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terça-feira, 30 de abril de 2019
Partiste
Num dia peninsular, te foste embora.
Braço estendido sobre a extravagância da chuva,
navegas nas águas que a terra esconde,
enquanto naufragas no silêncio as palavras todas.
Que fazer agora com o vazio do tempo?
Que horizonte se deita na encosta de mim mesmo
e sufoca a vertigem da tarde,
como o verão calcinando o restolho inerte?
Resta-me o que foste e o que fui contigo,
pássaro na copa dos sonhos
ou lucidez tresmalhando a bruma fria.
Pelo menos, era
(e agora, como ser no deserto de ti?);
pelo menos, dava a mim mesmo a sensação
de um futuro qualquer.
Se ao menos essa memória permanecesse,
se ao menos a memória fosse terra firme
onde aportar depois da viagem!
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Paulo, Jorge. O rosto das metáforas. Fafe: Editora Labirinto, 2019, p 18 (Introdução de Victor Oliveira Mateus).
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segunda-feira, 29 de abril de 2019
Um sorriso
Um sorriso breve,
um sorriso apenas
no rosto manchado pela distância.
Que outra verdade
se abriria sobre os socalcos do mundo
onde o sol aquece uvas vermelhas?
Que outra verdade te poria aqui
no vinho das velas escancaradas
sobre o bojo da vida?
Um sorriso breve te peço apenas,
movendo para longe a distância mortal
que tudo encerra e devasta.
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Paulo, Jorge. O rosto das metáforas. Fafe: Editora Labirinto, 2019, p 14 (Introdução de Victor Oliveira Mateus).
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Nota: o presente livro obteve o Prémio de Poesia Soledade Summavielle de 2018.
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