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quarta-feira, 8 de março de 2023


 Viajante solitário


Tinha nevado durante a noite
mas a neve era tão fina
que derretia debauxi das botas


Só um corvo
quebrava o silêncio e a solidão


Parou e olhou pra trás
assim ficava marcada
a sua passagem sobre a Terra


Se voltasse a nevar
as suas pegadas desapareceriam
e ele com elas


Ninguém dava por nada
ninguém daria pela sua falta.


  Manuel Silva-Terra. estado poético. Leça da Palmeira: Eufeme: 2023, p 25.
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sexta-feira, 23 de abril de 2021


Na minha juventude
apaixonavam-me a beleza e a inteligência.
Agora, já mais maduro, apaixona-me a bondade.

Se alguém que junte a bondade e a beleza
eu me prostrarei a seus pés. Assim foi Diotima.

Nos meus sonhos de nos isolarmos e vivermos juntos
longe de todos, um dia arquitectei a nossa moradia.


  Manuel Silva-Terra. Holderlin. S/c: Editora Licorne, 2021, p 40 (Prefácio de Isabel Aguiar). 
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segunda-feira, 12 de abril de 2021


Estarei longe das serras eléctricas dos homens
só e soberana. Por enquanto sou um sonho
concentrado em ser "Eu" fora de mim
ser fruto e abrigo para as aves.

Tudo o que está em estado nascente é poético
mas também o que está em estado poente o é.
Tudo o que se desvanece evanesce.

Cansado pelo longo caminho de pedras e cardos
tinha as botas gastas e os pés quase nus em ferida
quando um gato me saltou em frente
velho, era só pele e osso, arranhado em chagas vivas.

Debrucei-me sobre ele. Era afinal uma gata.
Os olhos claros eram ainda belos
beijei-a na boca e ambos nos salvámos.

Não tínhamos ainda chegado ao fim do caminho.


  Manuel Silva-Terra. Holderlin. S/c.: Editora Licorne, 2021, pp 32-33 (Prefácio de Isabel Aguiar).
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sábado, 16 de fevereiro de 2019


       
A luz que atravessa a mão
é a mesma que devora o cérebro

Tragam-me a sombra
que afasta o frio do nadir

Afastem essa corda congelada
dêem-me um fio de Sol
para tecer uma nova madrugada.
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  Silva-Terra, Manuel. Medula. S/c.: Editora Licorne, 2018, p 118.
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quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019


                           *

Algo impronunciável. Diz-me o teu nome. Diz-me o
silêncio que revela não os factos, mas a ordem. Solta
o espírito da criança aprisionada.
A corda está na máxima tensão. Solta-a tão rápido que
o instante fenda o círculo e te liberte do teu centro.

                          *

Toda a arte, como o amor, é uma forma de concentração
que sucede à dispersão - concentra o real num só ponto.
Ao concentrar, separa, destaca uma nota doTodo. Mas o
que acontece com o amor também acontece com o ódio.

                          *

"Se um homem faz da vida um uso artístico, o cérebro
passa a ser o seu coração"

                                       Mozart

                          *

Só quem arrisca a vida é verdadeiramente livre. Tudo o
mais é produto da retórica do medo. (Tirem-me o medo
daqui e toda a história humana se vira de pernas para o ar.)
Esta retórica acaba por se alimentar de si própria, torna-se
auto-suficiente, e alimenta legiões de palradores - alguns
até fazem disso profissão. Por isso, entendo Baudelaire
quando nos ensina que só há três existências autênticas: a
do guerreiro, a do santo e a do poeta. A poesia é acção, tal
como a guerra e a santidade.
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   Silva-Terra, Manuel. Medula. S/c.: Editora Licorne, 2018, p 30.
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