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segunda-feira, 13 de abril de 2020
Retrato de rapaz
Sabes que os mapas só nos servem
quando já temos caminho
e que nada se descobre da procura,
mas ainda assim soubeste largar-te
ao mundo sem causa,
intuir as relíquias e forçar o esquecimento.
Ainda assim o acaso e a lonjura,
como aves que pousam juntas num terraço:
com hora marcada debicam as penas,
raspam a terra dos pequenos vasos
e lamentam o desejo de voar pela terra inteira.
Olhamos lábios e olhos
como se a beleza só florisse à luz da melancolia,
e é assim que me dedicas a pureza,
um resto sem préstimo,
a graça de um lastro cansado,
sem esforço.
É assim que me fazes depositário prematuro
da memória,
guardião dos velhos retratos
e de boa parte dos fantasmas
que te habitaram.
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Madalena, Emanuel. Sob a forma do silêncio. Porto, Porto Editora, 2019, p 68.
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quarta-feira, 1 de abril de 2020
Estampa
Duvido que saiba ser belo, forçar a estirpe
daqueles que exigem o olhar fixo,
a expressão intensa, os modos dramáticos,
intransigentes e ferozes,
e não fico bem nas fotografias.
Duvido que alguém me decida apenas pela repulsa,
muito menos pela adulação,
mas sou excessivo.
Partilhamos também os gestos
com que marcamos o entusiasmo das conversas,
mas nada mais.
Além de um esforço, nunca te vi abrir um sorriso
nem o adivinho no meu,
mas no de homens belos e intensos, pouco bondosos,
que suprimem a rigidez da força
enquanto inventam a textura do alívio.
No meu sorriso
trago a nudez ao rosto -
um punho fechado que não sei se abre
ou aperta com mais força.
Ensina-me a suplantar o grotesco
com o rasto da certeza.
Madalena, Emanuel. Sob a forma do silêncio. Porto: Porto Editora, 2019, p 57.
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