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sexta-feira, 29 de março de 2024


                                       Naufrágio


Comecei a navegar pelas bordas da tua urgência, devagarinho e com terra à vista. Depois, fui percebendo que é sem pé que se alcança a ternura e que o fundo do mar e o fundo da terra são um e o mesmo lugar.

Parti, porque havia vento e havia uma saudade imensa de horizonte. 
Parti, porque me esqueci de tudo o que nunca aconteceu e ontem me parece agora, apenas um lugar amanhecido no fundo de um frasco de vidro baço.
Parti, porque o sol me redesenhou sempre e de todas as vezes que se encostou à curva da minha lonjura.

Desde ontem que navego e não vejo senão horizonte. Um mar que me serpenteia entre os meus anseios e ninguém... E o espanto atravessado na crista de cada uma das ondas que procuram um lugar.
Desde ontem que navego e não sei se algum dia irei aportar.
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  Filipa Vera Jardim. Latitude. Fafe: Editora Labirinto, 2023, p 38.
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quarta-feira, 1 de novembro de 2023



          Destino de pássaro

Há pássaros que levantam voos sempre que perdemos a esperança.
Ou será que o fazem   porque não sabemos onde deixamos o destino?

Um dia, percebi que não tinha sorte de homem, nem tempo de homem,
só o espaço infinito dos azuis que se sobrevoam sempre que somos livres.
Nesse dia, abri os braços e deixei-me voar.
Foi assim que ganhei asas.
O tempo escoava-se por entre a ventania.
O espaço, numa demência volteante a raiar o círculo do horizonte.
Confesso que tive medo. Esperava-me o ar. Completo, translúcido,
ora morno, ora gélido, ora suave, ora tempestuoso.
Deixei-me pairar nesse abraço de coisa alguma, tão ou mais cerrado
do que um beijo de brisa e achei-me pássaro!
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 Filipa Vera Jardim. Latitude. Fafe: Editora Labirinto, 2023, p 63.
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