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domingo, 2 de outubro de 2022



A memória,
tribo de lâmpadas azedas.


  Alberto Pereira. Ecocardiograma. Vila Nova de Famalicão: Edições Húmus, 2022, p 53.


A infância,
um bouquet de colmeias no peito
e o sangue desenhado por Miró.


Idem, p 33.


Não sei se foi em Bach
ou nos olhos da minha mãe
que vi Deus nevar a primeira vez.


Idem, ibidem, p 16.
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sexta-feira, 29 de março de 2019


Pela lonjura
a infância é agora anemia.
O cantil da inocência
está vazio de especiarias
e as mães já não vêm
polonizar o medo com açafrão.
Estas, todos os dias,
tocavam Strauss nos nossos cabelos.
Por isso, acreditávamos,
é num pente que se navega
a primeira vez o Danúbio.

Os brinquedos,
território bêbado de lâmpadas,
pomar de cítaras e violinos.

Mais tarde,
a circuncisão.

Afinal,
entre as ameixas da mulher amada
não pousaram apenas as aves da nossa saliva.

Do bosque ao útero
a côncava viagem dos frutos de rapina.

Como Gamoneda, questionamos:

Que hora é esta,
que erva cresce na nossa juventude?

A velhice,
lento definhar do incenso.
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 Pereira, Alberto. Como num naufrágio interior morremos. Pontevedra: editora Urutau, 2019, pp 38-39.
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quinta-feira, 28 de março de 2019


   
                                                      Para Victor Oliveira Mateus

Caminho como uma fogueira no tempo.

Estão longe os dias
que pronunciavam o Louvre.
Tudo respira entre dois hemisférios:
um repleto de harpas e cotovias,
o outro,
hirto de mandíbulas e agónicas ficções.

O corpo,
antigo prado vigiado pela neve.

Cultivámos o aroma da máscara
e a sensualidade está agora
ligada ao ventilador.

A minha mãe
que orava a Cesariny,
repetia a 
Pena Capital.

Dorme meu filho
o amor
será
uma armadilha esquecida
um pano qualquer como um lenço
sobre o gelo das ruas

Abolimos a leveza
de encostar os lábios
e a nebulosa taquicardia
não deixa que a vertigem recite:
o teu corpo é o Guggenheim.

De súbito,
Agosto inala tumulto.

Não entendemos
porque a Aurora Boreal
não continua a girar
à volta do nosso ego.

Como traduzir o Outono
onde a queda é definitiva?

O homem será sempre a partitura de um pântano.
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 Pereira, Alberto. Como num naufrágio interior morremos. Pontevedra: editora Uurutau, 2019, pp 21-22.
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