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domingo, 8 de outubro de 2023


      Desencontro 4


Não nos pertencem os corvos ou as gaivotas
nada nos pode ser
tão luminosamente   a preto e branco.


Como nós os pombos
humanamente cinzentos   no bico redondo
o voo curto da asa fechada
patas leves   não pequenas
na calçada


o homem,
parceiro inconfidente dos bancos no jardim
sempre lhes foi uma ave   de triste agoiro


  Rita Taborda Duarte. Não Desfazendo. Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 2023, p 336.
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segunda-feira, 4 de novembro de 2019


     Resposta de Eurídice, como quem perdoa


E se te quis seguir por que não te quis seguir?
Acabou-se-me o amor ao    abraçar-te a morte.
A mesma sílaba aguda
trasladada de uma artéria qualquer do coração.
Não é possível aprendermos o outono sem morrer também;
Não pode uma mulher ver
o amor cair e    ainda assim
viver.
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 Duarte, Rita Taborda. As Orelhas de Kerenin. Lisboa: Abysmo, 2019, p 77.
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sábado, 2 de novembro de 2019

   
           Gestos Extensos


Requer gestos   extensos   fatigados,
mas é uma invenção simples:
o miocárdio musculado recolhido e
freneticamente delirante   a avançar   a desistir
a porfiar   a desandar de novo
até sobrar só o conchego desta cova aberta
e franqueada. E eu, imo fêmea,
vivendo-a como   coisa íntima   tão densa de raízes.


A solidão carece companhia, tu bem sabes,
uma ilha   se extensa em demasia
nem ilha é   só continente.

E tu cumpriste - tão bem  - o teu papel.
Olha para trás, regada a sementeira:
o nódulo húmido da saudade principia
a germinar. Vê: começo a florir
a despontar   como uma pedra.
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 Duarte, Rita Taborda. As Orelhas de Karenin. Lisboa: Abysmo, 2019, p 27.
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