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sábado, 8 de julho de 2023


O mundo envelhece, às vezes aziago,
e nós esbanjamos todo o tempo nele.
Sei que é lamentável repetir, mas tu lembras-te
da neve a derreter no fundo raso dos olhos,
como era fácil imaginá-la sem um mapa à mão -
pendurávamos as palavras na corda do rosto
para que soasse tudo certeiro e bem-intencionado?
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Não era perdão o que pedíamos
nesses tempos altivos, era a carne branda
da companhia porque éramos jovens
e vagamente interessantes. A palavra amigo
não tinha sentido algum, era mais um copo de água
numa mesa onde não havia comida, só o tilintar
dos talheres de prata roubados num rasgo de fantasia.
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Hoje podes escrever-me todos os dias.
Não sou rico nem ressentido.
Se me vires na minha cadeira
de-trás-para-a-frente não perguntes -
assisto só aos campos neutros da história,
o costume: o rapaz que fazia poemas de guerra,
o intelectual solene e não-parisiense
que numa mesa de pé-de-galo compôs
muitos versos recalcados à mãe dele.
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Levo para todo o lado o meu cinto-faroeste,
mal me esqueço da minha manha bem disfarçada -
não sou eu que digo que o mundo envelhece,
são coisas que vou ouvindo na rude telefonia
ao passear pelo alpendre de quatro paredes.
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Quando é que ficámos interessantes?
Tu lembras-te. sim, quando ainda em jovens
trocávamos por graça a ordem dos acontecimentos:
fazíamos girar gaivotas nos tectos negros das roulottes
e derramávamos cerveja no areal a caminho do mar,
engolindo corpo e espírito numa espécie de autofagia,
tão bela, demente. Podes escrever-me todos os dias.
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  Frederico Pedreira. Coração Lento. Porto: Assírio & Alvim, 2021, pp 31-32.
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terça-feira, 17 de maio de 2022


Junto ao cais aprendi alguns dissabores,
por exemplo: a altura em que atento
à sombra do copo de cerveja
me falaste com olhos húmidos
de uma tarde de pura liberdade
passeando por cidades desertas.


Não desaprendi a memória, não:
guardo-a comigo para usos modernos.
Soube esperar melhor alguns momentos
de pouca importância, já não anseio
sentado no espelhado colo da noite.


Na verdade, perdi-me a bom perder
de todos os enredos que me trazes agora à mesa
como um mapa nervoso de veios marinhos.


Dois amigos encontram-se uma, duas vezes,
para sempre perdidos da memória que foi.
Alguém, quiçá um de nós, se lembrará de dizer:
«É bom, ainda é bom estar aqui.»
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Frederico Pedreira. Coração Lento. Porto: Assírio & Alvim, 2021, p 64.
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segunda-feira, 16 de maio de 2022


A saudade era outra.
As praias corriam livres de gaivotas
para o fundo do mar.
Só amanhecia tarde.
Tudo era muito tarde para nós,
vivíamos juntos sem o sabermos.

*

O canto da ave
aterra no meu ombro
polido, entre a concreta confusão
os olhos vendados avançam
para mais uma hora chegada
ao lume das conversas.
*

A noite na terra:
tenho os materiais todos reunidos,
as trevas do trabalho — lápis, aparas,
as réstias do desengonçado estaleiro.



O ecrã baço faz destilar a pobreza do verbo.
As parcas notícias no televisor submarino
de uma pacata vila costeira —
música de câmara para a morte que tarda.
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Frederico Pedreira. Coração Lento. Porto: Assírio & Alvim, 2021, pp 24-25.
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