domingo, 9 de abril de 2023

Na primeira quinzena de maio apresentar-se-á, na cidade de São Paulo (Brasil), o livro O anjo entre o deserto e o não de Alexandre Bonafim, poeta, ensaísta e prof. na Universidade. Federal de Góias. Segue abaixo o Prefácio que tive a honra de escrever para esse livro, Prefácio esse que está também online no blogue da editora brasileira que publica a obra.
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         As configurações do anjo e do deserto na poesia de Alexandre Bonafim

por Victor Oliveira Mateus

O livro O anjo entre o deserto e o não, de Alexandre Bonafim, insere-se numa temática que tem, ao longo dos séculos, percorrido a cultura ocidental: o deserto enquanto apelo e fonte de saber e de transmutação do indivíduo que ousa vislumbrá-lo e percorrê-lo. Contudo, essa persistência temática em diversos autores não conduz a uma homogeneização dos resultados, já que cada olhar enforma de uma experiencia vivida específica e de um sistema de valores e de crenças individual; poderemos, eventualmente, encontrar zonas que se tangenciam nas diversas abordagens, mas sem que a originalidade de cada uma delas seja posta em causa.



O deserto em Alexandre Bonafim apresenta, assim, algumas características fundamentais: encontra-se associado ao dizer (O deserto diz / com simplicidade / a luz); (Dizer o verdadeiro poema/ é sempre ter a língua amputada); relaciona-se com a interioridade e a ação (Dentro dos meus pulsos/ um deserto desatou a ira/ dos cavalos selvagens); é apanágio de poucos: daqueles que decidem empreender a aprendizagem poética enquanto técnica linguística e que ousam trilhar esse caminho.



O percurso intentado pelo poeta não é coisa pacífica (Nada no mundo pode abrigar/ essa dor estrangeira/ extraterrena/(…) que perfura meus ossos/ meus sonhos), é, por conseguinte, não só uma senda eivada de obstáculos, por vezes tumultuosos, mas sobretudo uma aprendizagem que recusa todo o tipo de solipsismo; afirma-se antes como um acrescentamento do eu mediante uma relação dialógica com o meio e com o outro, e são estes os dois últimos vetores o fundamental deste "O anjo entre o deserto e o não", aliás, tal como aparecem em grandes escritores de outras nacionalidades. Empreendendo uma dialética em relação a esse vazio do deserto, o poeta acrescenta ainda a forte presença do outro, metaforicamente já anunciado no título (anjo): presença desejada, presença amada, mas muitas vezes também presença como germe de mágoa e de desalento. A aprendizagem dos afetos é, neste livro e indubitavelmente, uma apreensão não resultante de um qualquer delírio ou de uma relação fantasiada, mas de uma constante interiorização obtida através de um complexo e contínuo diálogo com o mundo natural, com a palavra e com o outro, outro esse, por vezes, sob a figuração de uma forte proximidade afetiva.



Dialeto



Teu rosto

jorro de uma palavra

na plenitude

de um idioma cego

(...)



Teu rosto

orquídea

melancólica

vermelha

como a fuga

dos garças

rumo ao sul



Há, no entanto, neste livro, uma deliberada urdidura da ambiguidade, que remete o leitor, em dadas circunstâncias, para uma interconexão de referentes, como se estivéssemos ante uma encantada casa de espelhos, onde o poeta tanto pode estar a falar de um outro exterior a si, como de si próprio, como ainda do cume absoluto da sua arte: o dizer poético, e caberá ao leitor, recusando todo o tipo de passividade, aceitar o desafio e fazer-se cúmplice desta aventura poética, deste deserto; um exemplo disto a que poderei chamar uma ambiguidade triádica poderá ser encontrada no poema Cigano:



Ele caminha entre o silêncio e o não



Nos lábios o veneno

a rosa vermelha

esmagada pela melancolia



Ele sempre busca a ardência

a caricia de um delicado algoz



Outra figuração do deserto de Bonafim pode ser encontrada na sua maleabilidade estrutural. Dito de outro modo, este deserto pode surgir nos momentos mais inesperados e nos contextos mais imperscrutáveis: na infância, no quotidiano, na afetividade (Deitei-me sobre tua pegada// De mim restou-me apenas/ o leve contorno do teu não), na memória (Entre meus sonhos/ queima o que foi/ o que não foi/ como a faca/ a perfurar na cicatriz/ uma nova ferida). Poder-se-á dizer deste deserto o que o filósofo Michael Foessel disse da Noite : “De fato, nem todos os eclipses são astrais: a noite pode surgir em contextos imprevistos e, às vezes, simplesmente porque os indivíduos decidem isso “ (1). Também o deserto de Alexandre Bonafim não se deixa espartilhar por quaisquer mapas ou cartografia, ele é uma instância muito mais lata e rica; é essa parcela do Ser cujo atravessamento, por vezes sofrido, trará ao poeta uma nova e enriquecida aprendizagem do Todo. Este tipo de hermenêutica do deserto pode ser encontrado também em muitos dos poetas portugueses – e foram vários! – que nas últimas décadas poetaram sobre o tema, veja-se o caso de Isabel Cristina Pires (2) – no poema Mapa-Múndi: (No mapa do mundo/ há um lugar/ onde ninguém foi./ Dói-nos/ esplendidamente.) e no poema Este Tempo Rápido do Mundo: (Este tempo rápido do mundo/ rouba-nos o corpo à dança sem relógio/ e dói no coração comido pelo nada./ Leva-nos consigo para dentro da aridez). Em ambos os casos, quer a poetisa portuguesa, quer o poeta brasileiro, filiam-se num continuum onde o metapoético se mescla com uma espinhosa aprendizagem, atente-se, a título de exemplo, às palavras de Alexandre Bonafim:



Poética



Poesia se faz

com arame farpado

contra a carne crua

contra a pele nua



Todavia, apesar dos dois poetas perfilharem uma conceção abrangente do deserto, há na escrita de Cristina Pires um pertinaz modo de olhar uma temporalidade específica e um cosmopolitismo não detetáveis em Bonafim, que opta, antes, por uma sensualidade, um erotismo e um alto lirismo raros na poesia contemporânea escrita em português, aliás, não é por acaso que ele no seu livro utiliza uma epígrafe de Dora Ferreira da Silva: dois versos dessa poeta maior que, no século XX, escreveu em português.



Neste livro de Alexandre Bonafim, o deserto desemboca num enraizamento quadrifendido do caminhante, simbolizando este o humano no seu passar pelo aqui: o amor-paixão à boa maneira de Stendhal como pode ser visto no poema Teu abraço; o alcançar de uma regenerada voz poética detetável no poema Poética; uma recuperação do corpo (do outro amado? Do texto? De ambos?) como assinala o poema Orgasmo e, finalmente, uma apreensão, em lucidez e verdade, do eu:



Palavra secreta



Eu sou o homem dos olhos impuros

mas minha boca pode ver o anjo de seis asas



Minha boca pronuncia a inocência

do mais ardiloso vício



Eis a aprendizagem feita através do deserto de Bonafim! Um acolhimento, como acima se disse, feito em clarividência e autenticidade: do amor, do corpo, da poesia e do humano. Este deserto demarca-se, portanto, de tantos outros, como o de Buzzati (3), do qual tudo se esperava e de onde nada de importante vinha, e que mais não era do que uma mera fronteira de ansiosas esperas: de rituais, de envelhecimentos e mortes; o deserto de Alexandre Bonafim é, ao invés, uma mescla de territorialidade e de experiências passionais e ontológicas.



Em O anjo entre o deserto e o não, numa cuidada urdidura de vaivém, num luminoso filigranado de imagens e de conseguidos processos de metaforização, Alexandre Bonafim dá-nos o fruto do seu apurado cismar poético: uma constelação, onde, como já referi, o amor, o corpo, o humano e a poesia se entrelaçam.



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Notas

(1) Foessel, Michael. La Nuit, vivre sans témoin. Paris: Éditions Autrement, 2017, p 156.

(2) Pires, Isabel Cristina. Deserto Pintado. Lisboa: Editorial Caminho, 2007.

(3) Buzzati, Dino. O Deserto dos Tártaros. Barcarena: Marcador Editora, 2014.

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segunda-feira, 3 de abril de 2023

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Morreu Sakamoto vítima de doença prolongada.
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Ryuichi Sakamoto (Tóquio, 1952/01/13 - Tóquio, 2023/03/28).

domingo, 19 de março de 2023



                Lamento das mulheres afegãs


Olhem para nós. Ouçam-nos.

Não somos vultos sem identidade.

Somos mulheres.

Somos mães filhas irmãs amigas.

Temos um nome.

Indefesas frente ao terror

é silencioso o lamento o arrepio.

Qualquer gesto nos pode destruir.

Ficámos sem chão.

Avistamos a montanha

mas um deserto invisível

acorrenta-nos os pés.

O céu é um abismo.

Onde estão as estrelas

os anjos o nosso deus?

Não. Não choramos.

Temos o olhar parado nos livros proibidos

na inutilidade dos dias que hão-de vir

nas palavras reprimidas

na mais indecifrável prece

tão perto da descrença.

Quem poderá salvar-nos?


  Graça Pires. O improvisao de viver. Lisboa: Poética, 2023, p 63.

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sábado, 18 de março de 2023



Obrigado, Senhor
por esta criatura
que a sacudir a chuva das asas
se aproxima aos saltinhos cautelosos
para apanhar uma migalha de pão
quase debaixo dos meus pés
quando espero sentado num banco
a camioneta que me leva a casa
depois de uma noite sem dormir, no hospital.
Obrigado de todo o coração pela companhia.
Obrigado por não a teres assustado.


Emilio Coco. Teologia Doméstica. Fafe: Editora Labirinto, 2022, p 17 (Prefácio e Tradução de José Manuel de Vasconcelos).
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sábado, 11 de março de 2023


Trabalho sem luz sobre ritmo e palavras
é uma pancada mano a mano sem medo
e batota forjada nas campanhas de pesca
que descarada melancolia nós levamos


É uma pancada mano a mano sem medo
felizes os amores na terra invisível
camisolas de jogo com o cromo de cada um
amaciando a espera, um textinho no telefone


Felizes os amores na terra invisível
é complicado a terra assim sem mostrar
o joelhinho ao sol, o perfume a favor
todo o tempo do mundo para lembrar


  Hugo Milhanas Machado. Sarilho da Berlenga Futebol Clube. Fafe: Editora Labiirinto: 2022, p 45.
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sexta-feira, 10 de março de 2023


   Há em Sophia uma aceitação plena da vida que assume uma certa forma de panteísmo, que em Pascoaes terá talvez a sua origem, mas a que Sena é totalmente alheio. Não que não vibre no nosso poeta uma altiva pulsão pagã, mas em Sena a luta do que é humano contra o que é natural, do orgânico conra o inorgânico, do articulado contra o inarticulado prevalece na raiz da criação do mundo. E ele o diz uma vez mais no já citado poema A Morte, o Espaço, a Eternidade (...).
   Mas a plena aceitação do mundo no êxtase panteísta de Sophia não implica menos revolta contra o desconcerto e a injustiça desse mesmo mundo, o que a poeta vê como uma ofensa à ordem natural...


  Luís Filipe Castro Mendes. Um estranho animal de duas cabeças O Escritor Diplomata. Fafe: Editora Labirinto, 2022, p 61.
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quarta-feira, 8 de março de 2023


 Viajante solitário


Tinha nevado durante a noite
mas a neve era tão fina
que derretia debauxi das botas


Só um corvo
quebrava o silêncio e a solidão


Parou e olhou pra trás
assim ficava marcada
a sua passagem sobre a Terra


Se voltasse a nevar
as suas pegadas desapareceriam
e ele com elas


Ninguém dava por nada
ninguém daria pela sua falta.


  Manuel Silva-Terra. estado poético. Leça da Palmeira: Eufeme: 2023, p 25.
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quinta-feira, 2 de março de 2023


Segundo o fio sombrio desta aventura lamentável, eu distingo a trama duma história de amor às avessas. Violante-Beatriz incarnava, para o seu cunhado, toda a beleza moral, toda a ternura, toda a graça feminina a cuja atracção, pelos motivos que esta narração já esclareceu, ele jurara, desde a adolescência, não sucumbir em caso algum. Ele amou a sua cunhada, e, ao mesmo tempo, detestou-a por despertar nele sentimentos que odiava. Ela representava a prova viva que ele não era tão mau quanto decidira aparentar, e, precisamente por esta razão, viu nela a sua principal inimiga. Obstinou-se a rejeitá-la, para matar em si toda a veleidade de se enternecer. Ainda que natural da Bavária e com traços ingratos, ela fazia-lhe lembrar, pela palidez frágil, o feitio afável, a sua abnegação e a sua humildade, as inúmeras Madonas da escola de pintura florentina. Que ela evocasse o ideal poético e perpetuasse o mito duma cidade amaldiçoada, era o que ele menos lhe podia perdoar.


   Dominique Fernandez. O Último dos Médicis. Venda Nova: Bertrand Editora, 1996, p 294.
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segunda-feira, 20 de fevereiro de 2023

 

Em Notícia, de 25 de novembro de 2022, a Camara Municipal de Sintra noticiou a atribuição do Prémio Ruy Belo de 2022, segue um excerto dessa notícia:

(…)

Por sua vez, “Caderneta de Lembranças”, da autoria de A. M. Pires Cabral, publicado em 2021, foi a obra literária distinguida com o Prémio Ruy Belo/2022 para Obra Poética Publicada no biénio 2020/2021.

O júri constituído por José Manuel Mendes, Presidente da Associação de Escritores, Victor de Oliveira Mateus, da Associação Portuguesa dos Críticos Literários, e Ricardo António Alves, também ele designado pela autarquia de Sintra, decidiu em unanimidade e assinalou “a voz singular do autor”, bem como “o modo de expressão de um eu poético não abstrato, com as marcas vivenciais da temporalidade, servido pelo manejo formal de elementos campestres, à revelia de qualquer neo-bucolismo”.

Para o Prémio Ruy Belo, o júri decidiu ainda a atribuição de duas menções honrosas, respetivamente, à obra “Cerveja & Neve” da autoria de Inês Dias, e ao “Livro da Perfeita Alegria” de Eugénia de Vasconcellos.

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domingo, 19 de fevereiro de 2023


           Este pássaro de silêncio


Dorme em mim
este pássaro de silêncio,
na minha pele,
na minha roupa,
nos meus sapatos sem destino.


Dorme em mim, sem saber
que o mundo conhece
as suas pegadas que estão no vento.


O meu voo vertical
salva o final de toodos os sonhos,
os que não pude viver
quando ainda era possível.


Espero aproximar-me do mar,
como um marinheiro que se perde.


Neste tempo incerto,
invento um poema novo,
um poema que me salva do sonho.


 
Stefania Di Leo. Falemos até a Luz se Apagar. Fafe: Editora Labirinto: 2023, p 59 (Tradução de Orlando Jorge Figueiredo; Prólogo de Núno Júdice).
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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2023


                  pardal


Um pardal pousou
em meu braço e me entardeceu.
Chupei a dor do pardal pela asa ferida.
Asa é uma palavra que balança no vácuo.
Guardei o pardal no vento.
Pardal guardado no vento é uma imagem bonita.
Peguei um pincel e desenhei mais um pardal dentro do vento.
Os dois fizeram coisas de pardal.
Couberam numa fulô e tiraram cochilo.


  Leonam Cunha. Condutor de Tempestades. Mossoró: Sarau das Letras Editora, 2016, p 25.
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sábado, 14 de janeiro de 2023

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A minha gratidão para o António José Cravo, excelente diseur de poesia, que com pertinácia vem mantendo esta rubrica dedicada à dita arte.
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quarta-feira, 11 de janeiro de 2023


        Song


All suddenly the wind comes soft,
  And Spring is here again;
And the hawthorn quickens with buds of green,
  And my heart with buds of pain.


My heart all Winter lay so numb,
  The earth so dead and frore,
That I never thought the Spring would come,
   Or my heart wake any more.


But Winter's broken and earth has woken,
  And the small birds cry again;
And the hawthorn hedge puts forth its buds,
  And my heart puts forth its pain.


   Rupert Brooke. The Collected Poems of Rupert Brooke. pp 75-76.
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segunda-feira, 9 de janeiro de 2023


  soneto do esmerado merecer


seu amor de amor desabitado
poluído no medo de ter fado
voga pela demora acorrentado
pela demora e o medo desfigurado


amor que não chegou sequer a ser
ardeu, sarça da espera encantada,
fogo que o universo ordenou deter
sem imolar a sarça casa abençoada


a sua casa, sarça do sagrado
alma casa ardente do viver
suspirou a ternura o renascer


fluxo do nada veio esmerado
e as ondas da soberana voz do ser
vão guiá-lo ao futuro do merecer.


  Maria Toscano. 25 Sonetos. Coimbra: Grácio Editor, 2022, p 73.
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quinta-feira, 5 de janeiro de 2023


            Estrela Cadente


Se disseres a palavra
eu ficarei tão contente,
cantarei como cantava
quando eu era inocente.


Se disseres a palavra
me espantarei novamente,
voarei como voava
e era pássaro e vidente.


Se disseres a palavra
voltarei rapidamente
como antes eu voltava,


Se disseres a palavra
será uma estrela cadente
que junto de nós brilhava.
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  José Eduardo Degrazia. Os melhores poemas. Porto Alegre: editora Bestiário, 2022, p 65 (Organização e Prefácio de Eduardo Jablonski).
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segunda-feira, 2 de janeiro de 2023


Attack

At dawn the ridge emerges massed and dun
In the wild purple of the glowering sun
Smouldering through spouts of drifting smoke that shroud
The menacing scarred slope; and, one by one,
Tanks creep and topple forward to the wire.
The barrage roars and lifts. Then, clumsily bowed
With bombs and guns and shovels and battle-gear,
Men jostle and climb to meet the bristling fire.
Lines of grey, muttering faces, masked with fear,
They leave their trenches, going over the top,
While time ticks blank and busy on their wrists,
And hope, with furtive eyes and grappling fists,
Flounders in mud. O Jesu, make it stop!

   Siegfried Sasson. The war poems. p 35.
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domingo, 1 de janeiro de 2023


  Todos os campos de girassóis a arder no coração


Quando me vestiram de Charlot
Eu não sabia quem era Charlot.
Tinha um chapéu e um colete negro
uma gravata negra sobre uma camisa branca
um olhar que não saberia descrever.
É difícil dizer com palavras um olhar.

A paz de um olhar humano é um incêncio
e a natureza de um incêndio é fazer nascer.

(Eu tinha umas pantufas vermelhas)
E uma camisola de lã grossa
E a minha avó -
foi certamente a minha avó -
vestiu-me de Charlot
num dia de Carnaval

O vento sopra quente
       e o trigo estremece -

O coração é um campo em chamas.


  Nuno Brito. Escrever um poema sobre a liberdade e vê-lo arder. Valle de Valdeflores: Ediciones Liliputienses, 2022, pp 85-86.
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domingo, 27 de novembro de 2022


PRÉMIO DE POESIA RUY BELO DE 2022

Obra Vencedora: 
Caderneta de Lembranças de A. M. Pires Cabral


Menções Honrosas:
Cerveja & Neve de Inês Dias

Livro da Perfeita Alegria de Eugénia de Vasconcellos


Júri:
José Manuel Mendes em representação da APE (Associação Portuguesa de Escritores)
Victor Oliveira Mateus em representação da APCL (Associação Portuguesa dos Críticos Literários)
Ricardo António Alves em representação da CMS (Câmara Municipal de Sintra)

Todas as decisões foram aprovadas por unanimidade. A cerimónia de entrega dos Prémios será comunicada oportunamente..


Para a notícia desenvolvida, ver aqui: https://cm-sintra.pt/atualidade/cultura/oram-anunciados-os-vencedores-dos-premios-literarios-de-sintra-2022
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quinta-feira, 17 de novembro de 2022


O romance O Diabo Desceu em Chichester encontra-se já em pré-venda e chegará às livrarias na primeira semana de dezembro.
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terça-feira, 1 de novembro de 2022


Soubeste levar contigo os meus sentidos


Não pergunto quem és,
porque só te posso oferecer simples palavras
atrás de um ecrã inerte.

Não espero respostas,
pois a tua presença justifica-se
pelos momentos que me fazem viver o verão,
apesar da lonjura que nos separa.

Então tu chegas,
e só procuro não te surpreender com sussurros
perante essa essência tua que me ensurdece.

Detestas os tectos de barro
que te impõe o lugar onde nasceste,
mas és capaz de te apaixonares pelas dissidências
que têm um inequívoco significado.

Descansa sobre ti um sedutor desejo
que alberga múltiplos rostos
atrás desses luzeiros escuros que esboça o teu olhar.

A tua incessante mudança é motivo para relegar os dias
à atracção da novidade, ao estado ensimesmado
daquele que descobre o fulgor
do dinamismo.

A pólvora das tuas palavras
pressupõe uma rebeldia de amanheceres
e provoca o desejo de carregar com serenidade
a impulsividade que existe em ti.
Muitos desejavam modelar o que seduz
por trás do teu sorriso.

Por vezes o mistério
esconde-se atrás de exuberantes virtudes.

Sempre que te vais eu fico a imaginar a tua sedução.
É que soubeste levar contigo os meus sentidos.


José Alfredo Pérez Alencar. Tambores no abismo. Fafe: Editora Labirinto, 2022, pp 59-61 (Tradução de Leocádia Regalo).
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sábado, 29 de outubro de 2022


elle ouvre toute grande sa main
contre l' effroi
sa langue aussi de plus en plus
toute grande, héroique

comment faire le guet autrement
loin
qui parle ainsi, d' où
sans pleurer, ni enrager ni trahir

sa langue multiplie son mauvais genre
sous l' oeil autre
des pères forcément, la forme
ce qui leur appartient

alors que tant de voiles et d'armes
sur tant de figures
plus forte que tout
cette main
et son excés de e frivoles

leur insolence d' étoiles font les syllabes curieuses
qui prolongent le croquis, la plage
bulbes sonores
plantés
côtte à côte, couteau et plaie
(...)


Denise Desautels. L'angle noir de la joie, suivi de D'où surgit parfois un bras d'horizon. Paris; Éditions Gallimard, 2022, pp 83-84 (Préface de Louise Dupré).
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domingo, 9 de outubro de 2022


LISTA DOS VENCEDORES DOS PRÉMIOS PEN 2022

Poesia

Vencedor: José Manuel de Vasconcelos, "Os grandes lagos da noite", Editora Húmus


Júri

Victor Oliveira Mateus (Presidente)
Ana Mafalda Leite
Ronaldo Cagiano


Ensaio

Vencedor: Pedro Cabral, "O paradoxo do cérebro. Memória. Autismo. Identidade", Editora Temas e Debates/ Círculo dos Leitores


Júri

Pires Laranjeira (Presidente)
Teresa Duarte Carvalho
Teresa Malafaia


Narrativa

Vencedor: Teresa Noronha, "Tornado", Editora Exclamação


Júri

Miguel Serras Pereira (Presidente)
Luís Naves
Patrícia Infante da Câmara
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domingo, 2 de outubro de 2022



A memória,
tribo de lâmpadas azedas.


  Alberto Pereira. Ecocardiograma. Vila Nova de Famalicão: Edições Húmus, 2022, p 53.


A infância,
um bouquet de colmeias no peito
e o sangue desenhado por Miró.


Idem, p 33.


Não sei se foi em Bach
ou nos olhos da minha mãe
que vi Deus nevar a primeira vez.


Idem, ibidem, p 16.
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sábado, 1 de outubro de 2022


                  O relógio avariado


é a memória
de velhos segundos
que alimenta
esse pulso?


os ponteiros mancos
de avanços 
e recuos


às dez para as oito
de qual luto?


qual foi o dia dessa morte
que ainda se agita ao fundo?


( se o que se ouve
em teu ritmo
não pode ser o eco
de algum espírito


se em ti
nada excede
a engrenagem


que fez
de tua máquina
miragem)


sussurram os segundos
que ainda te restam
na memória: é esse
o pulso?


teu luto
cego
   e surdo?


de tudo
o óbvio


do tempo
que não redime
os relógios


  Iacyr Anderson Freitas. Os campos calcinados. São Paulo: Faria e Silva Editora, 2022, pp 50-51.
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