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terça-feira, 10 de dezembro de 2019


        Carta a mim mesmo


Entre um mar de imagens vago
bêbedo nas paisagens interiores
da madrugada.
Lembro os cavalos que um dia
montei num poema improvisado.
Cavalos que saltavam a incerteza
e a carne acumulada da solidão.
Lembro as casas sem luz, estranhas
que um dia ergui com palavras.


Agora sou aquele construtor
mais velho, mais lavrado
seu coração de pedra,
mais limpo e menos pesado,
livre das lascas que arrancaram
o amor e o mar,
as garras do medo e do vento.
Sagrado cinzel do amor,
dá-me tempo
para olhar a imagem esculpida
da verdade que levo dentro.
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 Salgueiro, Alfredo Ferreiro. Teoria das Ruínas. S/c.: Poética Edições, 2019, p 37.
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domingo, 8 de dezembro de 2019


                     As moscas


Sorvem restos de açúcar
as moscas congregadas
pelo cheiro do poeta
no recanto do café.

Um poeta nunca morre
completamente.
É a compensação
por ter passado a vida
meio morto.

As moscas acodem
por causa da doçura
que sua amargura verte,
a doce melancolia
da paixão perene
que o ata e desata
em versos de violência e paz,
a golpes de amor e de espada.

As moscas sabem.
É doce a maldição
que do poeta mana,
é o sangue, é o suor,
é a lágrima que o associal
verte para redimir
a perversa sociedade.
É o cativeiro vital
de quem acode
chorar o que outros
entregam à morte.

Por isso as moscas libam
a lírica miragem
daquele que as observa.
Imortais companheiras
que versificadas zoam
sobre um corpo a desalmar-se
no recanto de um café.
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 Salgueiro, Alfredo Ferreiro. S/c.: Poética Edições, 2019, pp 26-27.
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