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segunda-feira, 29 de agosto de 2022


        A voz poética não fidedigna


Não ouças o que eu digo; partiram-me o coração.
Não há nada que eu veja objetivamente.

Conheço-me a mim mesma; aprendi a escutar como um psiquiatra.
Quando falo apaixonadamente,
é quando sou menos de confiança.

Realmente é muito triste: toda a vida me elogiaram
pela minha inteligência, os meus poderes de lingagem, de perspicácia.
No fim, foram um desperdício -

Nunca me vejo,
de pé nos degraus da entrada, a dar a mão à minha irmã.
É por isso que não posso explicar
as nódoas negras no braço dela, onde termina a manga.

Dentro da minha mente, sou invisível: por isso sou perigosa.
As pessoas como eu, que parecem abnegadas,
somos nós as anormais, as mentirosas;
somos aquelas a quem se devia dar o desconto
a bem da verdade.

Quando me calo, é quando a verdade irrompe.
Um céu limpo, as nuvens como fibras brancas.
Por baixo, uma casinha cinzenta, com azáleas
de vermelho e rosa brilhante.

Para se ter a verdade, é preciso resguardarmo-nos
de ver a irmã mais velha, tapá-la;
quando se magoa assim uma coisa viva,
nos seus mais fundos mecanismos,
todas as funções se alteram.

É por isso que não sou de confiança.
Porque uma ferida no coração
é também uma ferida na mente.


   Louise Gluck. Ararate. Lisboa: Relógio D' Água Editores, 2021, pp 41-43 (Tradução de Margarida Vale de Gato).
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terça-feira, 17 de agosto de 2021


                      Inferno


Porque te afastaste?

Saí viva do fogo;
como é isso possível?

Quanto se perdeu?

Nada se perdeu: tudo foi
destruído. A destruição
é o resultado da acção.

O fogo era real?

Lembro-me de entrar de novo na casa há vinte anos,
tentando salvar o que podíamos.
Louças, e assim. O cheiro do fogo
em tudo.

No meu sonho, ergui uma pira funerária.
Para mim, tu entendes.
Pensei que já tinha sofrido que chegasse.

Pensei que era o fim do meu corpo: o fogo
parecia-me o fim perfeito para a fome;
eram a mesma coisa.

E mesmo assim não morreste?

Era um sonho; pensei que voltava para casa.
Lembro-me de dizer a mim própria
que isso não funcionava; lembro-me de pensar
que a minha alma era por de mais obstinada para morrer.
Eu pensava que alma era o mesmo que consciência -
se calhar toda a gente pensa assim.

Porque te afastaste?

Acordei num outro mundo.
Tão simples quanto isto.

Porque te afastaste?

O mundo mudou. Saí do fogo
e entrei num mundo novo - talvez
o inferno, tanto quanto sei.
Não o fim da carência, mas carência
elevada ao máximo poder..


 Louise Gluck. Vita Nova. Lisboa: Relógio D' Água Editores, 2021, pp 93-95 (Tradução de Ana Luísa Amaral).
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segunda-feira, 16 de agosto de 2021


                    Castela


Sopram sobre Castela as flores das laranjeiras,
crianças pedem esmola

Conheci o meu amor sob uma laranjeira
ou seria uma acácia
ou não seria ele o meu amor?

Li sobre estas coisas, depois sonhei-as:
pode o despertar recuperar o que me aconteceu?
Os sinos de San Miguel
tocando à distância,
por entre sombras, o cabelo dele, de um louro pálido

Sonhei estas coisas, 
quer isso dizer que elas não aconteceram?
Que têm de acontecer no mundo para serem reais?

Sonhei tudo isto, a história
tornou-se a minha história:

ele deitou-se a meu lado,
a minha mão percorreu ao de leve a pele do seu ombro

Meio-dia, depois o cair da noite:
à distância, o som de um comboio

Mas aquilo não era o mundo:
no mundo, as coisas aparecem com um fim, absolutas,
a mente não as pode reverter

Castela: freiras que caminhavam aos pares por jardins escuros.
Fora dos muros de Anjos Sagrados
crianças a pedir esmola

Quando acordei, chorava,
não tem isso realidade?

Conheci o meu amor sob uma laranjeira:
só me esqueci
dos factos, não da ilação -
e algures havia crianaças, a chorar, a pedir esmola

Sonhei tudo isto, dei-me
por completo e para sempre

e o comboio devolveu-nos
primeiro a Madrid
depois ao País Basco
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 Louise Gluck. Vita Nova. Lisboa: Relógio D' Água Editores, 2021, pp 63-65 (Tradução de Ana Luísa Amaral)..
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sábado, 19 de junho de 2021



                       O cavalo e o cavaleiro

Era uma vez um cavalo, e sobre o cavalo um cavaleiro. Que elegantes
pareciam no sol do Outono, aproximando-se de uma estranha cidade!
As pessoas apinhavam-se nas ruas ou chamavam de altas janelas. As
velhas sentavam-se entre vasos de flores. Mas quem olhasse em volta
em busca de outro cavalo ou outro cavaleiro, olharia em vão. Meu ami-
go, disse o animal, porque não me abandonas? Sozinho, podes orientar-
-te por aqui. Mas abandonar-te, disse o outro, seria deixar para trás uma
parte de mim, e como posso fazê-lo se não sei que parte és?


 Louise Gluck. Noite Virtuosa e Fiel. Lisboa: Relógio D'Água Editores, 2021, p 111 (Tradução de Margarida Vale de Gato).
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sexta-feira, 18 de junho de 2021


               Teoria da Memória

Há muito, muito tempo, antes de ser artista com tormentos,
afligindo-me o desejo, mas incapaz de formar apegos dura-
douros, muito antes disso, eu era um glorioso governante
que unia todo um país dividido - foi o que me disse uma adi-
vinha que me leu a sina. Há grandes coisas, disse ela, à tua
frente, ou talvez atrás de ti: é difícil ter a certeza. E todavia,
acrescentou, que diferença faz? Neste preciso instante és 
uma criança de mão dada com uma adivinha que lê a sina.
Tudo o resto é hipótese e sonho.


   Gluck, Louise. Noite Virtuosa e Fiel. Lisboa: Relógio D' Água Editores, 2021, p 37 (Tradução de Margarida Vale de Gato).
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quinta-feira, 17 de junho de 2021


                      Encruzilhada


Corpo meu, agora que não viajaremos juntos por muito mais tempo,
começo a sentir por ti uma renovada ternura, muito crua e
desconhecida,
como aquilo que recordo do amor quando era jovem -

um amor que tantas vezes foi tolo nos seus objetivos,
mas nunca nas suas escolhas, nos seus ardores.
Demasiado exigido à partida, demasiado o que não pôde ser prometido -

A minha alma tem sido tão temerosa, tão violenta:
perdoa a sua brutalidade.
Como se fosse essa alma, a minha mão desliza cautelosa por ti,

não querendo ofender,
embora ansiosa, enfim, por conseguir expressar-se enquanto substância:

não é da Terra que irei sentir falta,
é de ti que irei sentir falta.


 Louise Gluck. Uma vida de Aldeia. Lisboa: Relógio D'Água Editores, 2021, p 137 (Tradução de Frederico Pedreira).
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segunda-feira, 5 de abril de 2021


                           Telescópio


Há um momento após desviares o olhar
em que te esqueces de onde estás
pois tens vivido, parece,
noutro lado, no silêncio do céu nocturno.

Deixaste de estar aqui no mundo.
Estás num lugar diferente,
um lugar onde a vida humana não tem sentido.

Não és uma criatura num corpo.
Existes como as estrelas existem,
participando na sua quietude, na sua imensidão.

Até que voltas a estar no mundo.
De noite, numa colina fria,
a desmontar o telescópio.

Só depois percebes
que não é falsa a imagem
mas a relação.

Vês de novo como cada coisa
fica tão longe de todas as outras.


  Louise Gluck. Averno. Lisboa: Relógio D' Água Editores, 2020, p 125 (Tradução de Inês Dias).
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segunda-feira, 29 de março de 2021


Poema 13 do Ciclo "Prisma"

Chuva de Primavera, depois uma noite de Verão.
Uma voz de homem, depois uma voz de mulher.

Crescias, eras fulminada por um raio.
Quando abrias os olhos, estavas ligada para sempre ao teu verdadeiro amor.

Só aconticia uma vez. Depois tratavam de ti,
a tua história acabava.

Acontecia uma vez. Ser fulminada era como ser vacinada,
ficavas imune para o resto da vida, 
ficavas ao abrigo de tudo.

A menos que o choque não fosse suficientemente profundo.
Então não ficavas vacinada, mas viciada.


  Louise Gluck. Averno. Lisboa: Relógio D' Água Editores, 2020, pp 45-47 (Tradução de Inês Dias).
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sábado, 27 de março de 2021


         Canção de Embalar


Descansa agora. Foram
demasiadas emoções.

O crepúsculo, depois a noitinha. No quarto
cintilam pirilampos, aqui, acolá, aqui, acolá,
e a funda doçura do Verão entra pela janela aberta.

Não penses mais nestas coisas.
Ouve-me a respirar, ouve-te a respirar
como os pirilampos, cada pequeno sopro
é um clarão onde aparece o mundo.

Já cantei muito para ti na noite de Verão.
Hei-de conquistar-te, no final: o mundo não pode conceder-te
esta visão contínua.

Deves aprender a amar-me. Os humanos devem aprender a amar
o silêncio e o escuro.


   Louise Gluck. A Íris Selvagem. Lisboa: Relógio D' Água Editores, 2020, p 119 (Tradução de Ana Luísa Amaral).
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quinta-feira, 25 de março de 2021


                            Matinas


Perdoa-me se digo que te amo: aos poderosos
mente-se sempre, já que os fracos são sempre
impelidos pelo pânico. Não posso amar
o que não consigo conceber, e tu não revelas
quase nada: serás como o espinheiro,
sempre o mesmo no mesmo lugar,
ou serás como a incoerente dedaleira, que primeiro floresce
feito espinho rosado nesse declive junto das margaridas,
e no ano seguinte é cor de violeta por entre o roseiral? Entende
como nos é inútil este silêncio que em nós convida à crença
de que podes ser tudo, dedaleira e espinheiro,
a rosa vulnerável e a tenaz margarida - só nos resta pensar
que nunca poderias existir. É isto
que queres que nós pensemos, isto explica
o silêncio da manhã,
os grilos cujas asas ainda não se roçam, os gatos
que no pátio não combatem?


  Louise Gluck. A Íris Selvagem. Lisboa: Relógio D' Água Editores, 2020, p 31 (Tradução de Ana Luísa Amaral).
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