Mostrar mensagens com a etiqueta Juan Carlos Martin Cobano. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Juan Carlos Martin Cobano. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2024


La gloria de la chinche
.
No me llames chinche
llámame Cimex lectularius,
soy el guardián de tus sueños,
la presencia invisible y tan real
que desata tus más ocultas ansias
de Livingstone doméstico.
.
Búscame o, mejor, ignórame.
Inténtalo.
.
Me denigras, me maldices,
desempolvas remedios legendários,
consultas a la abuela y algurú,
lo pruebas todo.
Iluso.
.
Insúltame cuanto quieras,
reniega de mí, relégame
a la más infame ignominia.
Tú mismo.
Yo aqui seguiré,
tus uñas nerviosas
cantarán aún mis proezas.
La comezón que alimentas
me entroniza en los anales
de tu historia.
Tu prurito es mi gloria.

***

A glória do percevejo
.
Não me chames percevejo
chama-me Cimex lectularius,
sou o guardião dos teus sonos,
a presença invisível e tão real
que desata as tuas aflições mais ocultas
de Livingstone doméstico.
.

Procura-me, ou melhor, ignora-me.
Tenta.
.
Difamas-me, amaldiçoas-me,
recuperas remédios lendários,
questionas a tua avó e o guru,
tentas tudo.
Crédulo.
.
Insulta-me sempre que quiseres,
despreza-me, expulsa-me
para a mais infame ignomínia.
Tu mesmo.
Eu continuarei aqui,
as tuas unhas nervosas
continuarão a cantar as minhas proezas.
A comichão que suportas
entroniza-me nos anais
da tua história.
O teu prurido é a minha glória.

Tradução de Victor Oliveira Mateus

*-*-*-
.Juan Carlos Martín Cobano (Carmona, Espanha, 1967) é um poeta, filólogo, editor, livreiro e tradutor de origem andaluza, embora tenha sido formado em Barcelona. Publicou a coletânea de poemas Tiempo de cruzar el umbral (2020) e o livro de ensaios Poesía como oficio sacro y otros escritos (2021). Ministrou workshops e conferências em diferentes países com a Associação Latino-Americana de Escritores Cristãos (ALEC), é presença habitual no encontro Los Poetas y Dios (Toral de los Guzmanes, León), no Encuentro Cristiano de Literatura (Salamanca) e no Encuentro de Poetas Iberoamericanos de Salamanca (cinco edições). Foi também convidado especial de duas edições do Encontro Luso-Hispano-Americano de Música e Poesia, ROIZ, realizado na cidade portuguesa de Castelo Branco em 2019 e 2021. Até janeiro de 2018 foi secretário-geral da ADECE e é atualmente secretário-geral da TIBERÍADES, Rede Ibero-Americana de Poetas e Críticos Literários Cristãos. É também secretário do Encuentro de Poetas Iberoamericanos – Salamanca desde 2021. Os seus poemas e textos estão publicados numa dezena de antologias, algumas delas em português, bem como em revistas como Taller Igitur, Cardenal Revista Literaria, (México), Nagari, New York Poetry Review (EUA), Crear en Salamanca (Espanha).

*-*-*-



 

 Las muletas de la cucaracha

(La cucaracha ya no pode caminhar
porque no tiene, porque le faltan
las dos patitas de atrás.
Canción popular)

.
.
Fue traumático, lo admito,
eran las dos traseras,
pero eran mis patitas.
.
El pueblo me las quitó
con sus cantares livianos.
Acaso no sabían
que sus rimas
mutilaban de verdade?

Aún las busco al despertar
y cuento dos pares tan solo.
Com muletas no es igual.
.
Me vengaré en sus fobias.
Infestaré sus ágapes,
colonizaré sus museos
me passearé por sus tartas de boda,
anidaré en sus sueños,
aovaré entre sus altares,
nadaré en sus biberones,
surcaré sus guisados,
pariré a sus mandamases,
inspiraré a sus poetas.
.
Ignoraban que sus cantos
pudieron despojarme
de todos mis membros.
Mas solo querian reirse,
menguar mi habilidade,
nada de matarme.
.
Pues ahora es mi turno
y com torpe paso me dirijo
hacia mi trono, mi escenario:
les dedico una canción
que es mi mera presencia.

***

As muletas da barata

Foi traumático, admito-o,
eram as duas traseiras,
mas eram as minhas patinhas.
.
As pessoas tiraram-mas
com as suas canções ligeiras.
Acaso não sabiam
que as suas rimas
mutilavam de verdade?

Ainda as procuro quando acordo
e conto dois pares apenas.
Com muletas não é a mesma coisa.
.
Vingar-me-ei nas suas fobias.
Infestarei os seus banquetes,
povoarei os seus museus,
passear-me-ei pelos seus bolos de casamento,
habitarei os seus sonhos,
aclamarei no meio dos seus altares,
nadarei nos seus biberões,
sulcarei os seus guisados,
parirei ante os seus chefes,
inspirarei os seus poetas.
.
Ignoravam que os seus cantos
poderiam despojar-me
de todos os meus membros.
Apenas queriam rir-se,
diminuir a minha destreza,
e nunca me matar.
.
Pois agora é a minha vez
e com trôpego passo dirijo-me
para o meu trono, para o meu palco:
dedico-lhes uma canção,
que é a minha presença.

Tradução de Victor Oliveira Mateus

*****

La mosca
.
Un mar claro y vertical de honduras prohibidas
rechaza a la mosca que embíste incansable
al cristal de la ventana.
.
Sabe el insecto que el confort de las paredes
es una mentira
de días contados.

Las migajas calefactadas la engañaran unas horas,
media vida,
y ahora el mundo real, lo orgânico,
estás a três milímetros infranqueables de luz.
.
Sin saberlo, espera a la mano gigante del porteiro.

***

A mosca
.
Um mar límpido e vertical de profundezas interditas
repele a mosca que investe incansável
contra o vidro da janela.
.
Sabe o inseto que o conforto das paredes
é uma mentira
com os dias contados.
.
As migalhas aquecidas enganaram-na por algumas horas,
meia vida,
e agora o mundo real, o orgânico,
está a três milímetros intransponíveis de luz.
.
Sem o saber, aguarda a mão gigante do porteiro.

Tradução de Victor Oliveira Mateus

-*-*-*


.


.
.


.