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domingo, 23 de julho de 2023


        A porta azul


Uma porta azul ferrete com um postigo,
abram-ma depressa. Que seja repentina,
dura, difícil de encontrar. Que tenha
tábuas com sinais de anos enormes
e esteja fechada a cadeado. Uma porta
é sempre a salvação não sei de quê,
um sorvedoiro, um rastejar à volta da mudança.
Não sei se esta porta é para o passado.
Quando a suspeito azul bem mais azul
que o pensamento, sei que esse mistério
irá descobrir o meu lugar. Um olho
de deus e do inferno, se eu acreditasse.
Abram-me esta porta, pintada e repintada,
azul para além do ar. Nem eu nem ela
sabemos para onde abre.


  Isabel Cristina Pires. O Planeta Irreal. Vila Nova de Famalicão: Edições Húmus, 2023, p 60.
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quinta-feira, 26 de setembro de 2019



                 Amanhã

Hoje nada aconteceu por entre nuvens.
Um dia sem riscos e sem felicidade
acaba de morrer.
Hoje houve sombras no jardim,
os livros secaram sem serem necessários,
e as ruínas suspenderam a vida por um dia.
Não houve abismo nem olhares, nem prata
nem cobiça. Nada
atravessou as horas que foram pesando no relógio.
Nada riu, nada chorou. Nem a surpresa da carne
sempiterna.
Amanhã, disseram, amanhã será talvez.


  Pires, Isabel Cristina. Deserto Pintado. Lisboa: Editorial Caminho, 2007, p 77.
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quarta-feira, 25 de setembro de 2019


              A terra-de-ninguém

Estou neste lodo de amar quem me não ama.

Como se passa para o outro lado da armadilha?
Como morre o amor a sua morte?
Quem pára a fábrica de oiro das estrelas?


  Pires, Isabel Cristina. Deserto Pintado. Lisboa: Editorial Caminho, 2007, p 32.
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