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sexta-feira, 23 de agosto de 2019
na paisagem que o calor minou;
o deserto invade-as pela base:
apenas dunas
e uma película exterior de pedra
a sustentá-las;
cactos tão desidratados
que tornam a expandir-se:
formas inchadas no horizonte
procuram alcançar as nuvens;
e estas,
também sem água ou chuva previsível,
flutuam vagarosamente,
cada vez mais altas; e parecem
por fim fixar-se nas fronteiras
do ar;
a neve a rodear a casa,
a assustá-la
com o seu brilho de vidro;
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Oliveira, Carlos de. Trabalho Poético. Lisboa: Assírio & Alvim, 2003, p 350.
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sexta-feira, 16 de agosto de 2019
terça-feira, 13 de agosto de 2019
Como voltar feliz ao meu trabalho
se a noite me não deu nenhum sossego?
A noite, o dia, cartas dum baralho
sempre trocadas neste jogo cego.
Eles dois, inimigos de mãos dadas,
me torturam, envolvem no seu cerco
de fadiga, de dúbias madrugadas:
e tu, quanto mais sofro mais te perco.
Digo ao dia que brilhas para ele,
que desfazes as nuvens do seu rosto;
digo à noite sem estrelas que és o mel
na sua pele escura: o oiro, o gosto.
Mas dia a dia alonga-se a jornada
e cada noite a noite é mais fechada.
Oliveira, Carlos de. Trabalho Poético. Lisboa: Assírio & Alvim, 2003, p 132.
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