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sábado, 9 de setembro de 2023


consigo ouvir o gemido de um pássaro
       talvez um maçarico
       ferido de medo ou morte
       ou tão só de abandono


estou dentro do piano
feita de aço
habitada por cordas e martelos
teclas e alavancas
estou enterrada viva
em vez de lápide
tenho uma partitura

*

começo pouco a pouco
       a esquecer-me de ti
       e do trilho das pedras que nos levava ao rio
       e do cheiro das velas
       e do rebanho a remoer o pasto


mas porque um fio de luz
vindo não sei de onde
ilumina o silêncio deste cativeiro
eu por instantes sinto-me poeta
e estou a fazer versos
       debaixo de um ulmeiro


  Teresa Alvarez. a sublimação dos metais. Fafe: Editora Labirinto, 2022, pp 45-46.
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sexta-feira, 26 de novembro de 2021


por isso me chamam maga
        feiticeira
        outras vezes irmã
e por todos os nomes respondo e me reconheço

a noite magnífica e total começa já a cair sobre as colinas
e sobre o rio que me chama
eu respondo a voar pelo trilho das aves

ele vem altivo sobre as águas
e os nossos corpos
feitos dum metal raro
cintilam como purpurinas

este é o meu deus
faça-me em mim segundo a sua vontade
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  Teresa Alvarez. A Encenação do Amor. Fafe: Editora Labirinto, 2021, p 172.
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quinta-feira, 25 de novembro de 2021


se as palavras fossem coletes de salvação
eu salvaria uma rua
talvez um bairro inteiro

escrevo
como se estivesse amarrada a esta mesa
mas bendigo este ofício
enquanto fico a ouvir os sons da tarde que se acaba

o cão olha-me fixamente
então levo o pássaro de vidro
e saímos os três pela janela a voar como no dia inicial

vamos até ao rio
ocupamos um cacilheiro
o cão corre atrás das gaivotas
e o pássaro de vidro voa livre rente às águas
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 Teresa Alvarez. A Encenação do Amor. Fafe: Editora Labirinto, 2021, p 105.
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domingo, 4 de julho de 2021


E os primeiros aromas saem no fumo da chaminé.
Cheira a pinha queimada
cheira a urze e a mel.
Espreito pela vidraça, a primeira a contar do lado direito
da cozinha,
que virada a nascente
reproduz fielmente o amanhecer.
E vejo a mesa larga coberta com uma toalha já cansada e gasta.
Sobre a mesa
o meu
pão quente a fumegar
um pratinho de azeita e
o leite a escaldar com a fervura da manhã.

Um suco púrpura dos bagos da romã escorre pela toalha.
E os frutos secos espalham-se em sementeira.
Uma abelha impaciente sobrevoa o festim.
E ouvem-se na Casa as primeiras vozes da manhã.


  Teresa Alvarez. Curta Metragem. Fafe: Editora Labirinto, 2020, p 35.
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