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domingo, 6 de dezembro de 2020

 

   A criança, frente a uma mãe que lhe surge como maravilhosa, grandiosa, sabendo tudo, capaz de tudo prever ou tendo um comportamento demasiado atencioso, corre o risco de construir uma inquietação específica relativamente à sua condição infantil, é a posição daquele que não está ainda concluído, então a função materna coloca a mãe numa posição de objeto  omnipotente.

   Uma má mãe pode assumir papeis diferenciados. Semelhante à fada Carabosse, ela lançará um mau olhado sobre a criança tornando-a dependente dela, indo mesmo para além dos pedidos da criança antes mesmo que ela os tenha manifestado, o que faz com que ela nunca chegue a saber aquilo que quer ou sente na realidade. Ora, todos nós temos necessidade, para nos construirmos, de abandonar o imediato que nos satisfaz, de conseguir distanciamento relativamente ao objeto. Separar-se da sua mãe equivale a abandonar a satisfação imediata e renunciar ao prazer que agrada para poder encontrar a via do seu próprio desejo, pois o aparelho psíquico precisa de se desenvolver e de diferir a satisfação.

   Essa mãe, que se coloca de imediato no lugar do seu filho e que julga saber - antes mesmo dele - aquilo de que ele tem necessidade, pratica uma espécie de engorda não permitindo uma boa diferenciação do estado oral (1). Por essa razão, o seu filho terá dificuldade em exprimir as suas necessidades, em distingui-las das pretensões dela e não conseguirá saber onde se situa o seu próprio desejo. Esta mãe má por excesso que acabo de descrever é uma mãe tóxica: ao tornar-se indispensável, intoxica o seu filho impedindo-o de crescer.(...) O pai nesta díade fusional mãe-filho não consegue o seu lugar, não tem mesmo lugar. Só existem ela e o filho.(...) Podemos ver nesta situação a origem de numerosas depressões chamadas anaclíticas e sobretudo de múltiplas toxicodependências ou farmacodependências - cujo desenvolvimento é considerável na nossa época - que acabam chamando a atenção para o facto de que a criança não pode adquirir a sua autonomia de homem.

   (...) Hoje, é o ciclo do desenvolvimento desestruturado que aumenta: perturbações da personalidade, perturbações identitárias e do comportamento, dependências, personalidade frágil ou procura desenfreada do prazer por incapacidade de se ter distanciado da mãe e integrado a perda e o desmame como estruturantes, daí o número considerável dos estados limite, mas também o incremento da rigidez perversa ou da paranoia (...). Daí também as passagens ao ato agressivo, à delinquência, à depressão e sobretudo às toxicodependências que conhecem hoje um aumento considerável.

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(1) O Estado Oral é o 1º Estádio do desenvolvimento do Aparelho Psíquico segundo Freud (N.T.).

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 Barbier, Dominique. La fabrique de l' homme pervers. Paris: Odile Jacob, 2017, pp 165-171 (Tradução de Victor Oliveira Mateus.)


domingo, 15 de novembro de 2020


                                                  Donald Winnicott (1896/04/07-1971/01/25)


    A propósito dos cuidados maternos, torna-se essencial evocar a contribuição de Winnicott, que foi um excelente observador das relações precoces mãe-bebé. Para este pedopsiquiatra inglês, existem três funções maternas, indispensáveis para o desenvolvimento harmonioso da criança.

- A presença materna no momento adequado oferece à criança a ilusão de experimentar que é ela que é capaz, na sua omnipotência, de dar existência à sua mãe, que surge no momento oportuno, quando ela tem necessidade. Há, então, esta impressão que ela criou o objeto. Diz-se que ela fez a experiência da omnipotência criadora ou alucinatória que consiste em fazer aparecer a sua mãe quando a criança dela tem necessidade. É aquilo a que Winnicott chama a "presentificação do objeto" (object-presenting).

- A mãe sustenta a criança através dos cuidados maternos e tem um papel de para-excitação. Ela tempera as excitações cuja intensidade demasiado importante ultrapassariam as capacidades da criança de lhe fazer face. Esta função é fundamental no desenvolvimento do eu. A integração do eu está associada ao desenvolvimento sensório-motor e à capacidade de criança em reconhecer aquilo que sente: fome, sede, frio, desconforto. Desta integração deriva a aquisição do "eu". Esta capacidade em controlar-se é designada por holding por Winnicott.

- Os cuidados prodigalizados à criança participam na capacidade desta integrar os seus limites corporais e, por consequência, ter noção da sua interioridade.  (...) a manipulação física do bebé - handling - intervém na personalização.

   Graças ao holding (...) e ao handling (...). A criança adquire o sentimento de habitar o seu corpo. (...) A criança relaxa pouco a pouco o seu lado fusional sem precisar de conhecer angústias insuportáveis devidas à perda brutal do holding e do handing. E, mesmo quando sente sentimentos de cólera pela ausência da mãe, a criança é já capaz de manter nela uma representação da mãe.

  É a isto que Winnicott chama a mãe suficientemente boa, que ele define como aquela que é capaz de aceitar que a sua criança viva as primeiras frustrações que irão estruturar o seu desejo graças à falta que ela vivenciará como motor. Essa mãe não será nem ausente em demasia, mas também não demasiado possessiva ou invasora. Ela aceita que a sua criança se diferencie dela e aceda à emergência do desejo. Uma resposta caótica, desordenada ou imprevisível às necessidades da criança pode ter um valor de ingerência ou de negligência e dará à sua construção do mundo um caráter fragmentado. O que pode, também aí, favorecer a eclosão duma estruturação perversa a título defensivo para evitar uma fragmentação psicótica da criança.

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 Barbier, Dominique. La Fabrique de l'homme pervers. Paris: Odile Jacob, 2017, pp 85-87 (Tradução de Victor Oliveira Mateus).

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sexta-feira, 13 de novembro de 2020


   Num perverso, a integração da lei e o seu corolário, o interdito, não são significantes. O não não tem sentido para ele. É o que explica que o perverso queira tudo, inteiramente tudo e imediatamente. A castração e a frustração não funcionam com ele; ele mantém-se em evitamento dessas duas noções que são fundamentais a toda a vida social (...). O perverso tem decisões firmes relativamente ao seu prazer e ao seu gozo pessoal, que ele esconde, num primeiro momento, já que ele despreza aquele que não é objeto do seu prazer. O que nos leva a pensar que é possível, neste ponto em que estamos da nossa reflexão,  propor uma segunda hipótese: o perverso é incapaz de amor ou não tem muita capacidade de amar o outro. A sua oblatividade está enfraquecida, ele não pode projetar num outro suficientemente qualidades que pudessem tornar esse outro amável aos seus olhos.
   A leitura muito negra da existência que o perverso narcísico tem deixa supor que uma forte espera durante o seu desenvolvimento nunca chegou a ser atendida ou que algo se quebrou dentro dele, parando assim um processo que poderia ter sido mais harmonioso num investimento no mundo e no outro. A relação objetal do perverso parou a meio caminho antes de conseguir integrar que pode existir algo de belo e de bom no outro. Ora é esse movimento que induz o respeito pelo outro.
   Se o perverso narcísico não consegue projetar qualidades no outro, é porque, sem dúvida, no mais fundo de si ele se detesta, o que conduz a um profundo nó depressivo não elaborado e a uma convicção quase delirante de que não existe nada de bom neste baixo mundo. O perverso narcísico parece não ter nenhuma capacidade de positivar. Nó depressivo profundo, incapacidade de positivar, convicção quase delirante: eis-nos próximos da psicose. (...) o perverso é aquele que tenta escapar à psicose, hipótese que abre pistas terapêuticas onde a moralização e o ajuizar, que não têm qualquer efeito sobre este tipo de indivíduos, não devem ter lugar. Esta hipótese implica que o perverso não tem um suficiente conhecimento da existência do outro, daquilo que esse outro pode fazer ou não fazer. O mundo exterior surge-lhe vacilante, apenas contam o seu prazer pessoal e o seu gozo, mas a organização perversa é muito rígida...
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 Barbier, Dominique. La Fabrique de l'homme pervers. Paris: Odile Jacob, 2017, pp 68-71 (Tradução de Victor Oliveira Mateus).
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