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segunda-feira, 17 de janeiro de 2022


* 18. Há uma chama avulsa que se agita por entre os escombros da beleza. É uma forma de questionação como qualquer outra. É uma saudade de fogo. Lupa que se inclina sobre o infinito. Por isso, ofereço-te, não a rosa, votada à cinza, mas o frágil canto que dela sou capaz. Aceita se quiseres esta ausência, réplica espavorida com que esperamos despertar a mesma noite sem nome. No eco feliz do que não voltará a ser, reconhecemos uma espécie de alegria.

* 19. A árdua arte das palavras permite aprofundar o abismo. Não me ocorre muito mais. São apenas ficções que minam o retrato, que esburacam o relato, a sabotagem de todas as leis da identidade. Ardor impessoal com o qual não saberia viver. Escrevo para ti, não sei escrever para mais ninguém. Tendo naturalmente para a fantasia, para a efabulação dos factos mais concretos. Misturo tudo e dessa amálgama improvável nasce a mais objectiva impostura que me prende. Como explicar um tal sentimento de urgência? Aqui estão elas: pegadas envenenadas, assombro por enterrar.
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 Ricardo Gil Soeiro. Tratado da mão. Vila Nova de Famalicão: Edições Húmus, 2021, pp 22-23.
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domingo, 31 de março de 2019

                         
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Vasculhamos as suas páginas e a dor que delas exuma. Com Cioran
aprendemos a perguntar: não será a verdadeira vertigem a ausência
da loucura?

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Amar é já uma espécie de despedida.

                                        *

A futilidade de tudo, jogo inútil, uma dança obsessiva de antíteses
igualmente desprovidas de sentido. Um tudo-nada, frivolamente
defunto.

                                        *

A acreditarmos na felicidade só o poderíamos fazer se a
considerássemos como uma distracção ou uma traição imperdoável,
um magnífico ultraje que encobre o alcance da nossa cobardia:
"Somos todos farsantes: sobrevivemos aos nossos proble-
mas ( Silogismos da Amargura : 21).
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    Soeiro, Ricardo Gil. Volúpia do Desastre, Notas soltas para Cioran". Fafe: Editora Labirinto, 2019, p 34.
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