quarta-feira, 29 de junho de 2022


Excerto do Poema XI do Livro 3:... E um dos cavalos deste apocalipse cavalgava já por sobre os outros


E
deram-nos os inventários   os objectivos,
a escada onde subiam e desciam
ambições e hierarquias
e com elas essoutra criatura que não éramos
      mas
             já éramos
             essa criatura que se parecia connosco em tudo
             essa criatura que se parecia connosco em nada
ou um deus para a sobremesa de todas as angústias
uma igreja
o extracto das pequeníssimas fortunas
o partido   a seita
uma brisa comedida que não nos
desfigurasse o penteado consentido
a vivenda onde
florisse um só jardim
e onde não pudéssemos jamais florir nós mesmos
e nunca
           nunca
                   nunca
o touro que espeta, Natália madre,
nunca
         nunca,
os cornos no destino, madre
porém o carro novo
         o alvará
                  os estofos em pele
                                 o título
                                         o diploma
                                              o anel do curso
                                                  a faca aos poucos no dorso
                                                        a amizade pintada a esmalte
                                                           recauchutada
aos poucos
          o cristal plangente que ia da cantiga ao ministério

todos vossa excelência
todos senhor doutor
            todos
                   todos
nunca o animal morto, madre

(...)

Fernando Cabrita. Vida - Um Poema - Fafe: Editora Labirinto, 2022, pp 40-41.
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terça-feira, 28 de junho de 2022


                         Estrada de Santiago

Todos somos peregrinos. Embora por vezes nos esqueçamos dessa 
condição. E abandonemos as sandálias e o burel. Mais cedo ou mais
tarde temos de voltar à estrada. Em noites como esta - tão clara
- quase se distinguem os vultos dos peregrinos. Outros que não
nós prosseguem a sua marcha por entre as estrelas. A princípio, 
alguns ainda começam a contar os dias. Depois desistem, porque os
dias se confundem com as estrelas - cada vez mais inumeráveis e
luminosos... E no fim de cada jornada recolhem cuidadosamente
o ouro acumulado nos seus pés.


    Jorge Sousa Braga. O Poeta Nu, poesia reunida. Lisboa: Assírio & Alvim, 2007, p 137.
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segunda-feira, 27 de junho de 2022


                      A Dura Batalha

Pelas ruas vazias, deambulas coberto pela
capa do silêncio. amigo. De esquecimento são
os teus passos e de álcool a tua vitória.
Sobrevives à madrugada como o extinto
habitante da quimera. Esvai-se a noite submissa.

No aconchego do leito, nos teus sonhos
almejas sossegado o distante fulgor do
lusco-fusco, fogueira que já queima a retina
convertendo a esperança em faúlhas. Como
um guerreiro invencível chega a luz; eis a
noite derrotada.


    Pedro Sánchez Sanz. Abissais. S/c.: Wanceulen Editorial, 2020, p 21 (Tradução de Manuel Neto dos Santos).
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sexta-feira, 24 de junho de 2022


Mio angelo di cenere.
Ancora poco fa s' aggirava affamato
tra le crepe delle ore,
sofferenza sensa pari 
nello sgardo che invecchia.

Ora la notte lo ha redento
(esposto, forse, nel canestro)
come un giovane granello di neve
o un uccello tra i capelli
dell' estraniato.

Cosa ne so io
delle ombre in volo, quelle plumbee,
delle voragini consolatorie
in cui portano la putredine degli stormi?

Cosa ne so del mio giorno,
quando prende il largo
senza giornale di bordo?
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  Mariella Mehr. Ognuno Incatenato Alla Sua Ora. Torino: Giulio Einaudi editore, 2014, p 95.
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quarta-feira, 22 de junho de 2022


   Insensiblement la chambre s' éclaire d' une lumière solaire, encore sombre.
   Elle ouvre les yeux, elle les referme. Elle dit: encore deux nuits payées, ça va finir. Elle sourit et de sa main elle caresse vos yeux. Elle se moque en dormant.
   Vous continuez à parler, seul au monde comme vous le désirez. Vous dites que l' amour vous a toujours paru déplacé, que vous n' avez jamais compris, que vous avez toujours évité d' aimer, que vous vous êtes toujours voulu libre de ne pas aimer. Vous dites que vous êtes perdu. Vous dites que vous ne savez pas à quoi, dans quoi vous êtes perdu.
   Elle n' écoute pas, elle dort.
   Vous racontez l' histoire d' un enfant.
   Le jour est venu aux fenêtres.
   Elle ouvre les yeux, elle dit: Ne mentez pluz. Elle dit qu' elle espère ne jamais rien savoir de la façon dont vous, vous savez, rien au monde (...)
   Elle dit: Le jour est venu, tout va commencer, sauf vous. Vous, vous ne commencez jamais.
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  Marguerite Duras. La Maladie de La Mort. Paris: Les Éditions de Minuit, 2006, pp 49-51.
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terça-feira, 21 de junho de 2022


   Je pris le poème des mains de mon ami. Pour lire un roman, il faut deux ou trois heures. Pour lire un poème, il faut une vie entière. Je lus. J' étais loin d' avoir une parfaite intelligence de ce texte, mais il n' est pas indispensable de tout comprendre d' une chose pour l' accueillir entièrement.
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  Christian Bobin. L' équilibriste. Cognac: Le temps qu' il fait, 2003, pp 34-35.
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      Desejo e espiritualidade em La Parcela de Alejandro Simón Partal


     La Parcela (Caballo de Troya, 2021) é a primeira incursão no romance de
Alejandro Simón Partal, cuja obra poética obteve já, de entre as várias
distinções, os Prémios Arcipreste de Hita (2017) e Hermanos Angensola
(2019). Em termos de galardões, ao presente romance foi igualmente
atribuido o Prémio Cálamo (2021). É doutorado em Filologia Hispânica e
investigador associado da Universidade de Salamanca; distribui a sua
atividade pela Poesia, Romance, Ensaio e Ensino Universitário.
Em La Parcela, é-nos narrada a viagem – simultaneamente interior e
exterior – de um professor universitário espanhol de trinta e doís anos
para Bolonia, perto de Calais, onde acaba por vivenciar uma aventura
amorosa com um refugiado sírio (Nizar) ligeiramente mais novo, que
naquelas paragens aguardava a oportunidade de passar para Inglaterra e
que ele havia conhecido num autocarro (pp 87-90) nos arredores de
Calais. O autor desenvolve, neste livro, um conceito específico a que
chama: o amor radical, que é aquele que pressupõe uma entrega total e,
ao mesmo tempo, coarta o mecanismo dos desejos (1): “pouco a pouco
comecei a entender que Bolonia não me impedia o desejo, mas tão-só a
desmesura dos desejos” (2). Este amor radical comporta na sua estrutura
duas instâncias que o fundamentam: a autenticidade e um vínculo
necessário com a transcendência, como o autor enfatiza numa entrevista
que concedeu: “Sem transcendência minimizamo-nos, empobrecemo-nos,
porque nos limitamos ao palpável, quando quase tudo o que nos sustém é
aquilo que não podemos ver nem tocar “(3). Estamos, pois, ante uma
conceção de amor, que, ao contrário de Platão, assume a materialidade e
o corpo, fazendo-nos mesmo lembrar a exclamação de Gabriel Marcel:
“Eu sou o meu corpo!”, mas assume-o tentando expurgar dele o excesso e
a gratuitidade, não é, pois, por acaso que o tema das lições deste
professor é a análise da obra de Montaigne, já que neste filósofo “estão as
noções mais elementares de liberdade e igualdade, muito mais atuais do
que em alguns tratados dos nossos dias” (4), e em certo momento de uma
aula ele decide mesmo comentar uma frase do filósofo “para explicar a
relação de Montaigne com o seu amigo Étienne de La Boétie, que converti
em seu amante acrescentando assim mais intensidade à história” (5). Esta
visão espiritualizante do Amor e do Amado, este Rito de Sacralização a
que o Outro é submetido, afasta decididamente este romance das
experiências de um certo realismo decadentista, como a de Hollinghurst
em “The line of beauty”, e aproxima-o, pelas marcas de poeticidade e de
reflexão, de dois monumentos deste tipo de literatura: o “Camere
Separate” de Pier Vittorio Tondelli e, até mesmo, desse clássico que é o
“Terre Lointaine” de Julien Green.
     No romance que aqui nos ocupa estamos perante um narrador
autodiegético, que, por ser também a personagem principal, vai tecendo a
linha narrativa intrínseca à ação principal e articulando com ela, por
encaixe, todas ações secundárias, quer estas - por analepses - remetam o
leitor para momentos do passado, quer sejam momentos presentificados
através de ações dos seus colegas de faculdade. Relativamente aos
momentos do passado o narrador rememora os que foram vividos com o
pai, que agora vai agonizando com um cancro na garganta, e que se lhe
apresenta, apesar da distância física, através da memória ou da
imaginação: “Tão-pouco depois da operação à garganta, voltei a ouvir a
voz de meu pai. Minto. Ouvi-o em sonhos, onde ele tinha uma voz
angustiada, uma voz que apurava as palavras; ele fundia-se com o mar,
tentava revelar-me algo decisivo, mas apenas engolia água enquanto se ia
afastando cada vez mais, e da sua boca saíam bolhas e ruídos de
impotência até que, aos poucos, desaparecia na obscura profundidade.”
(6), esta relação com o pai é, para mim, uma outra vertente do amor
radical já referido anteriormente e que neste livro tem uma função dual:
a) redentora (veja-se o que o narrador diz sobre os enfermos e a
aprendizagem da morte- à imagem de Montaigne- na página 30), que vai
ao ponto de aproximar este livro de outros romances que abordam esta
temática como, por exemplo, o “L’amour soudain” do israelita Aharon
Appelfeld; b) elucidativa – exemplo: a acusação feita à vida da mãe (pp
146-147) que se lhe apresenta vazia e repleta de finitudes, aliás, este olhar
para o estatuto da finitude irrompe em outras obras de Simón Partal,
atente-se ao seguinte dístico: “El dolor tiende a la finitude:/ exige limites”
(7). Esta triangulação relacional: protagonista/pai/mãe, a nível
psicanalítico, pode estar em consonância com as experiências vividas no
mundo contemporâneo, mas demarca-se de grande parte das narrativas
clássicas com vivências semelhantes, veja-se, por exemplo, o The
Charioteer de Mary Renault, onde nos capítulos 4, 5 e 6 Laurie deixa clara
a forte adoração pela mãe, que, apesar de já viúva, ainda encontra
resistências no filho ante o pastor Straike com quem ela pretende refazer
a vida.
     Nas entrevistas acima referidas, Simón Partal tem a preocupação em
afastar o seu livro da prosa poética, preocupação com a qual concordo,
mas que não impede que, aqui e ali, a subtileza e a pertinência da função
poética irrompam como modo de complemento ou ilustração: “Que força
convoca a manhã que é capaz de levantar, com um lento amanhecer, os
que têm um coração cansado? Que estranha confiança traz para que a
acolham, todos os dias, aqueles que já se tinham abandonado a si
próprios?” (8); “Porque as pedras da calçada abrem caminhos quando já
não temos rumo. Formam o tapete áspero do tempo e, no entanto,
sobreviver-me-ão, sobreviver-nos-ão. Permanecerão juntas, quando já
aqui não estivermos, quando ninguém nos recordar…” (9), esta
preocupação em afastar o seu livro da prosa poética, não o impede de ter
em mente o que é para si a poesia: “Considero a poesia mais como uma
forma de estar no mundo do que como um trabalho literário” (10).
Mas não é só relativamente à prosa poética que Simón Partal traça
fronteiras, já que nessas entrevistas afirma não ter pretendido escrever
um livro social nem político, asserção que aceito, acrescentando, todavia,
que esta vinculação do amor à transcendência não é uma levitação
abstrata, mas um estar-aqui através de todos os aspetos do humano –
incluindo o social e o económico (11) - e é na urdidura de todas essas
variáveis que a maestria de Partal atinge o seu ponto mais alto, ao saber
dosear na justa proporção: aspirações, fracassos, desejos, frustrações e
vontade de recomeço.
     Importa também advertir que La Parcela jamais cai em quaisquer tipos de
cultismo ou de hermetismo de exibição, coisa que poderíamos ser
tentados a pensar dado o constante tom reflexivo, assim como as
enumerações de autores (Montaigne, Santo Agostinho, Pascal, William
Blake, o cardeal Walter Kasper, etc.), as referências eruditas são sempre
solicitadas pelo desenrolar da ação e/ou pela estrutura do texto, jamais
surgem como excrescências de péssimo estilo: umas vezes essas marcas
do discurso surgem de forma nítida como na página 91: “Tinha
comentado, nas minhas aulas as viagens ao norte de África de poetas
franceses e espanhóis que iam em busca de sexo, peles lisas e juventude”
(12); outras vezes, essas marcas de saber ou de espiritualidade estão de
tal modo imbuídas na ação, que dificilmente as vislumbramos, como por
exemplo a seguinte passagem da página 124: “ Estou num bom lugar,
repeti várias vezes como se fosse um salmo.” Agora comparemos essas
palavras com o segundo verso do Salmo 23: “Javé é o meu pastor. / Nada
me falta. / Em verdes pastagens me faz repousar;/ para fontes tranquilas
me conduz,” (13).
     La Parcela apresenta-se-nos, por conseguinte, como a radiografia natural
e espiritual de um homem chamado a habitar, numa parcela do universo,
essa parcela de absoluto, onde os apelos bio-fisiológicos e culturais
(álcool, drogas, raves, bares, saunas, sexualidade, “encontros” de
ocasião…), muitas vezes, tomam a dianteira sobre a vontade e a razão,
mas que, no mais fundo de si, se apreende em concordância com a
expressão latina (e também de acordo com um título do já referido
Gabriel Marcel) como Homo Viator. Nenhuma queda, por maior que possa
ser, lhe suprimirá o desejo dessa parcela de Amor que, melhor ou pior,
todos os dias vai construindo no seu aqui, daí eu concluir com uma
constatação, que, a certa altura, o narrador faz num dos seus momentos
de silêncio: “Uma pessoa que passa uma terça-feira numa igreja é alguém
que se oferece, que se mostra disponível para o que possa acontecer. Ali
sentado, uma pessoa pode perceber como a eternidade desce nessas
horas de uma manhã de outono. Poucos atos são tão subversivos como
passar a semana sentado numa igreja fazendo parte da serenidade que ali
acontece, protegido da intempérie que o espera do outro lado da porta.”
(14).


(1) Cf. Diário Digital La Nueva Crónica, 2022/03/14;
(2) In La Parcela, p 85. Todas as traduções deste ensaio são de minha
autoria;
(3) Cf. Entrevista referida acima in La Nueva Crónica;
(4) Cf. Entrevista concedida ao Periódico Digital Heraldo de
2022/03/14;
(5) In La Parcela, p 76;
(6) Idem, pp 78-79;
(7) In “La Fuerza Viva”. Valencia: Editorial Pre-Textos, 2017, p 27;
(8) In La Parcela, p 85;
(9) Idem, p 153;
(10)Cf. Entrevista referida acima in La Nueva Crónica;
(11) Cf. La Parcela, p 17, pp 22-23, p 47, p 75, p 131;
(12) Acerca deste tema poder-se-á ler o modo como Gide experienciou
a tríade: experiências vividas, espiritualidade e relacionamento com
Óscar Wilde e Alfred Douglas, In André Gide. Si le grain ne meurt. Paris:
Éditions Gallimard, 2018, pp 285-362;
(13) Bíblia. Apelação: Paulus, 1993, p 730;
(14) In La Parcela, p 73.


Victor Oliveira Mateus in "Oresteia, Revista de Literatura, Filosofia, Ciências Sociais e Artes" Nº 8, maio 2022, Revista quadrimestral: Lisboa: ISSN 2184-8831.
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quinta-feira, 2 de junho de 2022

                 HÁ-DE PASSAR

                    "For me lips that have smiled, eyes that have shed tears"
                         In Song of Myself, Walt Whitman



E o meu rio corre
e assim avança,
mesmo se as paredes da alegria
se estreitam e é então que
lanço estas âncoras recitativas
para passar,
mesmo de lado,
a fazer espaço com os cotovelos:
aqui ao leme sou mais do que eu.
Porque tenho e tu tens adamastores desmedidos
e lá ao fundo cantam as sereias o sonho dos cínicos −
não ouço, não quero ouvir,
as paredes estreitas hão-de florir
apesar daquele filho da puta ali em baixo
andar a convencer-me de que não.
Espanca a cadela e os ganidos
enfiam-se-me no pensamento −
o ouvido é um bicho de eco infinito,
nada nunca passa, é o caracol da eternidade.
A polícia não quer saber, ninguém quer,
vou à janela para que ele saiba que eu vejo
e hoje gritou-me outra vez,
puta do caralho, vai para dentro ou esmago-te
os cornos.
Não ouço, não quero ouvir, podes cantar, sereia,
hão-de florir.
Sou impotente, é certo, não consigo salvar a cadela,
nem impedir que vendam meninas para o tráfico,
nem coisa alguma destas que dariam cabo de mim
quando as paredes se estreitam,
mas eu passo,
hão-de florir.
E a alegria passa também, nem que seja à cotovelada:
há uma miúda, Michaela DePrince,
já deve ter vinte anos, agora,
é bailarina profissional
numa boa companhia, na Holanda,
veio da Serra Leoa, internada no orfanato por um tio.
Depois de assistir ao assassinato do pai, à mãe morta à fome,
ainda viu ser cortada a barriga à professora grávida,
por uma aposta,
à catanada corta-se
o penúltimo vínculo de esperança
O último, uma folha apanhada na rua,
naquele orfanato ao fundo do inferno,
uma bailarina de tutu cor-de-rosa jogada pelo vento,
e ela, quatro anos de idade,
sem ter feito uma única pirueta na terra batida,
agarra-a,
sem saber dizer ballet,
e ela: aqui ao leme sou mais do que eu,
hão-de florir.
E foi da África à América do dêem-me os vossos pobres –
que afinal existe.
A América existe sempre.
As paredes da alegria estreitam-se, mas a gente passa.
Todos os impotentes transbordam uma fúria omnipresente
e eu, ah eu, nessa fúria bem esmagava os cornos
àquele traidor do pacto que os cães fizeram com os homens
quando abandonaram a alcateia para ser matilha.
E era bem capaz de cortar à catanada
um cobarde de orfanatos.
Mas até ao mostrengo que trago dentro
e que a voar roda três vezes,
e à sereia que lá do fundo de mim canta,
respondo, aqui ao leme sou mais do que eu,
e o meu rio corre
e assim cresce o mar,
e as paredes fazem espaço
e o meu poema há-de passar.
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 Eugénia de Vasconcellos. Livro da Perfeita Alegria. Lisboa: Guerra e Paz Editores, 2021, pp 27-29.
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