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quinta-feira, 4 de maio de 2023


Num fim de tarde parei junto a uma árvore
e desatei a ohar o voo de uma ave branca.
Tantas aves se cruzaram comigo e nunca me
tinha demorado a observar-lhes a ondulação
dos movimentos.
Pareciam divertir-se na dança das asas contra o céu.
Por vezes elas riam-se daqueles que tinham ficado
em terra. E tinham razão. Eu queria acompanhá-las
agarrado a um pato, naquele trajecto sem fronteiras
e desejava ter asas para segui-las na determinação
do voo.
Foi a primeira vez que percebi que tinha de viver
com limitações.
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 António Ferra. a primeira pedra. Lisboa: Edição do autor, 2023, p 13.
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domingo, 3 de julho de 2022


os dias de Soror Alicante do Céu
no mosteiro de Soole


o castigo e o cinto
a lã ao postigo
(é pecado mijar
no silêncio da grade)


o mendigo enganado
o bardo e o frade
de cotão no umbigo
e espinho do cardo


o carneiro inchado
a donzela porreira
de seio fanado
e liga de freira


o cilício de nastro
o amante filtrado
o cu de alabastro
da alcoviteira


o fim do silêncio
a angústia monástica
a fita de enxofre


(que lua fantástica!)
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  António Ferra. lengas e narrativas. Vila Nova de Famalicão: Edições Húmus, 2022, pp 41-42.
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quinta-feira, 20 de maio de 2021


(...)
Andei guiado por ela, que me amava e coisa e tal,
mas não se casava comigo, eu não tinha eira nem beira,
estava comprometida com o Venceslau,
sapo-bronco que a tinha à trela,
    oferecia-lhe almoços e anéis nas festas populares
    com pirolitos e doce da Teixeira.
(...)

e eu não tinha nada para te dar,
a não ser amor,
não tinha emprego certo,
estava à espera que o "Notícias"
publicasse o anúncio de trabalho ideal.
(...)

Meti-me no fiat 600 sem acertar à primeira
com a chave na ranhura da ignição,
bêbado de pés gelados,
    porque o vinho verde é assim mesmo,
    gela os pés de uma pessoa a partir de horas ilícitas,
até que o carro pegou e dirigi-me para a Boavista,
desci a Rua Nossa Senhora de Fátima
com o cheiro do vazio às três da manhã,
parei numas obras à direita de quem desce,
havia lá mais dois carros,
uns andaimes e umas tábuas de construção.

Estavam ali duas mulheres,
pela cor dos lábios e o tamanho das saias na madrugada
eram da vida,

    como da vida é qualquer um àquela hora.
Vieram na minha direção e eu disse-lhes logo
para entrarem no fiat 600,
uma ao meu lado e a mais alourada no banco de trás,
a do banco da frente de cabelo preto pingão,
cheirava intensamente a perfume extra-doce
     e disse-me que eu já não conseguia endireitar
     o meu padrão de vida,
enquanto a outra, no banco de trás, olhava para a cena
e fungava para um lenço com as pestanas flácidas.
(...)
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 António Ferra. estrada de cinza. Leça da Palmeira: Eufeme Poesia, 2021, pp 16-19.
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sábado, 30 de maio de 2020


A raiz das árvores está cercada por urtigas de plástico,
a junta de freguesia cavou-lhes nervuras, manualmente,
queimaram a vegetação insurrecta com um fósforo de cera,
O dono do café fechou a esplanada,
a árvore pública passou a ser privada de água,
quase os cães já não lhe mijam,
foram extintas as flautas de pã dos amoladores de bairro
já sem melodia, sem furos e sem vento.
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  Ferra, António. ente. Lisboa: Edição do Autor, 2020.
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