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quinta-feira, 20 de abril de 2023


                  A nitidez das coisas


No silêncio da casa, quando as madeiras estalam,
espero o movimento da engrenagem do tempo,
a manifestação evidente da máquina do mundo,
as pás do moinho moendo a farinha dos dias,
os dentes trincando a pele da feroz existência,
o rolar dos minutos no relógio náufrago da manhã,
o zumbido da mosca contra sua imagem no vidro da sala.


No silêncio da casa, quando estremecem os móveis
e trepidam os eletrodomésticos nas redomas de vidro,
zunindo tudo num uníssono cantochão melancólico,
espero o levantar da poeira do chão entre as moedas
nítidas do sol e as moendas trituradoras de emoções,
a polia que range a palavra contra a indiferença e a solidão,
o destino dos pratos e talheres prisioneiros lentamente
desfazendo-se em barro e mortal ferrugem.


As coisas morrem sem pânico enquanto olhamos
distraídos o vento levantando as cortinas da sala.


Só as coisas são nítidas e têm alma e acreditam
na vida eterna.


José Eduardo Degrazia. As cidades condenadas. Porto Alegre: Invencionática, 2023, p 97.
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segunda-feira, 17 de abril de 2023


    Pássaro azul


Voa pássaro azul
através do círculo
das paredes.
Voa pássaro azul,
a tempestade 
é o teu ninho.


   José Eduardo Degrazia. As cidades condenadas. Porto Alegre: Invencionática, 2023, p 117.
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quinta-feira, 5 de janeiro de 2023


            Estrela Cadente


Se disseres a palavra
eu ficarei tão contente,
cantarei como cantava
quando eu era inocente.


Se disseres a palavra
me espantarei novamente,
voarei como voava
e era pássaro e vidente.


Se disseres a palavra
voltarei rapidamente
como antes eu voltava,


Se disseres a palavra
será uma estrela cadente
que junto de nós brilhava.
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  José Eduardo Degrazia. Os melhores poemas. Porto Alegre: editora Bestiário, 2022, p 65 (Organização e Prefácio de Eduardo Jablonski).
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segunda-feira, 22 de abril de 2019


                   Pesadêlo na Casa-Grande

                                  Para Victor Oliveira Mateus

O polimento dos metais antigos,
as velhas facas de prata dos faqueiros encardidos,
as taças de cristal em que os amantes brindaram ao amor,
os copos de vinho tinto que derramaram na toalha de linho,
todas as nódoas, os pecados, as alfombras, os timbres, os selos,
as cartas que viajaram a saudade de outro continente, os ausentes,
os mortos que cavaram a sua própria sepultura nas revoluções,
a valsa dançada enquanto o vento varria as campinas,
os corredores da casa assombrada pelos retratos dos antepassados,
as fímbrias dos vestidos das baronesas tristes e abandonadas,
o grito do escravo lutando pela sua liberdade -
e somos todos feitos assim desses sonhos do passado,
e andamos muitas vezes perdidos pelos quartos e salas
à espera que um mordomo (ou um assassino)
nos mostre a lâmina que resolverá nosso destino.
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 Degrazia, José Eduardo. A Nitidez das Coisas. Porto Alegre: Artes & Ecos, 2018, p 83.
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domingo, 21 de abril de 2019


              A Permanência da Luz

                                                     Para Yuri Talvet   

Permaneço, onde tudo o mais desaba e incendeia,
aferrado às antigas práticas e mitos originais,
à estação que retorna em seu tempo cíclico
para encher a manhã de cantos de cigarra e de pássaros.
O que importa se tudo à minha volta passa,
se o mundo se transforma e a vida ultrapassa qualquer medida?
O que importa se a natureza queima suas madeiras no auge do                                                                                           verão
para que novas plantas reverdeçam?    
Importa que ser passageiro infunde em mim
a certeza de existir num instante da eternidade,
e de estar imerso no devir do Universo,
como uma estrela que depois de morta
ainda ilumina a noite imensa com a sua luz.
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   Degrazia, José Eduardo. A Nitidez das Coisas. Porto Alegre: Artes & Ecos, 2018, p 39.
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