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terça-feira, 12 de agosto de 2025

A Poesia de Juan Antonio Bernier foi publicada na Revista Oresteia a 2025/08/09
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LECCIÓN DEL RUISEÑOR

1.

Clavícula que inclinas levemente
la postura del mundo
y a mí, contigo en él.

Clavícula, sostienes
que la palabra frágil
protege por sí sola
desde fuera
el interior
de los cuerpos que aman:

partículas que flotan inconscientes,
amantes que comparten sin saberlo
su huella dactilar.

2.

Libélula que erizas al posarte
la superficie cálida del agua,
pósate sobre mí.

3.

Sé que existe el dolor;
yo prefiero cantar sobre el consuelo:
lección del ruiseñor.

*-*-*

A LIÇÃO DO ROUXINOL

1.

Clavícula que inclinas levemente
a posição do mundo
e a mim, contigo nele.

Clavícula, sustentas
que a palavra frágil
protege por si só
a partir do exterior
o interior
dos corpos que amam:

partículas que flutuam inconscientes,
amantes que partilham sem o saber
a sua impressão digital.

2.

Libélula que levantas ao pousar
a cálida superfície da água,
pousa sobre mim.

3.

Sei que a dor existe;
eu prefiro cantar sobre o consolo:
lição do rouxinol.

*-*-*-*-*

AGOSTO, PERSEIDAS

1.

El universo es simple;
se compone de dos elementos:
de vida que genera poemas
y de poemas.

O al menos eso fue lo que dijiste.

Las flores amarillas sublevadas
brillaban en la sombra
mientras el sol caía
tras la colina verde.

La noche lentamente discernía
la división de las formas:
las que brillan por sí,
las que se desvanecen.

Era agosto, Perseidas.
Nuestros ojos brillaban.

Porque la luz requiere energía,
pero la oscuridad se cierne sola.

O al menos eso fue lo que dijiste.

2.

Escuchar una voz
como quien oye Perseidas:

sonido de las perlas al caer
sobre un suelo de mármol
o un mar que se retira
para no regresar.

Sonido sucesivo amortiguado,

me sorprende tu voz,
me sorprende que exista,
que las voces existan.

3.

No es posible agotar
sin ser vencido
el oscuro motivo
de la luz y la sombra
en una habitación.

4.

Palabra más memoria es igual a presente.

Como este poema:
cadáver exquisito enviado a uno mismo
para que otro responda.

Era agosto, Perseidas.
Nuestros ojos brillaban
como las flores amarillas
en la colina verde.

Qué distinta la noche.
La división de las formas.
Las que brillan por sí.

El universo es simple.

O al menos eso fue
lo que dijiste.

*-*-*

Agosto, Perseidas

1.

O universo é simples;
compõe-se de dois elementos:
de vida que gera poemas
e de poemas.

Ou pelo menos isso foi o que disseste.

As flores amarelas revoltas
brilhavam na sombra
enquanto o sol se punha
atrás da colina verde.

A noite distinguia lentamente
a separação das formas:
as que brilham por si,
as que se desvanecem.

Era agosto, Perseidas.
Os nossos olhos brilhavam.

Porque a luz requer energia,
mas a obscuridade irrompe por si.

Ou pelo menos isso foi o que disseste

2.

Escutar uma voz
como quem ouve as Perseidas:

som de pérolas a cair
num chão de mármore
ou um mar que se retira
para não voltar.

Som consecutivo abafado,

surpreende-me a tua voz,
surpreende-me que exista,
que as vozes existam.

3.

Não é possível esgotar
sem ser vencido
o obscuro motivo
da luz e da sombra
numa sala.

4.

Palavra mais memória é igual a presente.

Como este poema:
delicado cadáver enviado a si mesmo
para que outro responda.

Era agosto, Perseidas.
Os nossos olhos brilhavam
como as flores amarelas
na colina verde.

Que noite tão diferente.
A separação das formas.
As que brilham por si.

O universo é simples.

Ou pelo menos isso foi
o que disseste.

Juan Antonio Bernier (Tradução de Victor Oliveira Mateus)

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domingo, 2 de março de 2025

Poema inédito de Lorenzo Patàro com tradução minha. Este poema circulou nas redes num muito bem concebido clip, contudo - e porque estas publicações têm apenas a finalidade da divulgação e não quaisquer intuitos comerciais -, todo este material será imediatamente removido caso os seus herdeiros assim mo façam saber.:
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estamos aqui, agora
neste momento
neste século
deste milénio
estamos aqui e é estranho
este ser-se
este estar todos os dias
cada vez mais alheios ao mistério
e, no entanto, ainda vivos
apesar de tantos medos
de guerras, dos mortos
que se acumulam nas horas
esperando que no final
prevaleça a luz
que escolhemos
habitar na vida
o pouco de bem
que possamos fazer ao Outro
estamos aqui e é como
se aqui tivéssemos estado sempre
dando por contado que
no final de todas as noites
permaneceremos
crendo-nos eternos enquanto vivemos
então talvez o que conte
seja dar a estes anos
qualquer coisa que permaneça
para todos os potenciais
passageiros do futuro
um pouco do nosso ardor
qualquer coisa que valha a pena recordar
e não viver no tempo
como algo inexaurível
e infinito
deixar um rasto benévolo
da passagem àqueles que virão
qualquer coisa que permita
a este ar
e a este céu que permaneçam
qualquer coisa que faça bendizer
este nosso furor
com que nos amamos
como recém-nascidos
no colo da mãe
.
.
*-*-*
.
.
siamo qui, adesso
in questo istante
in questo secolo
di questo millennio
siamo qui ed è strano
questo esseri
questo stare ogni giorno
piú ignnari del mistero
eppuere ancora vivi
nonostante le paure
le guerre, le morti
che affollano le ore
sperando che alla fine
prevalga la luce
che sceglamo
di abitare nella vita
quel poco di buono
che possiamo fare all’ Altro
siamo qui ed è come
se ci fossimo da sempre
dando per scontato che
alla fine di ogni notte
resteremo
credendoci eterni finché vivi
allora forse ciò che conta
é dare a questi anni
qualcosa che resti
a tutti i potenziali
passeggeri del futuro
un po’ del nostro ardore
qualcosa che valga
la pena ricordare
e non vivere nel tempo
come fosse inesauribile
e infinito
lasciare un’ orma buona
del passaggio a chi verrà
qualcosa che permetta
a questa aria
e a questo cielo di restare
qulcosa cha faccia benedire
questo nostro furore
in cui ci amiamo
come
cuccioli
nel caldo della madre
.
.

segunda-feira, 11 de novembro de 2024

 


            Leonardo

 

Eis que o grande pássaro levanta seu voo:

e a vasta planície observa-o, no alto, planando

absorto, com suas asas, como um pensamento inquieto

que se ergue de novo, fustigando o horizonte –

.

no cenário ao fundo, onde o rio se insinua,

divisa-se o obstáculo, o cerco que impedia

a passagem na direção do mar, e o lago originário

entre colinas e castelos, o ambiente com reflexos

cintilantes no meio do canavial, o entrançado das ondas

que rebentam à beira-mar, atinge a neblina

.

e no cume das montanhas repousam conchas

emaranhadas entre as rochas, e apenas ele as alcança

no momento em que mergulha

num remoto mar de formas elementares

onde a vida eclode, não procura narrativas

.

já que primeiro são as trevas e depois a luz que se afirma,

e a natureza está repleta de sedutoras razões

que nunca haviam estado no arco da experiência,

.

prossegue solitário o arrojado confronto:

olhar que não se detém no coração das profundezas.

.

 Luca Baldoni. Anno naturale. Firenze: Passigli Editori, 2021, p  53 (Tradução de Victor Oliveira Mateus).

.

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quarta-feira, 23 de outubro de 2024


A tradução que se segue de um extenso poema da poeta do Quebec Louise Dupré, foi publicada na Revista Oresteia em outubro de 2024.. A referida publicação foi devidamente autorizada pela poeta em referência, e pelas editoras onde o poema havia sido editado, no Canadá e em França.
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                                 Louise Dupré

                 Exercícios de alegria (1ª Parte)

    Éditions du Noroit e Éditions Boucey (2022)

 

Os sonhos afogados

no fundo dos teus olhos

 

acabam por regressar à superfície

no sal das lágrimas

 

pequenos cadáveres

branqueados

pelos anos

 

que te despertam

à noite

 

quando pretendes dormir

profundamente

 

é demasiado tarde

para arrependimentos

 

demasiado tarde

para recuperar o tempo

perdido

 

as mulheres que habitaram

o teu nome

 

tu as abandonaste

uma após outra

 

com os seus vestidos

fora de moda

 

 

e eis-te agora

nua

frente ao espelho

 

 eis-te aqui rosto

vazio, navio

fantasma

 

cidade sem pátria

 

e escutas

tranquila

a música do mundo

 

deixando irromper

as imagens

que já não te magoam

 

procuras agora

exercer

a ternura

 

como uma disciplina

de combate

 

uma bondade para te moldares

a ti mesma

 

tu, a mendiga

de minúsculas alegrias

arrancadas ao desespero

 

dizes alegrias

porque não sabes

como nomear

 

 os instantes em que o teu coração

para de bater

dentro do teu peito

 

esses momentos de graça

 

em que uma carapaça te protege

dos gritos

que vais escutando

 

estão perto

estão por todo o lado

e todos os dias

 

esta angústia

impossível de aliviar

 

isso ensurdece-te

isso liquida-te

sem que desapareças

 

e tornas-te então numa morta-viva

 

forçada a peregrinar

no meio de um inferno

de transeuntes

 

mas sobreviver

não te satisfaz

 

tu preferes limpar

a fuligem

dos teus dedos

 

escrever pouco

escrever pobre

 

mas escrever

o que poderia irromper

 

no silêncio

da quietude

 

como se t’agarrasses

a uma boia

 

o tempo de recuperar

o fôlego

 

para vislumbrares a ondulação

finalmente calma

 

de te perguntares

o que poderá surgir

em ti

 

quando já não se tem

nem ambição nem orgulho

 

mas apenas um cenário

de cartão

com paredes esburacadas

 

que deixam ver

uma paisagem em ruínas

 

o que é que sobra

quando nada sobrar

 

salvo uma pequena claridade

que te convida a que a sigas

através da escuridão

 

e tu segue-la

como um caminho

à flor da pele

 

esperando

uma hospitalidade

 

apesar do teu corpo

esboroável

 

tu ainda consegues

respirar

 

ainda consegues revolver

o ar denso

das ruas

 

sem esperar

consolação

 

já não tens idade

para rosas nem pássaros

 

e não conseguirás

reparar a tua alma

 

nem a Terra

 

nem o céu

agora abandonado

 

admite-o

como uma evidência

 

desenhada

nas linhas

da tua mão

 

porque tu aprendes a ler

o que ninguém te quis

ensinar

 

como se abrem

as narinas

 

ante os perfumes de julho

 

és uma respigadeira

revolvendo

os caixotes de lixo

 

e reciclas

flores secas, bibelôs

ou poemas

 

mil vezes recitados

nas escolas

 

antes de serem condenados

ao esquecimento

 

é tão fácil apagar

o quadro negro

 

tão frágil, a memória

dos livros

 

que tentam resistir

a todo o tipo de poluição

 

tomas de empréstimo aos tempos

antigos

a voz dos enforcados

 

que imploram piedade

aos seus semelhantes

 

mas tu não acreditas

no teu próprio apelo

 

não acreditas

poder

abalar os muros

 

 erguidos nos quatro cantos

da humilhação

 

estão por toda a parte

e bem perto

 

 

como uma febre

sem cura

 

um ácido

que corrói a razão

 

enlouquecem-te

e tu sabes isso

 

mas preferes o teu tormento

à doença

dos corações empedernidos

 

tu dominas o teu delírio

e escreves

 

apesar do medo

que te cortem a mão

 

procuras sinónimos

atuais

para a palavra obrigado

 

e dizes compaixão

ou bondade

 

quando te ergues

contra a língua letal

que te impõem

 

está por toda a parte

 

 é a tenacidade e a astúcia

que pirateiam todos os dias

a mente

 

como uma rede

mal protegida

 

 

por vezes tu desejarias

a amnésia

 

mas escolhes

o sofrimento

 

em vez de renunciar

à agitação

do mundo

 

o poema ressuscita

das palavras

assassinadas

 

e planta cravos

no infortúnio

 

para o tornar

suportável

 

o poema é uma oração

secreta

 

uma noite que pretende

fazer ouvir

as óperas do passado

 

tu cantas desafinada

ora mal ora numa lástima

 

mas cantas

 

porque de nada te serve

choramingar

 

mesmo que este tempo se esteja

afundando no mar

 

como um paquete

esventrado

 

havia orquestras

capazes de acompanhar

o seu naufrágio

 

havia desesperos

que mantinham coragem

até ao fim

 

tu não pretendes morrer

antes da morte

 

e contas

pelos dedos

os anos que te restam

 

procurando

de que resistência

te podes reclamar

 

senão da vida

que pretendes fruir

até ao fim

 

e regressas

ao verbo querer

 

 

 

tu repete-lo

como se ele se pudesse apresentar

suficientemente benévolo

 

para apaziguar os teus choros

 

e sem esperares

o mínimo auxílio

 

ergues o olhar

para a esperança de um amanhecer

 

 

e acolhe-la

na palma da mão

 

                      Tradução de Victor Oliveira Mateus

 

Nota: As expressões em itálico referem-se ao poema “Balade des pendus” de François Villon..

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