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domingo, 7 de novembro de 2021


E é afinal um modo como qualquer outro de resolver o problema da existência, esse de aproximar suficientemente as coisas e pessoas que de longe nos pareceram belas e misteriosas, para descobrirmos que não têm mistério nem beleza; é uma das higienes que se podem escolher, higiene talvez não muito recomendável, mas que nos dá uma certa calma para passarmos a vida e também nos resignarmos à morte, uma vez que nos faz não lamentar coisa alguma, persuadindo-nos de que alcançámos o melhor, e de que o melhor não é grande coisa.
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 Marcel Proust in Em Busca do Tempo Perdido Vol. 2, à sombra das raparigas em flor. Lisboa: Livros do Brasil, S/d, p 511 (Tradução de Mário Quintana).
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quinta-feira, 28 de outubro de 2021


(...) trazia em mim não só um ideal físico de beleza entrevista e que reconhecia de longe em toda a mulher que passava a distância suficiente para que as suas feições confusas não se opusessem à identificação, mas também o fantasma moral, disposto sempre a encarnar-se, da mulher que ia enamorar-se de mim e dar-me as réplicas naquela comédia amorosa que eu trazia escrita na cabeça desde criança, comédia que, a meu ver, qualquer rapariga amável quereria representar, contanto que tivesse um mínimo de disposições físicas para o seu papel. Nessa obra, e qualquer que fosse a nova "estrela" que eu trazia para que estreasse ou repetisse esse papel, a cena, as peripécias e o texto conservavam uma forma ne varietur.
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 Marcel Proust. Em Busca do Tempo Perdido Vol. 2, à sombra das raparigas em flor. Lisboa: Livros do Brasil, S/d., p 455 (Tradução de Mário Quintana).
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quarta-feira, 27 de outubro de 2021


Mas a essa primeira incerteza de saber se as veria ou não no mesmo dia vinha juntar-se outra mais grave, a de que talvez nunca mais as visse, pois ignorava em suma se deviam partir para a América ou voltar para Paris. Bastava isso para me fazer começar a amá-las. Pode-se ter inclinação por uma pessoa. Mas para desencadear essa tristeza, esse sentimento do irreparável, essas angústias que preparam o amor, é preciso - e talvez isso, e não a pessoa amada, seja o ansiado objecto da paixão - o risco de uma impossibilidade.
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  Marcel Proust. Em Busca do Tempo Perdido Vol. 2, à sombra das raparigas em flor. Lisboa: Livros do Brasil,S/d., pp 398-399 (Tradução de Mário Quintana).
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quarta-feira, 3 de abril de 2019


   A neurociência sabe agora que Proust estava certo. Rachel Herz, uma psicóloga em Brown, demonstrou - num ensaio científico inteligentemente intitulado Testing the Proustian Hypothesis -que os nossos sentidos do olfacto e do paladar são singularmente sentimentais. Isto passa-se porque o olfacto e o paladar são os únicos sentidos que se ligam directamente ao hipocampo, o centro da memória de longo prazo do cérebro. A sua marca é indelével. Todos os nossos outros sentidos (visão, tacto e audição) passam primeiro pelo tálamo, a origem da linguagem e a porta da consciência. Em resultado disto, estes sentidos são muito menos eficientes quando se trata de convocar o nosso passado.
   Proust pressentiu esta anatomia. Usou o sabor da madalena e o aroma do chá para invocar a sua infância. Olhar apenas para o bolo recortado não lembrava nada. Proust, para começar, vai mesmo ao ponto de culpar a sua visão por obscurecer as memórias de infância. "Talvez porque, tendo-as visto (as madalenas) muitas vezes depois disso sem as comer", escreve Proust, "a sua imagem deixara aqueles dias de Combray". Felizmente para a literatura, Proust decidiu pôr o bolo na boca.
   Claro que mal Proust começou a lembrar-se do seu passado, perdeu qualquer interesse pelo sabor da madalena. (...) Proust abraçou estas estranhas associações precisamente porque não as conseguia explicar. Compreendeu que a idiossincrasia era a essência da personalidade. Apenas com a revisão meticulosa da teia das nossas ligações neurais - por mais absurdas que essas ligações possam ser - poderemos compreender-nos, porque nós somos a nossa teia. Proust respigou toda esta sabedoria de um chá vespertino.
   Portanto, há o tempo e há a memória. A ficção de Proust, que é principalmente não ficção, explora a forma como o tempo muda a memória.(...)
   Estas questões estão no âmago da teoria de Proust sobre a memória. Dito simplesmente, ele acreditava que as nossas lembranças eram falsas. Embora parecessem reais, eram na realidade invenções complexas. (...) Ajustamos os factos para se adequarem à nossa história, porque "a nossas inteligência reescreve a experiência". Proust previne-nos para tratarmos a realidade das nossas memórias cuidadosamente e com algum cepticismo.(...) Dado que todas as memórias estão repletas de erros, não é preciso seguir-lhes o rasto.
   A estranha reviravolta da história é que a ciência está a descobrir a verdade molecular subjacente a estas teorias proustianas. A memória é passível de falhar. A nossa lembrança das coisas do passado é imperfeita.
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 Lehrer, Jonah. Proust era um neurocientista, como a arte antecipa a ciência. Alfragide: Lua de papel, 2009, pp 102-104.
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