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segunda-feira, 27 de dezembro de 2021


                 A casa iluminada


Olhai honestamente para o vosso passado
escondido da rua pelos arbustos
oferecendo-se aos pedaços
naquilo que o rasurado quis extirpar
nos trechos sem relação que vos assaltam no sono
no desabamento, na estranheza
outro nome possível se transcreve


Considerai as vossas memórias pré-históricas
as primeiras declarações de amor pronunciadas
com lábios de sangue
a inervação magnética do vosso coração
dentro da caixa anatómica
dentro de uma caverna
na jangada que vos leva


Aprendei a observar com delicadeza
a terra inóspita antes de passar
a face molhada por uma chuva repentina
e o seu invencível sentido


Somos ainda os nativos, os mais remotos


Assim que chegarmos ao mar alto
e perguntarmos por que razão
seremos baixados por cordas
à casa  demolida ainda iluminada
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José Tolentino Mendonça. Introdução à pintura rupestre. Porto: Assírio & Alvim, 2021, pp 50-51.
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sábado, 7 de dezembro de 2019


   A perfeição coloca-nos perante a realidade como se de um facto consumado se tratasse (...) Existe só para ser admirada... à distância. A amizade construída sobre esse chão é devorada por uma tensão nascísica: escolhemos "amigos" pela sua importância, estatuto, aparência. Fazemos da amizade uma busca do aplauso. (...).
   Abraçar a imperfeição é aceitar a amizade como uma história em aberto, que conta ativamente connosco. Na imperfeição é sempre possível recomeçar. A imperfeição permite-nos compreender a singularidade, a diversidade, o real impacto da passagem do tempo em cada um. É verdade que as nossas fragilidades dão-nos também a ver as nossas singularidades. E é o impacto da fragilidade em nós que mostra a nossa realidade mais profunda, mostra a vida de Deus e os seus vestígios. Nesse sentido, a imperfeição humaniza-nos. Acolhê-la é uma condição necessária na amizade, e na maturação pessoal que nos cabe fazer. O mais urgente é aprender a semear, num trabalho de confiança, de desprendimento e simplicidade cada vez maiores. (...) Todos somos feridos, opacos, inacabados. Cada um de nós traz dentro de si uma quantidade irrazoável de sonhos sufocados, de pontas desacertadas, de palavras que não chegaram a ser ditas, de uma violência interior, mais difusa ou concentrada. Mesmo a nossa felicidade vem misturada com a memória de infelicidades que ainda nos ardem, mesmo que as calemos. Somos mais verdadeiros, porém, quando tomamos consciência disso e quando o partilhamos na confiança de uma amizade. Os mecanismos de autodefesa e de culpabilização só nos isolam mais.
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 Mendonça, José Tolentino. Nenhum Caminho Será Longo. Para uma Teologia da Amizade. Prior Velho: Paulinas Editora, 2019, pp 143-146.
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quarta-feira, 4 de dezembro de 2019


   Muitas vezes, quando vamos ao encontro do nosso rosto, sentimos com surpresa que passou um tempo. Aconteceram ambas as situações: tanto temos uma aguda consciência da passagem do tempo, como o tempo para nós é uma surpresa, pois não demos que tenha passado, ou tenha passado, por nós, assim. Numa vida espiritual acesa precisamos de meditar sobre o tempo (...).
   Falar do tempo é falar desta complexa aparição a nós próprios, referir a surpresa com que nos colhemos, nomear o espanto de, tantas vezes, sermos uns completos estranhos para nós próprios (...) pois cada um de nós é um fluxo, uma viagem, um projeto aberto, uma epifania inacabada..
(...) Os amigos trazem à nossa vida uma espécie de atestação. Os amigos sabem o que é para nós o tempo. Eles testemunham que somos (...) E fazem-no não com a superficialidade que, na maior parte das vezes, é a das convenções, mas com a forma comprometida de quem acompanha. O olhar do amigo é uma âncora. A ela nos seguramos em estações diferentes da vida para receber esse bem inestimável de que temos absoluta necessidade e que, verdadeiramente, só a amizade nos pode dar: a certeza de que somos acompanhados e reconhecidos. Sem isso a vida é uma baça surdina destinada ao esquecimento. (...) Já escrevia Aristóteles na Ética a Nicómaco: "O homem feliz tem necessidade de amigos." Nós adoecemos da ausência de amigos. Precisamos desse reconhecimento mútuo, pessoa a pessoa: um reconhecimento não fundado no confronto ou na competição, mas no afeto; não determinado meramente pelas leis da justiça ou pelos vínculos de sangue, mas assente na gratuidade. (,,,) Mesmo se for um único instante de contacto o que tivermos, tal basta para deixar transparecer uma amizade que existe.
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Mendonça, José Tolentino. Nenhum Caminho Será Longo. Para uma Teologia da Amizade. Prior Velho: Paulinas Editora, 2019, pp 111-118.
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quarta-feira, 12 de dezembro de 2018


   Escutar a própria sede é interpretar o desejo que há em nós. E, nesse sentido, importa certamente aprofundar o sentido desta palavra. Na parte final do Banquete de Platão surge uma interpretação do desejo que há de marcar a história do Ocidente até aos nossos dias. . O desejo é aí perspetivado como falta e tem a aceção de carência. (...) Como tal, ele não é um estado de posse, mas de desejo incessante da verdade, da beleza e da bondade que lhe faltam. Quando amamos o que se passa? Ocorre isto: o amor deseja os bens que não tem em si. A vocação do que ama é assim uma vocação mendicante: enceta os seus caminhos no desconforto das mãos vazias; dorme ao desabrigo; veste-se de forma andrajosa e insuficiente como um mendigo. Apenas recebeu os recursos para atrair e ser atraído, isto é, recebeu a sede. E assim vive. Por isso, temos de distinguir o desejo de uma mera necessidade, que se acalma e satisfaz na posse de um objeto. Não confundamos desejo com necessidades. O desejo é uma falta nunca completamente satisfeita, é uma tensão, uma ferida sempre aberta, uma exposição interminável à alteridade. O desejo é uma aspiração que nos transcende e que não determina, como a necessidade, um termo e um fim. A necessidade é uma carência circunstancial do próprio sujeito. O infinito do desejo é desejo de infinito.
   Na contemporaneidade, Simone Weil revisita o discurso platónico do desejo em chave mística. Ela repete que o desejo é uma enganadora armadilha quando se liga a objetos finitos, pois estes se tornam depressa em ídolos, erguidos no lugar do absoluto. Mas garante que o desejo é bom enquanto contém uma energia que se deixa orientar para o alto, para o divino. Nesse sentido, ela propõe uma educação do desejo, que nos torne vigilantes em relação às tentações de substituição, ensinando-nos, sim, a permanecer na falta, na incompletude, no vazio e na espera.
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 Mendonça, José Tolentino. Elogio da Sede. Lisboa: Quetzal Editores, 2018, pp 53-54.
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domingo, 9 de dezembro de 2018


   Não é fácil reconhecer que se tem sede. Porque a sede é uma dor que se descobre pouco a pouco dentro de nós, por detrás das nossas habituais narrativas defensivas, assépticas ou idealizadas; é uma dor antiga que sem percebermos bem como encontramos reavivada, e tememos que nos enfraqueça; são feridas que nos custa encarar, quanto mais aceitar na confiança.
(...) Existe uma violência no mundo e em nós próprios que provém da sede, do medo da sede, do pânico que as condições de sobrevivência não estejam garantidas. Viramo-nos contra os outros.litigamos, achamo-nos enganados, queremos voltar ao passado, apressamo-nos a encontrar um bode expiatório. A sede destapa uma agressividade que nos surpreende, mas que, se formos honestos, está algures dentro de nós. Claro que não nos é grato reconhecermo-nos nessa imagem, mas ela oferece-nos pelo menos a possibilidade de nos tornarmos mais conscientes.
   A dor da nossa sede é a dor da vulnerabilidade extrema, quando os limites nos esmagam.
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  Mendonça, José Tolentino. Elogio da Sede. Lisboa: Quetzal Editores, 2018, pp 36-37.
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