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terça-feira, 14 de setembro de 2021


                                       Museu do Futuro

               mano e cielo e terra (Dante, Paradiso, XXV, 2)


Haverá somente peças desirmanadas nesse museu do futuro a que um dia chamámos planeta. Seja esta a melhor hipótese. Ocorreu-me, por entre destroços e sombras, definir o pensamento como o lugar onde corrigimos, em permanência, os abusos e as intrusões que nos legaram. Caminho dentro de uma cidade, retomo a sua capilaridade. Alguém te abandonou, como se abandona um artefacto sem préstimo, excluído da soberania da função, dos seus sistemas e métricas. Deverá haver um dia uma assinalável descrição destes objectos corrompidos, sem uso reconhecível. Haverá vitrinas, vidros limpos que separem a ferida dos que a contemplam, que os separem de vez, que os afastem de uma pestífera vontade de toque e apropriação. Cada um dos visitantes desse museu de peças desirmanadas será uma fera domiciliada na sua impotência perante o Paraíso que está para lá da mão, do céu, e da terra..
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 Luís Quintais. Ângulo Morto. Porto: Assírio & Alvim, 2021, p 107.
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segunda-feira, 13 de setembro de 2021

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 Lembro-me do meu pai a tremer

de frio. O seu corpo magro

sacudido pela fúria do vento


numa praia fora de estação.

Lembro-me de como era frágil,

sem peso, exposto.


É essa a minha condição.

Eu sou aquele que se expõe

e morre ferido por uma lembrança.



   Luís Quintais. Ângulo Morto. Porto: Assírio & Alvim, 2021, p 32.

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terça-feira, 27 de novembro de 2018


                       38.

Se tivesses uma mente de inverno,
compreenderias. Agora é tarde.

As aves vinham incendiar a primavera
e com ela as suas certezas.

A amizade com os intangíveis sinais da terra
era posta em causa. Uma coerência
era posta em causa.

Ou não eram as aves incendiárias.
O estímulo podia ser uma árvore dobrada pelo vento,
a extrema relação entre dois elementos
próximos, mas longínquos.

Celebra este muro.
O pretérito aquece-te os ossos,
regressa.
Celebra o que está para lá do muro:

um território não domesticado,
a mecânica dos exotismos,
a fonte de calor.

És, serás sempre, o herói civilizador,
e ignoras a minha fronteira,
o reflexo e a vontade do visível.
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Quintais, Luís. Agon. Porto: Assírio & Alvim, 2018, pp 48-49.
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