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domingo, 26 de agosto de 2018


(...) Lourenço sentiu-se abrasado, contar como matara o motorista excitava-o, revelou uma mentira, disse-lhe que ele confessara aonde tinham ido, o que tinham feito, como tinham feito, não entrava em pormenores, extremou a mentira, gozou contigo, disse que há muito tempo não tinha uma mulher tão carecida, d. Consolação dirigiu-se-lhe, revoltada, deu-lhe uma bofetada, d. Consolação começou a chorar, Lourenço desapertou o cinto, desprendeu os botões da braguilha e forçou-a a colar a cara ao membro descomunal, do tamanho do rosto de d. Consolação, as cuecas cheiravam a mijo, d. Consolação enojou-se, golfou uma aguadilha, cuspo espesso, a garganta bolçava (...) Lourenço queria humilhá-la, ao mais íntimo do pudor católico, até às lágrimas, rasgar-lhe a vergonha, não imaginava que essa tarde d. Consolação brincara com a língua na glande do pénis do motorista, desejava preparar-se para, em futuros encontros, o chuchar consoladamente, dar um infinito prazer ao seu amor, como lhe chamava, ele poderia fazer com ela o que quisesse, era essa a prova do amor, amor desnudo (...) ele tinha de deixá-la em casa, ficaria para outro encontro, veio todo o caminho sentada no banco da frente, com a mão esquerda sobre a braguilha do motorista, roçando a fazenda das calças até ele, tresloucado, parar o carro na berma e depositar-lhe as duas mãos sobre o pénis, ela ria-se como uma menina enquanto, curiosa, lhe olhava as caretas que ele remedava enquanto se vinha.
   Presa pelo punho, d. Consolação foi obrigada a encostar a cara ao pénis do marido, um cheiro fedorento a urina agoniou-a fisicamente (...) um homem que assim força a esposa não é marido, é um embusteiro, um pervertido, d. Consolação percebeu que o motorista nada confessara, a sua personalidade não o permitia, homem de pundonor, não um farrapo como aquele Lourençozito, percebeu igualmente por uma frase solta - sofres na tua honra o que o teu amante sofreu na carne - que ele, o amante, já não estava vivo, uma cólera indómita, maior do que o peito que a albergava, uma cólera transformada em raiva assassina tomou conta de d. Consolação, não foi premeditada (...) d. Consolação, com o polegar e o indicador de uma mão tapou as narinas, para que o cheiro do mijo imundo a não agoniasse, entreabriu os lábios trementes dispostos a receber o cume cónico esponjoso do pénis de Lourenço, o rebotalho da humanidade, o refugo dos maridos, a ralé dos esposos, Lourenço empurrou o pénis para a boca da esposa, esta abriu ao máximo os lábios, como se o acolhesse de boa vontade, e, num instante, um segundo maior do que as 24 horas do dia, trincou-o com a máxima força possível, mordeu-o com o prazer do leão a esgarçar a carne da gazela, prazer tão excelso que, sem o querer nem esperar, sentiu líquidos vaginais a irromperem pela vulva, e mordeu de novo, e uma terceira vez, as mandíbulas como hastes de uma tenaz, os maxilares sólidos como as queixadas de um crocodilo, incisivos, caninos e molares numa força única, uma só direcção, um só ímpeto. Um líquido quente correu na língua de d. Consolação, encheu-lhe a boca, aflorou a garganta, Lourenço urrava como um urso encurralado, d. Consolação cuspiu o sangue, jogou-se para o tapete do quarto, rastejando, Lourenço, as calças em baixo, cuecas a meio das coxas, agarrado ao pénis ensanguentado...
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 Real, Miguel. Cadáveres às Costas. Alfragide: Publicações D. Quixote, 2018, pp 443-445.
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terça-feira, 21 de agosto de 2018


   Ouvi claramente a sua voz no interior do meu cérebro, vi claramente a imagem do seu rosto, baixei a cabeça como se ele estivesse à minha frente e, ansioso e perturbado, pedi-lhe que me desse mais uns dias, uma semana no máximo, talvez um mês, o ano lectivo terminara, jurei ao inventado fantasma do meu pai (...). Não cumpri, não mais me lembrei da promessa. Direito era, para mim, um cadáver que já não arrastava às costas, um tempo longínquo que sabia à pré-história da minha vida. Não queria estragar a minha vida, não queria ser um advogadozeco como há mil por aí, não queria casar-me com mais uma Cremilde e ter um Tiago e uma Vanessa, almoçar cozido à portuguesa e ir ao cinema à segunda-feira que é mais barato (...) não queria tornar-me avô de netos como os filhos do Martim, não queria reformar-me e morrer num lar.
   Queria ser escritor, se preciso solteiro, pobre e viciado em café e nicotina, viver numa pequena cidade de província numa casa de quatro-águas, publicar um romance de dois em dois anos, gostaria de não dar entrevistas mas, se fosse necessário, lá teria de aturar a ignorância dos jornalistas, porventura conhecer um ou outro escritor, mas não frequentaria tertúlias e não defenderia nada nem acusaria ninguém, viveria como se o mundo não existisse embora ele fosse o alimento da minha escrita, os livros, as revistas, os jornais, não a televisão, seriam suficientes como companhia.
   "Pai, dá-me uns meses, não te desiludirei." Escrevi esta frase no caderno a tinta vermelha, ocupava uma linha na sua totalidade, e repeti e repeti a escrita, furiosamente, sempre por cima da primeira versão, até se tornar ininteligível, um borrão vermelho, uma mancha indecifrável.
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 Real, Miguel. Cadáveres às Costas. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2018, pp 267-268.
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   Como eu próprio o experimentara, d. Bartolomeu, desde o início dos tempos da democracia, simulava respeitar a burguesia, os professores do colégio dos filhos, os advogados da família, os funcionários públicos, os empregados bancários, os profissionais de seguros, os polícias, mas tratava-se apenas de um fingimento social, nunca deixara de olhar para a classe média como uma classe rafeira, advinda dos fundos da sociedade, ocupando os lugares do poder, como verdadeiros apparatchiques, impondo a sua ordem burocrática e burguesa. Fizera-me ver que, há duas ou três décadas, os avós e os pais destes zeladores do boa consciência social, analfabetos, lavravam a terra a pés nus e enxada alçada, não havia dinheiro para um burro ou um boi que lhes arrastasse o arado, desconheciam o que era uma casa de banho, dormiam embrulhados em palha com os filhos à ilharga e sorviam a sopa da mesma escudela, primeiro o pai, depois os filhos por ordem etária, finalmente a mãe, os restos. Hoje, com a democracia, os pais tinham ganho reformas da segurança social, as câmaras municipais tinham-lhes montado água e luz em casa, subsidiado o levantamento da casa de banho e da cozinha, e os filhos, aqueles que ora confrontavam a ascendência aristocrata de d. Bartolomeu, tinham estudado na primária e na secundária com livros custeados pela acção social escolar (...). Numa geração ou duas, tinham passado de crianças ranhosas e grosseiras, de mente obtusa, enfiadas nos esconsos dos casebres dos pais, a senhores doutores urbanos (...).  Eram estes senhoritos burgueses de fibra inferior, aqueles que no passado não subiriam do porão das naus, que o chamavam às finanças inspeccionando os dinheiros da família Peralta Perestrêllo. D. Bartolomeu estava fulo, gritava pelos corredores da mansão, já lhe tinham matado o pai na prisão, já o tinham obrigado a fugir para o Brasil durante um ano, desgastando-lhe os rendimentos, já lhe tinham roubado o latifúndio, o maior do Baixo Alentejo, quereriam agora, porventura, que ele se pusesse a trabalhar, a abrir escritório de advogado, como um vulgar burguesito, como o era o seu advogado, filho de um fura bilhetes dos comboios suburbanos, munido porém de uma inteligente lábia na barra dos tribunais, raramente perdia um processo, fora por isso que lhe entregara, logo em 1979, o da devolução da herdade alentejana da família, cuja indemnização equilibrara as contas da família por muitos anos.
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 Real, Miguel. Cadáveres às Costas. Alfragide: Publicações D. Quixote, 2018, pp 129-131.
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