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sexta-feira, 8 de setembro de 2023


              O amor incorrigível


Todo o amor é incorrigível, essa
Rara identificação que as almas
Fazem e os corpos autenticam
Com sobressaltos e poderes ignorados,


Que são impossíveis de vencer.
Todo o ardor é inquebrantável,
A lenta e densa anuência que se acumula
Nas praias em que o mar às vezes


Deixa de ser mar para ser augúrio
E benefício. Toda as perguntas
São intoleráveis, as que se enleiam


Nas mãos e nos cabelos, as que
Nada sabem de nós mas são terríveis
Na obscura cartografia do deserto.
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 Amadeu Baptista. Os amantes separados. Fafe: Editora Labirinto, 2023, p 26.
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quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021


 

Há dias em que o coração aperta e vou às árvores

Como que para me vingar. Aceno com o lenço

Para o longínquo e muito custosamente

Decido não chorar, enquanto faço


Com que o machado corte, ampute, abata, arruíne.

Depois lamento o trabalho que faço,

Nem mais nem menos do que um homicídio

Em massa, pior ainda porque é premeditado.


É detestável o confinamento, a intenção

Sonegada de me aproximar dos outros,

O ridículo de algumas situações em que caímos.


Como se adiam os beijos que não damos?

Com que cobardia andamos afastados?

Que derrotados poemas são estes que escrevemos?


 Amadeu Baptista.  poeira escura. Leça da Palmeira: edições Eufeme, 2021, p 55.

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terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

 

Tão triste que isto é mesmo se a alva chega.

Ouço os primeiros gorjeios da carriça,

Ouço o trinado dos melros. O guarda-rios

Canta. E eu sozinho aqui, transido deste frio,


A preparar a erva que o gado reclama,

Ansioso por um púcaro de chá que me alente

A alma, da gelada geada que à minha volta grassa.

Fose eu um fantasma e estaria a salvo.


Fosse eu um espectro e estaria certo

De não ter que me proteger do frio que faz,

Da ameaça do vírus que anda à solta.


Digo 'bom-dia' à vizinha que ontem me ignorou.

Ela olha-me nos olhos e abre um sorriso.

Pede-me que lhe desculpe o pavor que mostrou.

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 Amadeu Baptista. poeira escura. Leça da Palmeira: edições Eufeme, 2021, p 43.

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