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terça-feira, 9 de abril de 2024


Retivemos da paisagem o intenso
mistério da luz por entre as casas,
como se em cada casa batesse
um coração a par de outros corações,
ansiosos de caminhos livres.
Agora pertencem ao silêncio
mais nítido as canções, os gritos,
as lágrimas, os detalhes de uma festa
acontecida num dia com tantos dias dentro,
numa cidade habitada pelo país inteiro.
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  Graça Pires. Era madrugada em Lisboa - Louvor a um dia com tantos dias dentro. Lisboa, Poética Grupo Editorial,  2024, p 35.

 

domingo, 19 de março de 2023



                Lamento das mulheres afegãs


Olhem para nós. Ouçam-nos.

Não somos vultos sem identidade.

Somos mulheres.

Somos mães filhas irmãs amigas.

Temos um nome.

Indefesas frente ao terror

é silencioso o lamento o arrepio.

Qualquer gesto nos pode destruir.

Ficámos sem chão.

Avistamos a montanha

mas um deserto invisível

acorrenta-nos os pés.

O céu é um abismo.

Onde estão as estrelas

os anjos o nosso deus?

Não. Não choramos.

Temos o olhar parado nos livros proibidos

na inutilidade dos dias que hão-de vir

nas palavras reprimidas

na mais indecifrável prece

tão perto da descrença.

Quem poderá salvar-nos?


  Graça Pires. O improvisao de viver. Lisboa: Poética, 2023, p 63.

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domingo, 12 de dezembro de 2021


É antigo o meu olhar. Vejo de muito longe e com traços inseguros todos os caminhos.
O tempo passa como um pressentimento inquieto. Afasta-se. Estreita-se. O que me espera, eu sei, é o ruidoso silêncio do esquecimento.
As minhas raízes hão-de fincar-se na terra, revelando o sinal invisível do abismo, à espera das cinzas, na perfeita simetria do coração, nas inumeráveis palavras.
Os meus passos, mais lentos, devoram a distância que me separa da mudez e conhecem a cor da poeira levantada pelos pés quando os pássaros iniciam um voo solitário.
Para além do horizonte, o mistério do invisível pertruba-me como um recomeço sem memória, sem limites, sem retorno.
Estendo as mãos para tocar a luz cada vez mais distante, cada vez mais indecisa, cada vez mais imprevista. E fixo essa luz até ao apagamento do brilho nos meus olhos.
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 Graça Pires. Antígona passou por aqui. S/c.: Poética Edições, 2021, p 80.
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sábado, 11 de dezembro de 2021


Continuarei a definir o exíguo espaço de uma errância no culto da palavra. Habita-me a expectante mudez de um náufrago preso ao barco que o salva.
Escavo o traçado de um alfabeto de subtil simbologia. Como deriva de âncoras sem retorno, ou um sacramento, ou uma gíria mística, ou uma vaga promessa de alegria, protejo na bainha do texto uma sintaxe quase sagrada.
Na lonjura de vozes antigas seguro a luz. Assombro-me da paisagem. Deixo que as palavras cedam inteiramente ao indizível subterrâneo da paixão.
Com um alarido preso à boca, leio os poetas das palavras claras e quebro no interior das pálpebras os versos mais cúmplices.
Semelhante a um primitivo nómada, guardo comigo o fogo da poesia, para que nunca se extinga e me seja confissão e esconderijo.
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 Graça Pires. Antígona passou por aqui. S/c.: Poética Edições, 2021, p 52.
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quarta-feira, 6 de janeiro de 2021


Tentei ignorar o tempo
golpeado de incertezas,
recusando o desgaste
dos caminhos percorridos
e das lembranças
deslizando sobre a pele.

Tão dúplice a farpa da sedução.

Tão perecíveis os amores.

Tão tardia a serenidade
da vida e da morte.

Tão vulneráveis os passos
em que me atrevia.
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 Graça Pires. Jogo sensual no chão do peito. Fafe: Editora Labirinto, 2020, p 49 (Prefácio de Eugénia Vasques).
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domingo, 25 de novembro de 2018


Envelhecemos com uma vara
de medir o sol na linha do olhar.
Não entendemos os sinais inscritos
nas margens do abismo.
Nem os bosques onde se abrigam
as sombras e a chuva.
Nem a misteriosa relação dos astros
no lado mais silencioso dos céus.
Um surdo alvoroço ecoa, fúnebre, na paisagem
quando, para além das montanhas, o piar dos pássaros
é tão nítido como o sopro do medo que transtorna
a leve inclinação das planícies.
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 Pires, Graça. Uma vara de medir o sol. S/c.: Coisas de Ler Edições, 2018, p 59.
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Uma promessa na secreta aventura das sementes
e o cheiro dos pomares alastra sobre a sede
fendendo as bocas onde nascem as palavras
da desordem e da festa.
Quando as aves atravessam o gume do lume ateado
à prenhez dos trigos enrodilhamos no rosto
os traços da tristeza que nos arde no olhar.
Só o perfil alongado das árvores desafiando o sol
nos devolve a lembrança das cantigas à desgarrada,
na eira, quando a debulha do milho se fazia
com as nossas mãos predispostas a todos os afagos.
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 Pires, Graça. Uma vara de medir o sol. S/c.: Coisas de Ler Edições, 2018, p 31.
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