;
É um intervalo suspenso
Na ponte da fantasia!
Endireita-te! Não podes?
Fala de frente! Já sei.
Embebedei-me? E depois?
O vinho dá lucidez -
E um homem com vinho é rei!
Quando se bebe há centenas
De visões no coração,
Vê-se a vida de outra cor
- Vermelha, quente, sadia,
Você está ouvindo ou não?
Tudo tem um outro encanto
E até a miséria sabe
A um bem-estar, a fartura,
As mãos dão palmas, há risos,
Estamos sempre de acordo
Se em nós for grande a grossura
Beber um copo de vinho
Num momento de amargura,
Pegar num copo com linha,
Sabê-lo chegar aos lábios
- Eu disse lábios? São beiços!
Ficamos indiferentes
Por maior que a mágoa seja!
O vinho enfraquece e apaga
O sentimento da inveja;
Só ele nos dá firmeza
Para estarmos resignados
A ver tombar as Nações
E esses milhões de soldados
Que se esfacelam, p'ra quê?
Para haver mais liberdade?
Falaste? Agora bebia,
Bebia um copo, e você?
Falta o melhor? O dinheiro?
Esse poderoso absurdo,
Vadio, pantomineiro?
Mas fala! Tens medo? Eu sei:
Não é medo, é cobardia!
Tá bem! Pronto. Falo eu.
E seja o que Deus quiser!
Tá bem. Falo eu. Bom dia!
Solteiro; não tenho casa;
Não há filhos nem mulher...
Beber! Que grande prazer!
Nas largas horas difíceis
Chega-lhe um copo e verás
Se o vinho não é o alento
Mais forte da humanidade!
E o que é que ela quer, enfim,
A humanidade, eu, você,
Aquele, o outro, e outro mais,
Todos quantos se atropelam
Serenos ou convulsivos
Nesta feira miserável
De tantos cadáveres vivos?
Voltas-me a cara, porquê?
Sou maluco, sou um parvo?...
Um parvo és tu! Todo aquele
Que não discute e não mostra
Que sabe, que "sim", que entende
Mais que o vizinho do lado,
Ó filho!, é um tipo tramado!
Só o silêncio destrói
A nossa capacidade
Em sermos luta constante!
Quem fala mostra que mexe
Ou p'ra trás ou p'ra diante!
Mas fica para aí sem alma,
Fica para aí pasmaceira,
Que eu cá vou dizendo ao mundo
O que é verdade e o que penso
Através da bebedeira!...
.
.
  Botto, António. Poesia. Porto: Assírio & Alvim, 2018, pp 435-437.
.
.
.

terça-feira, 5 de março de 2019

( Da Secção Cartas que me foram devolvidas, a Carta Nº 28):

De um vício ou de um amor, ninguém sai facilmente. Ao heroísmo do arranque inicial segue-se a nostalgia do prazer perdido e a recaída no que havíamos abandonado. Somente quando a saúde e a dignidade estão gravemente comprometidas é que o homem se despede de um vício ou de um amor. É possível, é mesmo certo que exista mais do que um homem que não conheça esses dois grandes suplícios. Contudo, esse homem, não poderá jamais orgulhar-se de conhecer a vida bem a fundo. Por mais forte que seja a nossa vontade de rompermos com o que nos foi profundamente agradável, essa privação deixa inactivas certas funções do espírito e certas ansiedades orgânicas que protestam e se revoltam, à sua maneira, da insatisfação a que as condenámos. Dizer humanidade é dizer debilidade.(...)
,
,
  Botto, António. Poesia. Porto: Assírio & Alvim, 2018, p 342.
.
.
.

segunda-feira, 4 de março de 2019

( Estas cantigas de vilancete aparecem nesta obra precedidas de um elogio a A.B. feito por Fernando Pessoa e são dedicadas a Aquilino Ribeiro. O vilancete é composto por um mote e por voltas ou glosas, contudo, apesar do título da secção a cantiga e o vilancete distinguem-se pelo número de versos da primeira estrofe, o mote, se tiver dois ou três versos é um vilancete, se tiver quatro ou mais é uma cantiga. O vilancete aparece em Portugal no Cancioneiro de Garcia de Resende e os seus temas são geralmente a saudade e o amor não correspondido e os versos são ainda em medida velha, cinco ou sete sílabas).

Eu ausente e tu ausente,
Eu de ti e tu de mim -
Saudade, quando me deixas?
Ausência, quando tens fim?

            VOLTA

Meus olhos andam molhados
Desde aquele negro dia...
Bronzes, dobrai a finados,
Que eu já não tenho alegria.
Ó causa das minhas queixas,
Porque me matas assim?
Saudade, quando me deixas?
Ausência, quando tens fim?
.
.
 Botto, António. Poesia. Porto: Assírio & Alvim, 2018, p 306.
.
.
.