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domingo, 1 de março de 2020


Não vem do céu, não vem do mar, não condena o musgo, não dissolve os caminhos. É um vapor sincopado que nos comove a esperança, enchendo o peito com uma enciclopédia em branco, subindo-nos à cabeça, como um rasto de leopardo gasoso, descosendo as nódoas magnas, uma a uma, até ser aquela lança aguda, alfinete secreto de noiva, cravando a sílaba fértil, no buraco negro do silêncio.
(...) O coração quando não pode falar, diz à poesia que avance sem cão de guarda, que suba a muralha sem andaimes, que levite sobre a música, enchendo o peito, com a luz do que é preciso amar, mesmo que a cabeça, oh, pobre cabeça, ainda hesite, se corta ou não corta, o acesso às palavras, pela vela que escorre sem parar.
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  Gonçalves, Daniel. Fluviário das horas póstumas. Ponta Delgada: Confraria do Silêncio, 2019, pp 109-110.
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quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020


Uma música como se não houvesse outra, banda sonora deste filme mudo, escorrendo na janela, apropriando-se da luz, como um canário que hesita, antes de escapar. A lembrança súbita da mortalidade, mandando rezar a chama de um círio, à padroeira dos loucos, possessos e sonâmbulos. O início de um poema, antes mesmo de ser estrofe. O meu rosto com a idade certa, só com os defeitos de nascença. Fazer planos sem anotar detalhes, ignorar os riscos sismológicos, se um dos joelhos cede, e o coração resvala.
(...) Mas, oh, no desterro do aeroporto, barricando as malas, e os passaportes por visar. E eu aos tropeções, olhando sobre o ombro, e este filme passando sem estreia, e eu pagando excesso de bagagem, por ter enchido este saco, com doze aparições tuas, todas vestidas de azul, logo a cor mais abundante do silêncio. E eu insistindo até ao último minuto, capaz de jurar, o teu rosto em cada face, que espreita o relógio, tão vigiado o tempo, que não pertence a este lugar. Mas, oh, como posso afinal, tão fraco nestes esteios de barro, desistir na asa das alturas, sem protesto nem amuo?
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 Gonçalves, Daniel. Fluviário das horas póstumas. Ponta Delgada: Confraria do Silêncio, 2019, pp 63-65.
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sábado, 22 de fevereiro de 2020





Navegar na insónia, sem pressa nem destreza, à espera da manhã. Contrariar o inverno, com estas tenazes, a ver se o dia aguenta, uma hora a mais, se ele deixa a tua luz, como uma gola alta, proteger-nos do frio, e da lentidão das palavras, se ela escuta o orvalho, e o desânimo do jardim, se desconfiamos da alfazema, avulsas ametistas, à espera do fogo. Adicionar rumores aos pássaros, e adornar o ruído das pedras, com a fala dos roseirais. Suspender os provérbios e os salmos, se eles nos lembram da morte, que há em cada instante, se tudo passa e corre, enfraquecendo esta mesma ponte, que vamos atravessando, sustendo a sede, avançando no corrimão do dia, por onde se sobe mais do que se desce, mas onde o sol há-de firmar, a ver quem se atreve, espiando o que nunca foi inédito, cobrando pelo excesso do coração, quando respira fora de água, e nos resolve as contas, da eternidade.
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  Gonçalves, Daniel. Fluviário das horas póstumas. Ponta Delgada: Confraria do Silêncio, 2019, p 33.
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