domingo, 31 de março de 2019

                         
                                      *

Vasculhamos as suas páginas e a dor que delas exuma. Com Cioran
aprendemos a perguntar: não será a verdadeira vertigem a ausência
da loucura?

                                       *

Amar é já uma espécie de despedida.

                                        *

A futilidade de tudo, jogo inútil, uma dança obsessiva de antíteses
igualmente desprovidas de sentido. Um tudo-nada, frivolamente
defunto.

                                        *

A acreditarmos na felicidade só o poderíamos fazer se a
considerássemos como uma distracção ou uma traição imperdoável,
um magnífico ultraje que encobre o alcance da nossa cobardia:
"Somos todos farsantes: sobrevivemos aos nossos proble-
mas ( Silogismos da Amargura : 21).
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    Soeiro, Ricardo Gil. Volúpia do Desastre, Notas soltas para Cioran". Fafe: Editora Labirinto, 2019, p 34.
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sábado, 30 de março de 2019

Apresentação do livro Volúpia do Desastre, Notas soltas para Cioran (Editora Labirinto, Nº 22 da coleção contramaré ) da autoria de Ricardo Gil Soeiro. Na mesa, da esquerda para a direita: Guilherme Gomes, o autor da obra, Prof. João Maurício Brás, Profª Maria João Cabrita, Victor Oliveira Mateus. Livraria Férin (Lisboa) no dia 30/03/2019.

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                             Más pájaros fulminados


Según Watanabe, Hokusai compraba pájaros para liberarlos
no os parece estupendo?
También Prévert sabía de pájaros,
y de ángeles boxeadores caídos en desgracia
esos que nos han metido mano en el bolsillo
y ahora quieren que nos hagamos cargo del cielo, vaya morro,
pero no nos distraigamos, hablamos de pájaros
y no de instantes estrangulados, hablamos de Prévert
y no de Hokusai, el muchacho adoptado por el fabricante de espejos
en realidad, no hablamos de nada, como siempre.
Para Sainte Beuve, el oficio de los filósofos es amontonar nubes
y puede que también sea el de los poetas boxeadores
y el de los pájaros que liberaba Hokusai
pero ahora pienso, qué tiene que ver Prévert con Hokusai?
hablemos pues de la patafísica, de la ciencia de las soluciones imaginarias
para terminar este poema inútil,
este pedazo de pan lleno de estrellas, pero
cómo terminar un poema inútil?
cómo comerse este pedazo de pan sin tenedor ni cuchillo?
Pues con otra nota de la prensa
que no le hubiese gustado nada a Hokusai:
"En la cuidad de Bebee, en Arkansas, cayeron a la tierra en Nochevieja
del 2011 unos 5.000 pájaros fulminados".
Ya te había dicho, la soledad es a veces el cenicero de otra soledad.
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   Santiago, Nilton. El equipaje del ángel. Madrid: Visor Libros, 2014, pp 58-59.
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sexta-feira, 29 de março de 2019



                           As redes do meu coração já não estão para peixes

Acabo de sair da estação com um bilhete de metro entre os dedos - como se fosse a radiografia de uma menina com mariposas de metal no estômago - faz frio e as árvores entram lentamente nas caixas automáticas para se protegerem do inverno. Dizem que aqui não se recenseou nenhum anjo ex guerrilheiro, nenhuma flor morreu aqui por causa de uma qualquer chuva de abelhas e magnólias. Tanto faz, decidi tomar fôlego por dois segundos, esquecer que a realidade é um pássaro encerrado num espelho, um incessante pingar de suas penas no hemisfério azul do coração. Esta manhã acordei com o teu nome entre os lábios (ainda que pense que o não falarmos é a linguagem que melhor nos define), sorrindo como uma carta recém aberta. A madrugada, como um animal indeciso, acabou por nos reconhecer como dois pássaros. É certo, que são eles, e não outra coisa qualquer, que se escondem por entre os intervalos da chuva ao raiar do dia. São eles, e não outra coisa qualquer, o que desce pelas escalas dos termómetros para nos trazer as recordações. Sim, é certo, tenho um problema com as aves em geral, acho-as inquietantes quando chove e creio que, se dependesse delas, voariam apenas em primeira classe. Sei que escrevem, em silêncio, partituras de mel contra as árvores e que as flores lhes provocam angústia porque têm o mesmo pensamento que os astrofísicos quando se apaixonam. Nada disto tem que ver com o objeto deste poema que era - enorme loucura! - descrever uma prisão ou, quiçá, chorar como um menino, encher-me de cafeína e crisântemos solitários. Tu bem sabes, os guarda-chuvas são os habitantes mais sinceros desta cidade a preto e branco. Louvadas sejam as lágrimas de substituição nas estações de serviço do meu coração. Louvadas as estrelas que acenam na noite quando ainda o céu não fixou a sua engrenagem e se parece com uma armadilha para cometas e meteoritos. Tu bem o sabes, não se habita uma cidade, mas apenas a solidão das suas gentes, tu bem o sabes, um pássaro não é um pássaro, senão um invento da nossa necessidade de voar sobre a prisão dos teus lábios. Como podes ver, estou reduzido a pó e as redes do meu coração já não estão para peixes.
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  Santiago, Nilton. El equipaje del ángel. Madrid: Visor Libros, 2014, pp 31-32 (Tradução de Victor Oliveira Mateus).
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       Glória para os Imortais: Agnès Varda (Bruxelas, 30/05/1928 - Paris, 29/03/2019 ).
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Pela lonjura
a infância é agora anemia.
O cantil da inocência
está vazio de especiarias
e as mães já não vêm
polonizar o medo com açafrão.
Estas, todos os dias,
tocavam Strauss nos nossos cabelos.
Por isso, acreditávamos,
é num pente que se navega
a primeira vez o Danúbio.

Os brinquedos,
território bêbado de lâmpadas,
pomar de cítaras e violinos.

Mais tarde,
a circuncisão.

Afinal,
entre as ameixas da mulher amada
não pousaram apenas as aves da nossa saliva.

Do bosque ao útero
a côncava viagem dos frutos de rapina.

Como Gamoneda, questionamos:

Que hora é esta,
que erva cresce na nossa juventude?

A velhice,
lento definhar do incenso.
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 Pereira, Alberto. Como num naufrágio interior morremos. Pontevedra: editora Urutau, 2019, pp 38-39.
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quinta-feira, 28 de março de 2019


   
                                                      Para Victor Oliveira Mateus

Caminho como uma fogueira no tempo.

Estão longe os dias
que pronunciavam o Louvre.
Tudo respira entre dois hemisférios:
um repleto de harpas e cotovias,
o outro,
hirto de mandíbulas e agónicas ficções.

O corpo,
antigo prado vigiado pela neve.

Cultivámos o aroma da máscara
e a sensualidade está agora
ligada ao ventilador.

A minha mãe
que orava a Cesariny,
repetia a 
Pena Capital.

Dorme meu filho
o amor
será
uma armadilha esquecida
um pano qualquer como um lenço
sobre o gelo das ruas

Abolimos a leveza
de encostar os lábios
e a nebulosa taquicardia
não deixa que a vertigem recite:
o teu corpo é o Guggenheim.

De súbito,
Agosto inala tumulto.

Não entendemos
porque a Aurora Boreal
não continua a girar
à volta do nosso ego.

Como traduzir o Outono
onde a queda é definitiva?

O homem será sempre a partitura de um pântano.
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 Pereira, Alberto. Como num naufrágio interior morremos. Pontevedra: editora Uurutau, 2019, pp 21-22.
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quarta-feira, 27 de março de 2019



Fundava comunidades em sonhos, na carne firme, nos tendões
limpos dos sonhos.
Uma amizade como de Aquiles e Pátroclo
mas sem cavalos,
sem tectos altos, sem
aspectos de glória - amizade apenas
nua, inebriando o mármore,
exercício de aranhas entre a multidão

com a sua linguagem surda,
aberta, alvar, amarfanhada.
O prazer de devassá-la, de retê-la

na boca como água de pétalas,
o gosto espesso da magnólia
à chuva, como no poema.

Em nossa casa, no lugar do vento,
a magnólia crescia.
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  Faria, Andreia C. Alegria para o fim do mundo. Porto: Porto Editora, 2019, p 133.
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terça-feira, 26 de março de 2019


      Descarnação

Até aos trinta anos tens
a cara que Deus te deu. Depois
tens a cara que mereces. É uma promessa
de ironia, uma sentença
sem recurso.

É-te assim dito:
estás entregue ao labor íntimo
do que comes, ao número de horas que dormes,
àquilo que fazes e sobretudo
àquilo em que pensas. Deus
(perdoa-lhe a fraqueza)
tolera-nos enquanto somos jovens,
ampara-nos, alisa-nos
a fronte após um desgosto, talvez
nos ame, mas deixa-nos
sozinhos quando a beleza
é terreno pouco firme

e assiste de longe
ao desafio temerário que lançou
a cada filho.

Sabes então que o rosto é uma flor
plantada no escuro, uma corola
tenra, redonda e impenetrável
que desabrocha e se abre
com as pétalas lisas e brilhantes, ou
confusas e despenteadas,
conforme a força
e a direcção do vento.
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  Faria, Andreia C. Alegria para o fim do mundo. Porto: Porto Editora, 2019, pp 129-130.
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segunda-feira, 25 de março de 2019


Quem guarda vestígios
(lenços usados
toalhas de mão
fissuras venéreas na côdea do pão)
sabe de véspera -
o amor é soslaio, oblíquo
Cegou como um cão
ao lamber o coração
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Faria, Andreia C. Alegria para o fim do mundo. Porto: Porto Editora, 2019, p 55.
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domingo, 24 de março de 2019


Nunca mais regressaste a casa desde agosto.
Eu fiquei sentado na soleira da porta
à espera da cura.
Brincava ocasionalmente com o fogo,
porque era a tua voz que me trazia o outono,
era a fuligem nas tuas mãos que me ensinava
a hermenêutica dos dilúvios
e a mecânica da extinção das espécies.

Mas nunca mais regressaste a casa e eu aprendi
a soletrar silenciosamente a tua ausência.
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  Teixeira, José Rui. Autópsia, poesia reunida. Porto: Porto Editora, 2019, 141.
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sábado, 23 de março de 2019


De súbito, a palpação de um sopro,
um frémito. Os frutos no chão antes do tempo,
um amor inconfessado ou uma rara proporção
nos segmentos brancos dos dedos.
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 Teixeira, José Rui. Autópsia, poesia reunida. Porto: Porto Editora, 2019, p 85.
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quinta-feira, 21 de março de 2019

O poema do post que segue abaixo, Primavera humana, foi publicado hoje na Antologia agora referida.
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Ver aqui:
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http://www.crearensalamanca.com/primavera-dia-mundial-de-la-poesia-2019-fotografias-de-jose-amador-martin/?fbclid=IwAR1Jq4quuMS9M6K8VHtgRWbk20bW-XaqKaUjxq1aEnKPE5PT-4a3FYPSzEw
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O "Crear en Salamanca" publica hoje uma Antologia de Poesia organizada por Stefania Di Leo intitulada: "Primavera. Día Mundial de la Poesía 2019". As fotografias da obra são da autoria de Jose Amador Martin Sanchez. Poemas de: Alfredo Pérez Alencart, Araceli Sagüillo García, Maria do Sameiro Barroso, Carmen Palomo Pinel Jose Amador Martin Sanchez,Leocádia Regalo, Juri Talvet, Luis Frayle Delgado, Jorge Orlando Figueiredo, Gerardo Rodriguez, Claudio Del Moral, Juan Antonio Massone, José María Muñoz Quirós, Alexander Anchia, Andrea Capasso, Pedro Enríquez, Gonçalo Salvado, Stefania Di Leo, Álvaro Alves de Faria, Lilliam Moro, Ana Cecilia Blum, António Salvado, Antonio Colinas, Erri De Luca, Abdul Hadi Sadoun,Raquel Lanseros, Pierina Marmo, Odalys Interian, Carlos Aganzo, Victor Oliveira MateusJuan Carlos OlivasJonatán Reyes, Elsa Morante, Ángel, María de Pablos, Antonino Caponnetto, Cyndi Morales Ayala, Chandra Livia Candiani, Beppe Costa.
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terça-feira, 19 de março de 2019


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                                        Primavera humana



Um homem sai de um túnel.
De uma garagem.
Do inverno que lhe devora a vida.
Esvoaçam-lhe dois pássaros sobre a cabeça.
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O homem esbarra num outro:
seu próximo, seu diferente, seu igual.
O homem que sai do túnel
oferece um dos pássaros ao que andava perdido.
Oferta. Renovos de improváveis.
Recomeço do que estava esquecido
no estrepitoso fulgor da terra:
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plátanos frondosos, plantas raras,
o pó das mimosas pousando docemente
no banco do jardim, na elegância dos cisnes.
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Aquele que sai da garagem
é o vértice do encontro, do milagre!
E lá seguem os homens
rumo a possíveis benfazejos.
Dois pássaros de muitas cores
dançam-lhes seus voos
nas cabeças iluminadas.
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 Mateus, Victor Oliveira.  Diário Digital Crear en Salamanca de 21 de março de 2019.
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domingo, 10 de março de 2019


(...). Tout est rêve, pensait-il, on traverse la vie en rêve, tout est trop dur, trop dur. La mort réfute l'induction. Il n'y a pas de "ça" qui permette de dire que tout ça compte. Il y a juste le rêve, sa texture, son essence, et à travers nos dernières affaires nous subsistons seulement dans le rêve d'un autre, une ombre dans une ombre, s'effaçant, s'évanouissant, s' effaçant. Il était étrange de penser que Janie et Gwen et sa propre mère, et Maureen pour autant qu'il le pouvait savoir, existaient maintenant plus intensément, plus réellement, ici, dans son esprit, que n'importe où ailleurs dans le monde. Elles font partie de mon rêve de vie, pensait-il, immergées dans ma conscience comme des spécimens conservés dans la formaline. (...) Cette matière du rêve, si intensément la matière de son rêve, allait s'évaporer, à un moment donné, et c'en serait fait d'elle, et personne ne saurait jamais à quoi elle avait pu ressembler. Tout l'effort qu'il avait apporté à se faire lui-même paraissait n'être que vanité maintenant qu'il n'y avait plus rien à entreprendre. Si dur il avait travaillé, apprenant l'allemand, apprenant l'italien. Il lui semblait maintenant que tout avait été vanité, un désir éprouvé en vue d'un moment qui n'arrivait jamais, de faire impression sur quelqu'un, de réussir, d'être admiré. Janie parlait l'italien d'une manière si belle.
   Au fur et à mesure (...) n'y a-t-il réelement rien, en dehors du rêve?
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  Murdoch, Iris. Le rêve de Bruno. Paris: Éditions Gallimard, 1971, pp 20-21.
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quinta-feira, 7 de março de 2019


          Filosofia de um alcoólico

                            Diálogo com a própria sombra.
                            Noite de primavera.

Vós sabeis o que é o mundo?
Respondam todos à uma -
Os ignorantes e os sábios:
O mundo é um disparate
Em que os homens são cativos!
E esta vida? O que é a vida?
Sendo o mundo um disparate,
os vivos não podem ser
Senão disparates vivos!
Que tal? Fui ou não fui genial?
Eu quando as digo sem cuspo
É porque tenho razão...
Estavas aí? Nem te via!
O quê? Sei lá que horas são!
Não é noite nem é dia;
É um intervalo suspenso
Na ponte da fantasia!
Endireita-te! Não podes?
Fala de frente! Já sei.
Embebedei-me? E depois?
O vinho dá lucidez -
E um homem com vinho é rei!
Quando se bebe há centenas
De visões no coração,
Vê-se a vida de outra cor
- Vermelha, quente, sadia,
Você está ouvindo ou não?
Tudo tem um outro encanto
E até a miséria sabe
A um bem-estar, a fartura,
As mãos dão palmas, há risos,
Estamos sempre de acordo
Se em nós for grande a grossura
Beber um copo de vinho
Num momento de amargura,
Pegar num copo com linha,
Sabê-lo chegar aos lábios
- Eu disse lábios? São beiços!
Ficamos indiferentes
Por maior que a mágoa seja!
O vinho enfraquece e apaga
O sentimento da inveja;
Só ele nos dá firmeza
Para estarmos resignados
A ver tombar as Nações
E esses milhões de soldados
Que se esfacelam, p'ra quê?
Para haver mais liberdade?
Falaste? Agora bebia,
Bebia um copo, e você?
Falta o melhor? O dinheiro?
Esse poderoso absurdo,
Vadio, pantomineiro?
Mas fala! Tens medo? Eu sei:
Não é medo, é cobardia!
Tá bem! Pronto. Falo eu.
E seja o que Deus quiser!
Tá bem. Falo eu. Bom dia!
Solteiro; não tenho casa;
Não há filhos nem mulher...
Beber! Que grande prazer!
Nas largas horas difíceis
Chega-lhe um copo e verás
Se o vinho não é o alento
Mais forte da humanidade!
E o que é que ela quer, enfim,
A humanidade, eu, você,
Aquele, o outro, e outro mais,
Todos quantos se atropelam
Serenos ou convulsivos
Nesta feira miserável
De tantos cadáveres vivos?
Voltas-me a cara, porquê?
Sou maluco, sou um parvo?...
Um parvo és tu! Todo aquele
Que não discute e não mostra
Que sabe, que "sim", que entende
Mais que o vizinho do lado,
Ó filho!, é um tipo tramado!
Só o silêncio destrói
A nossa capacidade
Em sermos luta constante!
Quem fala mostra que mexe
Ou p'ra trás ou p'ra diante!
Mas fica para aí sem alma,
Fica para aí pasmaceira,
Que eu cá vou dizendo ao mundo
O que é verdade e o que penso
Através da bebedeira!...
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  Botto, António. Poesia. Porto: Assírio & Alvim, 2018, pp 435-437.
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(Prémio Literário, que, apesar de pretender incentivar o aparecimento de jovens autores, está também aberto a autores com obra feita. Ver aqui a notícia no Site das Letras: http://www.casaldasletras.com/bloco_desenvolvimento_2019.html    ).

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PRÉMIO DE POESIA VICTOR OLIVEIRA MATEUS
INICIATIVA DA EDITORA LABIRINTO INCENTIVANDO A CRIATIVIDADE 


Para incentivar a criatividade poética e o aparecimento de novos autores, a Editora Labirinto acaba de criar o Prémio Internacional de Poesia Victor Oliveira Mateus realçando, assim, a importância deste género literário e destacando, ao mesmo tempo, um nome que prestigia a cultura portuguesa, voz marcante da nossa poesia contemporânea.
Com periodicidade bienal, o prémio inicia-se este ano (instituído a 25 de Fevereiro) e os trabalhos a concurso deverão ser enviados até 21 de Março (2019), Dia Mundial da Poesia. A lista dos dez finalistas anunciar-se-á a 22 de Maio, Dia do Autor Português.
Os candidatos terão de remeter os originais para o e-mail:
premio.internacional.poesia.vom@gmail.com (indicando o assunto: Prémio Internacional de Poesia Victor Oliveira Mateus).
Conforme regulamento, os trabalhos concorrentes (escritos em espaço duplo e fonte Arial 12) serão assinados com pseudónimo na primeira página, a seguir ao título, e inseridos num ficheiro em formato Word ou pdf. Noutro ficheiro (formato Word ou pdf) indicar-se-á o título da obra a concurso, pseudónimo e dados do autor (nome, nacionalidade, país de residência e contactos). O júri não terá acesso ao segundo ficheiro, que ficará, unicamente, na posse do Secretariado do Prémio.
Poderão participar neste concurso literário poetas de todas as nacionalidades desde que a obra candidata esteja escrita em língua portuguesa (abrangendo as suas variantes). Não serão aceites poemas com mais de 25 versos, num volume até ao máximo de 50 páginas. Tema livre.
Cada autor submeterá a concurso um único trabalho inédito. Nenhum dos poemas poderá ter já sido editado em suporte de papel ou digital, nem serão admitidos trabalhos concorrentes a outros prémios ou entretanto premiados, nem antologias e traduções.
O Prémio consiste da publicação do livro vencedor (edição a cargo da Labirinto), prefaciado por um elemento do júri. O autor distinguido receberá ainda 25 exemplares da sua obra. E cederá os direitos de autor à Editora Labirinto por um período de dois anos a contar da data de edição. Não haverá premiados ex aequo, todavia, o júri, se o entender, atribuirá menções honrosas.
O júri do primeiro concurso Prémio Internacional de Poesia Victor Oliveira Mateus vai ser presidido pela poeta, tradutora e ensaísta Marta López Vilar. Mais seis elementos (entre escritores, professores universitários, tradutores, críticos literários e jornalistas) integram o júri: André Domingues, César Freitas, João de Mancelos, José Eduardo Degrazia, Pedro Marques Pinto e Rosângela Vieira Rocha. O retrato do post alusivo ao prémio é da autoria do pintor Miguel Elias.
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terça-feira, 5 de março de 2019

( Da Secção Cartas que me foram devolvidas, a Carta Nº 28):

De um vício ou de um amor, ninguém sai facilmente. Ao heroísmo do arranque inicial segue-se a nostalgia do prazer perdido e a recaída no que havíamos abandonado. Somente quando a saúde e a dignidade estão gravemente comprometidas é que o homem se despede de um vício ou de um amor. É possível, é mesmo certo que exista mais do que um homem que não conheça esses dois grandes suplícios. Contudo, esse homem, não poderá jamais orgulhar-se de conhecer a vida bem a fundo. Por mais forte que seja a nossa vontade de rompermos com o que nos foi profundamente agradável, essa privação deixa inactivas certas funções do espírito e certas ansiedades orgânicas que protestam e se revoltam, à sua maneira, da insatisfação a que as condenámos. Dizer humanidade é dizer debilidade.(...)
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  Botto, António. Poesia. Porto: Assírio & Alvim, 2018, p 342.
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segunda-feira, 4 de março de 2019

( Estas cantigas de vilancete aparecem nesta obra precedidas de um elogio a A.B. feito por Fernando Pessoa e são dedicadas a Aquilino Ribeiro. O vilancete é composto por um mote e por voltas ou glosas, contudo, apesar do título da secção a cantiga e o vilancete distinguem-se pelo número de versos da primeira estrofe, o mote, se tiver dois ou três versos é um vilancete, se tiver quatro ou mais é uma cantiga. O vilancete aparece em Portugal no Cancioneiro de Garcia de Resende e os seus temas são geralmente a saudade e o amor não correspondido e os versos são ainda em medida velha, cinco ou sete sílabas).

Eu ausente e tu ausente,
Eu de ti e tu de mim -
Saudade, quando me deixas?
Ausência, quando tens fim?

            VOLTA

Meus olhos andam molhados
Desde aquele negro dia...
Bronzes, dobrai a finados,
Que eu já não tenho alegria.
Ó causa das minhas queixas,
Porque me matas assim?
Saudade, quando me deixas?
Ausência, quando tens fim?
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 Botto, António. Poesia. Porto: Assírio & Alvim, 2018, p 306.
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domingo, 3 de março de 2019


(...) E ele, o homem, ele que tinha permanecido homem, apesar de toda a sua comunhão com o incriado, no meio da comunidade dos animais saídos dos ovos e das plantas nascidas de sementes, inserido em ambos, trazendo sobre si transparentes penas, barbatanas, folhas, algas, trazendo-as dentro de si, estava encerrado no petrificado acontecimento, imóvel ele também nessa espera sem espera, também ele apática criatura evanescente, e no entanto o seu olho humano nada tinha perdido do seu poder de discernimento, e tinha consciência do rosto da estrela por detrás da nuvem. Entretanto a mancha de sol, ofuscada pelo crepúsculo, clarão vermelho cinza, atingia o limite inferior do dia, e as estrelas, acendendo-se até a sua intensidade nocturna conseguir penetrar a cobertura de nuvens com o seu brilho cintilante e hesitante no início, alcançaram lentamente a sua plenitude e todo o seu brilho (...). Unidade em cima como em baixo, uma e outra mantidas pelo duplo céu, pelo duplo mar, uniam-se numa unidade penetrada por plantas e por estrelas que abarcava o mundo de tal modo fechado em si próprio, que já não era possível existir no seu espaço nenhuma individualidade, nenhuma era permitida e todas elas se dissolviam (...). De súbito, sem que nenhum tempo o impedisse, a noite transformou-se em pleno dia; de súbito, liberto dos tempos, o sol encontrava-se no zénite, rodeado pelo opalino turbilhão de estrelas, em que não faltava nenhuma estrela, nem sequer a esbranquiçada lua (...) e ele, que tinha o direito, o poder, a obrigação de assistir a este espectáculo, movido, também ele, pela animalidade transmitida à planta, ele participava no crescimento vegetal, ele próprio se tornava vegetal; era uma transformação interior e exterior, era percorrido pelas pulsações da seiva terrestre (...) ele, o vidente, também ele incluído no crescimento universal, ele, incluído no tecido das plantas, no tecido dos animais, estendia-se pelas marés do universo, estendia-se de um firmamento ao outro (...) e o seu próprio coração, preso pela palpitação, fechado nas ondas do oceano, palpitava também, vogava também, não sendo já de há muito coração, mas apenas lira, transformado em lira, como se das suas cordas de estrelas devesse finalmente soar o prometido, ainda não o próprio cântico, mas já a sua anunciação (...) fazendo vibrar a unidade do mundo num derradeiro sopro do universo: era uma preparação, poderosa preparação, poderosa de tensão...
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  Broch, Hermann, A Morte de Virgílio, Segundo Volume. Relógio d'Água Editores, s/d., pp 263-268.
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sexta-feira, 1 de março de 2019



Nuestro destino fue la huida,
nuestro anhelo la prisa, la escapada.
No pudimos resguardarnos entre cuatro paredes
porque el miedo nos obligó a escarbar;
el miedo nos contó la leyenda de Dédalos,
la nuestra, las anteriores a la nuestra,
la que vendrá después a sucedernos.
Y no hubo más remedio que huir,
escapar a una tierra de mudos,
donde el silencio nos abrigaba como una toquilla.

Nuestro destino fue la huida.
Y nuestra música fue una melodía extraña y dolorosa.
Muy pocos fueron los que quisieron escuchar
aquella jadeante cantinela.

                    Sin embargo,
aquella música nos devolvió la fe en la vida.
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  Aguirre, Francisca. Detrás de los espejos, Antología 1973-2010. Madrid: Bartleby Editores, 2013, p 84.
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