terça-feira, 26 de setembro de 2023


Hoje busco com olhar de grito
Impaciente, entre o povo aflito,
A barca salvadora que nos erga,
Mas que meu pequeno mundo não enxerga.

Importante é chegar ao céu sereno
Que debaixo dos pés em breve aceno
Me cativa, me atrai, me desarvora.
E capturo em azul quem me devora.

De aliança é a ditosa arca,
No coração me pousa e em mim embarca
O que teme sem saber do mal o odor.

Me compete e enfim a missão cumpro,
De resgatar o infinito assombro
Com que a Nave passou o Bojador.
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 Risoleta C. Pinto Pedro. Kronos inversus. Porto: Edições Sem Nome, 2023, p 21.
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segunda-feira, 25 de setembro de 2023


EN mi mente danzan las briznas atadas a las raíces de
los árboles que saben llorar. Diluvia el mundo entero
y todo es mágico, como el sueño en el corazón del
niño airado. Enciendo la lámpara. El canario tirita
contra la luz, al margen del pensamiento y el sueño.
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  Luís Valle. Causa de Nieve. Madrid: Amargord, 2021, p 39.
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domingo, 17 de setembro de 2023


              Cabelos brancos


Não repares na cor dos meus cabelos
Sem ler primeiro Anacreonte;
Verás que os sonhos juvenis, mais belos,
Também se evolam de enrugada fronte.

O espírito do poeta é sempre moço;
O coração nunca envelhece ...
Basta um sorriso, um nada, um alvoroço,
E tudo nele se ilumina e aquece.

Deusas de eterna graça adolescente,
Jamais as Musas desdenharam
Da luz que treme incendiando o poente,
Dos rouxinóis que ao pôr do sol cantaram.

Fina e frágil vergôntea melindrosa,
Que foi na ceifa abandonada,
Ruth, apesar de moça e de formosa,
Nos braços de Booz dorme encantada.

Quantas flores de inédita fragrância
Em mãos provectas vão abrindo...
Abisag, ao sair quase da infância,
No leito de David entrou sorrindo.

E desse beijo, inverno e primavera,
Desse conúbio, ó maravilha!,
Como se a ruína fecundasse a hera
Veio à luz uma estrela, que ainda brilha.

Esculturais patrícias, de olhos ledos,
Quem as lembrara, se deixassem
Que mãos obscuras, mercenários dedos,
A velhice de Horácio engrinaldassem?

Quantos nomes ilustres! quantos casos!
Mas que  direi mais eloquente?
Não há dias tão pálidos, e ocasos
Como explosões de uma cratera ardente?

Não repares na cor dos meus cabelos;
A branda luz que neles arde,
Como o poente, das nuvens faz castelos,
Tinge de alva o crepúsculo da tarde...

Muita vez os cabelos embranquecem
Na dor de horríveis sofrimentos...
Não são os anos que nos envelhecem;
São certas horas más, certos momentos...
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 António Feijó. Poesia Portuguesa do Século XII a 1915. Lisboa: Editorial Verbo, 1972, pp 209-210 (Organização de Cabral do Nascimento).
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quinta-feira, 14 de setembro de 2023


        O escravo de Assurbanipal


Ser escravo do grande rei Assurbanipal,
o senhor do Universo,
era melhor que ser seu conselheiro ou o seu rei vassalo.
O posto de conselheiro era particularmente inseguro.
A ira do grande rei era a do leão sanguinário.
Numerosos conselheiros foram esfolados.
O trabalho de escravo era, pelo contrário, tolerável,
devido a uma disposição do grande rei,
segundo a qual escravos, cavalos e cães deviam ser
tratados por igual
e estar, além disso, bem alimentados e patentear um
aspecto agradável durante a sua permanência no palácio.
Como esta disposição se cumpria escrupulosamente
e como os próprios escravos contribuíam para dar
uma impressão de limpeza,
sobrevivi, enquanto escravo, a muitos conselheiros.
Nem sequer o astuto Kasabuk
- perito em fúrias de leão -
logrou sobreviver-me.
A sua pele foi estendida no muro da Ira
enquanto a minha pele era jungida diariamente
para o serviço de sentinela.
Eu pertencia à Guarda Aromática.

Cada dia à hora da lavagem
limpavam-me e tratavam-me
com a mesma escrupulosidade dada a um cavalo de caça
ou a um cão do palácio.
Assim pude viver muito tempo
enquanto muitas notáveis personalidades
eram queimadas como diligentes traças
pelo Grande Rei,
a Lâmpada das lâmpadas.
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 Harry Martison. O destino da árvore é transformar-se em papel, Antologia de poesia sueca. Lisboa: ed. contracapa, 2021, pp 29-30 (Versão portuguesa de Amadeu Baptista).
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sábado, 9 de setembro de 2023


consigo ouvir o gemido de um pássaro
       talvez um maçarico
       ferido de medo ou morte
       ou tão só de abandono


estou dentro do piano
feita de aço
habitada por cordas e martelos
teclas e alavancas
estou enterrada viva
em vez de lápide
tenho uma partitura

*

começo pouco a pouco
       a esquecer-me de ti
       e do trilho das pedras que nos levava ao rio
       e do cheiro das velas
       e do rebanho a remoer o pasto


mas porque um fio de luz
vindo não sei de onde
ilumina o silêncio deste cativeiro
eu por instantes sinto-me poeta
e estou a fazer versos
       debaixo de um ulmeiro


  Teresa Alvarez. a sublimação dos metais. Fafe: Editora Labirinto, 2022, pp 45-46.
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sexta-feira, 8 de setembro de 2023


              O amor incorrigível


Todo o amor é incorrigível, essa
Rara identificação que as almas
Fazem e os corpos autenticam
Com sobressaltos e poderes ignorados,


Que são impossíveis de vencer.
Todo o ardor é inquebrantável,
A lenta e densa anuência que se acumula
Nas praias em que o mar às vezes


Deixa de ser mar para ser augúrio
E benefício. Toda as perguntas
São intoleráveis, as que se enleiam


Nas mãos e nos cabelos, as que
Nada sabem de nós mas são terríveis
Na obscura cartografia do deserto.
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 Amadeu Baptista. Os amantes separados. Fafe: Editora Labirinto, 2023, p 26.
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sábado, 2 de setembro de 2023

 

          A Existência de Deus e o Argumento Ontológico em Leibniz - 2ª Parte (1)


Não é absolutamente clara a posição de Leibniz acerca do número de versões independentes que o argumento ontológico admite, nem acerca das relações das diversas formulações entre si. Repete continuamente que lhe parece preferível o enunciado modal do argumento ontológico mas, além de nunca desqualificar a versão cartesiana, as primeiras tentativas que faz para corrigir ou completar o argumento visam a formulação que parte da ideia de Deus como "ser perfeitíssimo". Nuns casos, o argumento modal aparece como uma formulação mais breve e menos problemática do mesmo argumento, sendo - diz Leibniz explicitamente - não outro argumento, mas uma variante do de Descartes. Noutros casos, refere-se às duas versões como a dois argumentos, sustentando que é possível partir tanto de uma ideia de Deus como da outra, dado que as duas formas de considerar-se a noção da divindade são igualmente legítimas (...).

As formulações mais frequentes nos textos de Leibniz são as duas referidas anteriormente, mas não são as únicas. Leibniz deixa entrever em mais de uma ocasião que as formulações de Descartes e de S. Anselmo não coincidem exactamente. Segundo S. Anselmo Deus deve ser definido como "o ser maior do que o qual nada pode ser pensado": há uma espécie de quantificação da realidade (...) Em Descartes, por seu lado, a "quantidade de realidade" apresenta-se como "máxima perfeição" e traduz-se em termos formais ou qualitativos: Deus é o ser "maximamente perfeito" ou o ser que "possui todas as perfeições" e a própria existência é uma dessas perfeições. Leibniz não considera estas duas definições de Deus absolutamente equivalentes, e parece mesmo estar mais perto da posição anselmiana (...) A razão de que assim seja reside provavelmente no facto de Leibniz não encontrar erros de forma em nenhuma das formulações que menciona: o argumento ontológico possui clareza argumentativa, o que lhe falta não tem que ver com a estrutura do próprio argumento, mas com um pressuposto seu que não foi suficientemente estabelecido, que foi ocultado ou omitido. Por isso, na maioria dos casos, limita-se a indicar a falha ou deficiência, para afirmar de seguida que, uma vez superada essa falha, a existência de Deus se segue imediatamente (...)

Como se indicou, Leibniz refere a formulação anselmiana em diversas ocasiões, mas não a reproduz directamente, fá-lo apenas através de leitura e da crítica de Tomás de Aquino (...) Acerca desta formulação indica: a) que coincide com a que parte da definição de Deus como Ens perfectissimum; b) que não é um argumento que se deva ou possa refutar, como erroneamente pretendeu Tomás de Aquino, mas que "carece de um suplemento": falta provar que as noções de "Ens quod non posse non esse" e de "Ens maximum seu perfectissimum" são possíveis.

(...) Leibniz apresenta a formulação cartesiana como uma "renovação" do argumento escolástico,(...) é possível que queira assinalar apenas que Descartes não tem o mérito da originalidade-, mas assinala claramente as duas variantes (...) A existência é apresentada como uma das notas do conceito de Ente perfeitíssimo (...) Trata-se - acrescenta ainda Leibniz - de um argumento imperfeito, posto que não é evidente que o conceito de ser perfeitíssimo seja possível. Para o transformar numa autêntica demonstração - conclui - é necessária uma metafísica mais profunda do que a cartesiana.

O argumento cartesiano tem a seguinte formulação: "Deus est Ens perfectissimum, de Entis perfectissimi conceptu est existentia (quippe quae est ex perfectionum numero), Ergo Deus existit."

Assim enunciado, o argumento não tem valor absoluto mas meramente hipotético e, para ser completado, necessita que se prove que o Ser perfeitíssimo não implica contradição e que a existência pertence ao número das perfeições.

(...) No registo da conversa que manteve com Eckhard, em Abril de 1677, Leibniz apresenta-o do seguinte modo: "Ena de cuius essentia est existentia necessario existit. Deus est Ens de cuius essentia est existentia. Ergo Deus necessario existit".

A estrutura do argumento é a mesma, o que muda é a definição de Deus de que se parte. Leibniz salienta no entanto que se trata de uma definição de Deus de pelo menos tão fácil aceitação como a anterior, que o definia como "ser perfeitíssimo", e que nos liberta da necessidade de definir a perfeição e de estabelecer que a própria existência é uma perfeição. Não é a versão que Leibniz apresenta com maior frequência (...) O que neste caso fica ainda por provar - e que deve ser provado para completar o argumento - é que o ser a cuja essência pertence a existência é possível.

(...) Em todo o caso, continua por provar a possibilidade da noção de Deus. Leibniz começa por advertir que a definição de Deus de que parte é uma definição já aceite pelos escolásticos, uma definição que pode, portanto, merecer o mesmo acolhimento e aceitação que mereceu a utilizada por Descartes. Mas o que é sobretudo significativo nesta formulação é o uso que é feito do concito de "possibilidade", um conceito que passa a ser, com a correção proposta por Leibniz, o eixo em torno do qual gira todo o argumento. (...) como haverá ocasião de salientar, é claro que a possibilidade não é usada nos dois casos no mesmo sentido: num caso entende-se em sentido metafísico, como aptidão para existir, no outro em sentido lógico, como ausência de contradição. Aliás, o próprio Leibniz reconhece, pelo menos indirectamente, que os dois sentidos não coincidem, ao distinguir dois sentidos de impossibilidade (...) Da capacidade de articular estes dois sentidos da possibilidade depende a consistência da argumentação leibniiziana em torno do argumento ontológico e também, em grande medida, o próprio projecto leibniziano no seu todo.

A preocupação por dar à sua formulação a aparência, também exterior, de um argumento em forma leva Leibniz a apresentá-lo como um silogismo. É assim a versão que propõe a Bierling: "Ens, ex cujus essentia sequitur existentia, si est possibile (seu si habet essentiam) existit (est axioma identicum seu indemonstrabile). Deus est Ens, ex cujus Essentia sequitur existentia (est definitio): Ergo Deus, si est possibilis, existit. Q.E.D."

Este texto yardio constitui provavelmente o enunciado mais depurado do argumento: tem a forma de um silogismo correcto e, além de enunciar na premissa maior, como requeria o rigor, a cláusula da possibilidade de Deus, entendido como o ser de cuja essência se segue a existência, as suas premissas são verdades irrefutáveis - a premissa maior é um axioma idêntico e a premissa menor uma definição. Trata-se - esclarece Leibniz no mesmo texto - de um "silogismo primitivo", isto é, de um silogismo sem pressupostos não explicitados. Um silogismo que prova absolutamente ou que demonstra, não propriamente a existência de Deus, mas o privilégio da natureza divina que funda a prova ontológica: que a mera possibilidade basta para garantir a actualidade.

A conveniência de não incluir a referência à perfeição na formulação do argumento ontológico é recorrente nos textos de Leibniz: a sua versão do argumento, justamente porque não inclui essa referência, é mais breve, mais simples, mais rigorosa (...).

A formulação que parte da definição de Deus como "Ser de cuja essência se segue a existência", além de contornar, pelo menos de início, as dificuldades decorrentes de pensar a compatibilidade de todas as perfeições, destaca o carácter especificamente "onto-lógico" do argumento (...)

Uma nova versão, de novo silogística, da formulação preferida de Leibniz encontra-se nas Animadversiones in partem generalem Principiorum Cartesianorum. Diz assim:"Ens necessarium existit (seu Ens de cujus Essentia est Existentia, sive Ens a se existit) ut ex terminis patet. Jam Deus est Ens tale (ex Dei definitione), Ergo Deus existit".

(...) Leibniz apresenta-a como alternativa ao argumento cartesiano, esclarecendo que, em ambos os casos, o seu e o de Descartes, a verdade da conclusão está dependente da prova da possibilidade do ser necessário ou do ser perfeitíssimo.

Sem ser exaustivo, o elenco das formulações referidas ilustra com suficiente amplitude o conjunto de versões do argumento ontológico com que Leibniz entrou em contacto e os aspectos essenciais das diversas variantes que ele próprio propôs. O ponto comum a todas as formulações é, como se viu, que o argumento precisa de ser completado, e que o complemento em falta é a demonstração da +possibilidade da noção de Deus, qualquer que seja a definição de Deus de que se parta.

O argumento ontológico, nas suas diferentes formulações, carece de um suplemento ou de um complemento que lhe confira o carácter de uma prova geométrica. A natureza do que falta pode ser considerada de múltiplas perspectivas: o argumento, que é bom vi formae, carece de clareza nas noções, ou seja, não é perfeito vi materiae. Este complemento de que carece a versão tradicional, cartesiana, decorre de um erro de método: de uma dissimulação dos pressupostos, ou de um abuso das ideias, que o torna frágil e, em última instância, improcedente. (...).

Vários cartesianos interlocutores de Leibniz reconhecem a pertinência desta exigência, mas habitualmente divergem dele na convicção de que Descartes a satisfez. Com efeito, Descartes apontava para essa exigência do raciocínio ao indicar que só pode ser atribuído a um objecto o que está "clara e distintamente" contido na noção desse objecto. A clareza e distinção entendem-se, assim, como marcas da possibilidade da noção em questão e, portanto, como fundamento suficiente da legitimidade da inferência. Leibniz considera insatisfatório e injustificado este fundamento. É a possibilidade que funda a clareza e distinção, não estas aquela. Assim, enquanto Descartes invoca a clareza e distinção ou a evidência da noção humana de Deus para fundamentar a sua versão do argumento, Leibniz exige a prova da não contradição interna das suas notas. Um e outro invocam, em última instância, a possibilidade como fundamento, mas concebem-na de modo de modo diverso: para Leibniz, o que é preciso assegurar é a possibilidade lógica da noção de Deus, a ausência de negação e, portanto, a impossibilidade  de contradição das suas nota; para Descartes, a possibilidade em questão é intuída, não é nem pode ser dada analiticamente.

(...) Só uma mudança de método permite completar a prova. A mudança consiste em abandonar o que se poderia considerar uma certa "psicologização" ou "subjectivação" da possibilidade, e propor em seu lugar uma "logicização" ou "objectivação" do critério da verdade ou da possibilidade das noções. Em virtude dessa logicização, a possibilidade de uma noção complexa, como é a noção de Deus, não se capta de forma simultaneamente intuitiva e sintética, como pretendia Descartes, mas apenas de modo analítico e construtivo. Esta mudança de método é também a que instaura a characteristica universalis, e por isso o fundamento da prova a priori identifica-se com o da characteristica e os desenvolvimentos de uma e de outra vão a par. (...)

(...) Que a ideia de Deus seja uma ideia inata, que haja em nós a capacidade de actualizá-la independentemente de circunstâncias exteriores, ou que se admita que seja uma ideia adquirida, como pretende por exemplo Locke, e que a definição de Deus seja convencional ou arbitrária, nada disso tem qualquer repercussão nem no argumento nem no seu aperfeiçoamento. A exigência requerida por Leibniz é prévia à conceptualização de Deus e evidentemente prévia à definição - mais ou menos arbitrária - que apresentemos dele: é precisamente a sua condição de possibilidade a parte rei. O que se trata de assegurar é que o objecto ideal da noção, o seu conteúdo material, por assim dizer, é um conteúdo coerente ou possível. Se for esse o caso, a noção é verdadeira, ou seja, é a noção de algo real.

Assim pois, uma vez que o único ou pelo menos o principal defeito do argumento reside no seu ponto de partida, a sua conclusão ou aperfeiçoamento consiste em provar que o conceito de Deus é um conceito possível ou real, a que corresponde uma autêntica essência, isto é, consiste em procurar uma definição real de Deus.

Na imensa maioria dos casos, Leibniz considera que este é o único requisito que falta preencher para que a prova seja uma prova geométrica. Esta exigência tem de ser preenchida qualquer que seja a formulação do argumento. (...) Como se viu, no ponto de partida de cada uma delas está a definição de Deus, entendido nuns casos como "ser maior do que o qual nada pode ser pensado" ou como "ser máximo", noutros como "ser perfeitíssimo", noutros ainda como "Ens per se" ou como "ser necessário". Ao criticar ou desenvolver estas diversas formulações surgem, no entanto, variantes das próprias definições (...)

É claro o que falta para completar o argumento. É menos claro que isso que falta seja realizável, isto é, que o argumento ontológico possa ser algo mais do que uma boa ideia ou do que um argumento dotado de certeza moral. A dificuldade - como Leibniz acaba por reconhecer - é que realmente não possuímos a ideia de Deus. Temos evidentemente definições de Deus, mas não temos uma ideia adequada do ser perfeitíssimo ou do ser necessário. A razão é fácil de compreender. Leibniz explica-a detidamente no De Mente, de Universo, de Deo. A ideia de Deus é uma ideia complexa, formada por múltiplos atributos positivos simples e só Deus é capaz de ter uma ideia adequada de essências complexas deste tipo, porque só Ele é capaz de pensar simultaneamente todos os seus requisitos. Nós, os homens, temos ideias das coisas simples, mas só temos representações simbólicas - fundadas em caracteres - das realidades complexas. (...)

Leibniz tentou a prova da possibilidade da noção de Deus, tanto entendido como ser perfeitíssimo, como entendido como ser necessário. A primeira tentativa, elaborada em Novembro de 1676, resulta de uma discussão com Spinoza em Haia e foi preparada para precisar e prosseguir a discussão. (...) A demonstração da possibilidade do ser necessário encontra-se na nota em que comenta o argumento para demonstrar a existência de Deus de Lamy. Nesse texto, Leibniz não só apresenta autonomamente os dois enunciados do argumento ontológico, como menciona autonomamente os respectivos complementos. Depois de enunciar as duas versões do argumento, já referidas,  e de advertir  que quem nega a possibilidade de inferir uma existência a partir de uma noção nega a própria a própria possibilidade de Deus (...) Prossegue com a explicação da prova da possibilidade do ser necessário e conclui: "Il semble que cette demonstration n' avoit pas été portée si loin jusqu' icy: cependant j' ay travaillé aussi ailleurs à prouver que l' Estre parfait est possible."

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Marta de Mendonça in "A Questão de Deus na História da Filosofia, Vol. I". Sintra: Zéfiro, 2008, pp 356-364 (Coordenação de Maria Leonor Xavier).

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(1) A 1ª Parte deste Ensaio pode ser consultada na rubrica relativa ao autor, na "lista dos autores".

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sexta-feira, 18 de agosto de 2023


Nos dias 23, 24 e 25 de setembro decorrerão, a partir da Colômbia, as Comemorações do Centenário do Nascimento de Alvaro Mutis, um dos maiores escritores hispano-americanos vencedor do Prémio Cervantes, Prémio Príncipe das Astúrias e Prémio Médicis.
Segue-se a lista dos autores que irão intervir nestas comemorações:
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CENTENARIO MUTIS
POETAS CELEBRANTES
Marisol Bohórquez (Concord, California)
Martha Canfield (Florencia, Italia)
Elizabeth Córdoba (Duitama, Colombia)
Ensuncho De La Bárcena (Medellín, Colombia)
Hugo De Mendoza (Ciudad de México)
Felipe Donoso (Bogotá, Colombia)
Raffaela Fazio (Roma, Italia)
Luz Giraldo (Bogotá, Colombia)
Margarita Losada Vargas (Puebla, México)
João Vanderlei de Moraes Filho (Cachoeira, Bahía)
Nuno Júdice (Lisboa, Portugal)
Lauren Mendinueta (Lisboa, Portugal)
Victor Oliveira Mateus (Lisboa, Portugal)
María Fernanda Sucerquia (Barranquilla, Colombia)
Diego Valverde Villena (La Paz, Bolivia)
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quinta-feira, 17 de agosto de 2023


Claro que sou seu amigo, homem: mas, apesar de todas as amizades, sempre na vida estamos sozinhos; o que é mais grave, mais doloroso, exactamente como o que é mais belo, passa-se apenas connosco. Entre um homem e outro homem há barreiras que nunca se transpõem. Só sabemos, seguramente, de uma amizade ou de um amor: o que temos pelos outros. De que os outros nos amem nunca poderemos estar certos. E é por isso talvez que a grande amizade e o grande amor são aqueles que dão sem pedir, que fazem e não esperam ser feitos; que são sempre voz activa, não passiva.
 Quanto mais o Luís se sentir só, melhor irá; mas há duas espécies de solidão: uma, que vem de  não acompanharmos os outros, outra que vem de nos não acompanharem eles; a segunda é que vale: esteja sempre com os homens e faça o possível porque eles não estejam consigo. Ser companheiro vale mais do que ser chefe. (...) a sua superioridade, se existir, deve ser como um bálsamo nas feridas, deve consolá-los, aliviar-lhes as dores. A sua grandeza, querido amigo, deve servir para os tornar grandes, no que lhes é possível, não para os humilhar, para os lançar no desespero, no rancor, na inveja. Vai ser esta para você a mais difícil de todas as artes (...) Para o pai não existe a sua própria altura, existe a pequenez dos filhos; e por isso os pais se curvam para eles, e os acariciam e os tomam nos braços, e já são grandes, Luís, e descobrem, erguidos ao alto, os horizontes que o pai nem sonha. (...) Quem tem a consciência de que é alto e o afirma a si próprio e aos outros com orgulho, efectivamente não o é, porque nem sabe o que é ser alto; que noção poderá ter de altura o que só olha para baixo? Picos de montes, rastos de nuvens, eis o que vale.
Há muitos meios, amigo Luís, em que é muito difícil não tomar grandes ares, ou porque tudo à volta é bastante inferior ou porque os muros do orgulho se levantam como num castelo de defesa. Mas serão, de facto, todas as culpas do ambiente? Não haverá nos homens as fraquezas que se reconhecem no meio?
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  Agostinho da Silva. Sete cartas a um jovem filósofo, seguidas de outros documentos para o estudo de José Kertchy Navarro. Almada: Ulmeiro, 1995 - 3ª Edição, pp 72-73.
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segunda-feira, 14 de agosto de 2023


                  Sonnet  104

To me, fair friend, you never can be old,
For as you were when first your eye I eyed,
Such seems your beauty still. Three winters cold
Have from the forests shook three summers' pride,
Three beauteous springs to yellow autumn turned
In process of the seasons have I seen,
Three April perfumes in three hot Junes burned,
Since first I saw you fresh, which yet are green.
Ah, yet doth beauty like a dial hand,
Steal from his figure, and no pace perceived;
So your sweet hue, which methinks still doth stand,
Hath motion, and mine eye may be deceived;
    For fear of which, hear this, thou age unbred:
    Ere you were born was beauty's summer dead.
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 William Shakespeare. 31 Sonetos. Lisboa: Relógio D' Água, 2015, p 58.
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Tradução de Ana Luísa Amaral:
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            Soneto 104

Para mim, belo amigo, nunca terás idade,
Pois tal como me foste, quando te olhei no olhar,
Assim me és: belo ainda. Três invernos medonhos
Agitaram dos ramos três Estios em esplendor.
Três gentis Primaveras se tornaram Outonos,
Eu vi as estações em constante mudar,
Três perfumes de Abril queimados por três Junhos
Desde que então te vi; e ainda: igual frescor.
Ah! Porém, a beleza, sem passo percebido,
Como braço do tempo recua, rouba a forma;
E a tua doce cor, parecendo não mudar,
Varia na mudança, pode iludir-me o olhar.
    Para que tal não fora, escutais, vós, por nascer:
    Antes de vós nascerdes, o mais belo morrera.
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William Shakespeare, idem, Tradução de Ana Luísa Amaral, p 59.
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quarta-feira, 9 de agosto de 2023


    Afán


La poesía como el amor,
se escribe cada día.
No basta el poema de ayer
y el amor no descansa.


Algo nos queda siempre sin decir
bajo los versos,
flotando entre los brazos
y los ojos dela poema.
Igual que una piel,
al despegarse de otra piel,
donde la plenitud de dos
cae en la soledad
que renueva el deseo.


Por eso, como la noche
inevitablemente
despierta en la mañana.
siempre vuelvo a escribir poemas,
vuelvo siempre a perderme en ti.
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  Ángeles Mora. Ficciones para una autobiografia. Madrid: Bartleby Editores, 20\5, p 53.
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Tradução de Victor Oliveira Mateus


       Afã


A poesia, tal como o amor,
escreve-se todos os dias.
Não basta o poema de ontem
nem o amor descansa.


Fica sempre algo por dizer
debaixo dos versos,
flutuando nos braços
e nos olhos do poema.
Assim como uma pele,
ao desprender-se de outra pele,
partindo da plenitude de dois
cai numa solidão
que renova o desejo.


Por isso, assim como a noite
inevitavelmente
desperta pela manhã,
também eu volto a escrever poemas,
e volto sempre a perder-me em ti.
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sábado, 5 de agosto de 2023


       A Existência de Deus e o Argumento Ontológico em Leibniz - 1ª Parte

.Leibniz admite e apresenta os dois tipos de provas. Mas o seu juízo sobre umas e outras não coincide: as provas "a priori" são mais fáceis, mas as provas "a posteriori" são preferíveis e mais perfeitas, porque estabelecem o Absoluto ou o necessário sem a mediação do relativo ou do contingente. Nas provas "a posteriori", Deus é alcançado como condição necessária e suficiente de algum aspecto da realidade acessível ao homem; é captado a partir de um ângulo estreito, redutor, por assim dizer; como fundamento do que é "ab alio" e apenas nessa medida. Mas Deus não se reduz a ser causa primeira ou razão última; e só o é verdadeiramente numa consideração relativa às criaturas, não em si mesmo. Ora, tudo o resto, a realidade de Deus enquanto desvinculada e "a se", está ausente na apresentação do Deus que é demonstrado pelas provas "a posteriori".

(...) Leibniz deixa constância, desde muito cedo, do seu conhecimento do argumento anselmiano. As primeiras referências são, no entanto, puramente históricas: o argumento existe e, desde a sua formulação inicial por S. Anselmo, não deixou de ser sucessivamente reformulado ou criticado (...) O seu juízo é, nesse momento inicial, tão sumário quanto negativo: trata-se de um paralogismo.

(...) O juízo que formula então - trata-se de um argumento válido, mas imperfeito ou de um argumento perfeito, mas incompleto - será o que prevalecerá até ao final da vida. Assim, a partir de meados da década de 70, a atenção que Leibniz dedica ao argumento ontológico vai no sentido de denunciar os defeitos das formulações anteriores e de corrigir - tornando-o finalmente demonstrativo - um argumento que, a seu ver, é válido mas ainda não foi correctamente formulado. Ou, mais precisamente, Leibniz procura uma formulação que confira à demonstração "a priori" da existência de Deus o rigor das provas geométricas. (...) Leibniz apresenta-se a si mesmo como ocupando uma posição intermédia entre os defensores incondicionais do argumento - Eckhard, Tschirnhaus, Jaquelot, Spinoza, Lamy, etc. - e os seus críticos radicais - Huthmann, Locke, Stillingfleet, Toland, Conring, Samuel Parker, Samuel Werenfels, etc. -, que consideravam que não estamos em condições de produzir uma prova "a priori" da existência de Deus, quer porque não possuímos a ideia do ser maximamente perfeito, quer porque o trânsito da ideia à realidade extra-mental, que a prova pretende poder explicar, é um trânsito ilícito. (...) uma análise mesmo sumária (...) mostra que Leibniz tinha em vista também outro combate: o combate contra o cartesianismo.

As críticas ao argumento ontológico que Leibniz conhece e a que faz alusão centravam-se num dos dois aspectos seguintes, ou em ambos: a) a prova é impossível porque não possuímos uma ideia adequada de Deus, da qual seja possível inferir a existência; b) mesmo admitindo que temos uma ideia de Deus - e que seja possível, portanto, assegurar o ponto de partida da prova - não é possível, em todo o caso, realizar o trânsito da ideia à realidade extra-mental, que a prova pretende levar a cabo. A primeira crítica atingia o ponto de partida do argumento; a segunda nega a própria possibilidade de uma prova "a priori", Leibniz considera desajustadas as duas críticas e defende uma e outra vez o valor do argumento anselmiano: é possível assegurar que possuímos uma verdadeira ideia de Deus (...) Leibniz pronuncia-se sempre do mesmo modo sobre as diversas versões do argumento ontológico que conheceu, incluindo a que ele próprio elaborou: trata-se de um argumento válido (...). O erro que subjaz a todas as formulações não é, portanto, de concepção, mas sim metodológico (...) Tal como se encontra formulado, mesmo apesar da sua imperfeição, o argumento tem, no entanto, um valor particular (´...) é possível inferir dele um enunciado no qual a existência de Deus se apresenta como dotada da máxima probabilidade.(...) Quer isto dizer que quem pretender provar "a priori" a existência de Deus só precisa de provar a sua possibilidade; e, reciprocamente, quem pretender negar o argumento ontológico só poderá fazê-lo negando a possibilidade de Deus, estabelecendo positivamente a sua impossibilidade (...) O argumento ontológico tem, portanto, a virtualidade de transferir o ónus da prova para os adversários: é quem o põe em causa que terá de provar a sua falsidade, provando a impossibilidade de Deus, dado que a presunção está sempre do lado da possibilidade de Deus.

Mas que a probabilidade da conclusão do argumento seja máxima e que o seu enunciado condicional seja absolutamente verdadeiro não significa - convém insistir - que o argumento, tal como foi formulado, e sucessivamente reformulado, não seja um argumento que não prova, que não revela absolutamente, mas apenas hipoteticamente, a existência de Deus. Aliás, só assim se compreende que Leibniz não hesite em acusar uma e outra vez de ateísmo tanto Descartes como Spinoza, precisamente dois grandes defensores do argumento ontológico.

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Marta de Mendonça in "A Questão de Deus na História da Filosofia, Vol. I", Sintra: Zéfiro, 2008, pp 351-356 (Coordenação de Maria Leonor Xavier).

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quarta-feira, 2 de agosto de 2023


    Te pareces a mi cuando amanezco


Me levanto descalza entre la ropa,
desdoblo mis vestidos con cuidado,
busco bajo las sillas algo tuyo,
espero a que mi casa se llene de autobuses,
me dirás que el rocío no llega al quinto piso
pero abro la ventana,
trato de recordar alguna cosa,
reconozco mi rostro en el espejo,
me propongo leer a Pasolini
y no perder el tiempo demasiado
ensayando la cara que pondré
cuando te encuentre,
escucho los murmullos que llegan de la calle,
aparto las botellas que dejaste en el suelo,
descubro en los cristales un mensaje,
recojo las cortinas con una cinta roja,
me salgo de la noche
     dando
          saltos.
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  Teresa Gómez. Plaza de abastos. Sevilla: Vandalia, 2022, p 111.
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Tradução de Victor Oliveira Mateus:

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Pareces-te comigo quando amanheço


Levanto-me descalça por entre a roupa,
desdobro os meus vestidos com cuidado,
procuro debaixo das cadeiras algo teu,
espero que a minha casa se encha de autocarros,
dir-me-ás que o orvalho não chega ao quinto andar
no entanto abro a janela,
tento recordar alguma coisa,
reconheço o meu rosto no espelho,
proponho-me ler Pasolini
e não perder demasiado tempo
ensaiando a cara que porei
quando te reencontrar,
escuto os tumultos que me chegam da rua,
afasto as garrafas que deixaste pelo chão,
descuro nos vidros uma mensagem,
prendo as cortinas com uma cinta vermelha,
saio para a noite
aos saltos.
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domingo, 23 de julho de 2023


        A porta azul


Uma porta azul ferrete com um postigo,
abram-ma depressa. Que seja repentina,
dura, difícil de encontrar. Que tenha
tábuas com sinais de anos enormes
e esteja fechada a cadeado. Uma porta
é sempre a salvação não sei de quê,
um sorvedoiro, um rastejar à volta da mudança.
Não sei se esta porta é para o passado.
Quando a suspeito azul bem mais azul
que o pensamento, sei que esse mistério
irá descobrir o meu lugar. Um olho
de deus e do inferno, se eu acreditasse.
Abram-me esta porta, pintada e repintada,
azul para além do ar. Nem eu nem ela
sabemos para onde abre.


  Isabel Cristina Pires. O Planeta Irreal. Vila Nova de Famalicão: Edições Húmus, 2023, p 60.
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quarta-feira, 19 de julho de 2023


E l'anima è defluita, quasi sedimentosa,
e sono avunque le sue macchie,
grasse, non le pulirai,
solo il corpo s'erge, invulnerabile,
il vulnus è dentro,
io sono fuori.


 Aleksandr Malinin. Pelle e Ossa. Sannicola: I Quaderno del Bardo, 2022, p 49 (Prefazione di Alberto Pellegatta, Traduzione dal russo di Paolo Galvagni).
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E a alma é um escoamento quase sedimentado,
e estão por toda a parte as suas nódoas,
gordurosas, ninguém as limpará,
apenas o corpo permanece, inalterável,
a chaga está por dentro,
eu estou cá fora.
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Tradução de Victor Oliveira Mateus a partir da versão italiana, in Nº 8 da Revista Oresteia.
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terça-feira, 18 de julho de 2023

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divagam sobre a ausência presumida na existência.
as sístoles, tão dolorosas à noite,
ressoam o apertado dilema da ubiquidade,
e nada disto é aleatório ou alheio ao coração.
desfazem tensões acumuladas, ao mesmo tempo que se
calam para não amargar a sua ausência.
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 Maria José Quintela. Morrer e depois. Fafe: Editora Labirinto, 2023, p 45.
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sexta-feira, 14 de julho de 2023


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Dois poemas em inglês publicados recentemente na Atunis Galaxy Anthology 2024 - World Poetry. O presente número encontra-se online e foi editado a partir da Bélgica.

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domingo, 9 de julho de 2023



   Deus depois de Auschwitz: uma reflexão a partir de Hans Jonas

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(…) Jonas não nega, certamente, o evento histórico que Auschwitz constitui. Não aborda, porém, a questão sob uma perspectiva histórica, empenhada na descrição da conjuntura económica, política e social, no relevamento dos seus fundamentos, na averiguação das suas implicações e na sua consequente integração num esquema de causalidade onde adquire sentido e finalidade. O mal historicamente enunciado em Auschwitz recusa, com efeito, a sua confirmação a quadros de pensamento já elaborados, gerando uma cisão que recusa em absoluto o âmbito da justificação e da compreensão. Sob o espectro deste absurdo que o séc. XX testemunhou, estremece a própria noção de Deus, considerado nos seus atributos tradicionais – bondade, inteligibilidade e omnipotência. A capacidade que Hans Jonas reconhece a um acontecimento, não só para questionar a ideia metafísica de Deus, como sobretudo para simbolizar a experiência de um mal sem precedentes (…) Na verdade, da reflexão do filósofo alemão depreendemos, não a prova racional da existência de Deus, mas a possibilidade mesma de uma crença religiosa “depois de Auschwitz” a partir de um conceito de Deus capaz de resistir à evidência de um mal excessivo no mundo que, não sendo apenas obra humana, não pode ser também obra de uma divindade essencialmente bondosa. (…) A tarefa da regeneração do conceito de Deus empreendida por Jonas não cede, por conseguinte, à revivificação da crença num Deus que que compreende ou abarca em si mesmo a experiência do sofrimento (…) mas consolida-se, antes, como demanda de um Deus consentâneo com a inexplicabilidade própria do mal. A voz de Auschwitz é, em última instância, o testemunho do silêncio divino. E é na sombra desse silêncio que a concepção metafísica de uma divindade simultaneamente bondosa, revelada e omnipotente se estilhaça. (…) Depreendendo destas palavras a impossibilidade de reconduzir Auschwitz à ideia de bem universal, anula-se e torna-se verdadeiramente indefensável a concepção de um sofrimento redentor. (…) O artigo de Hans Jonas sobre o qual fazemos incidir a nossa investigação – “O conceito de Deus depois de Auschwitz” – debruça-se justamente sobre este problema, reflectindo filosoficamente sobre os contornos deste Deus silencioso em Auschwitz, cuja mão foi incapaz de aí intervir. O conceito de Deus, proposto pelo autor, fundado na tradição judaica, não transcende, é certo, o horror dos campos de concentração nazi, esquecendo-o ou atenuando-o através de uma justificação racionalmente elaborada, mas impede, por outro lado, o seu completo desvanecimento perante o absurdo do mal. (…) Nesta concepção de um esvaziamento de Deus no mundo perpetua-se um acto de renúncia de ser – verbo doado às suas criaturas para que sejam. Recupera Hans Jonas, deste modo, a ideia do “Tzimtzum” da Cabala luriana, ao fazer coincidir o processo da ontogénese com um autodespojamento ou contracçção da Divindade (…) Esta abnegação de si pelo mundo é desvanecimento total de identidade e plenitude divinas porque completa pulverização pelas condições do espaço e do tempo. Imerso num constante devir, o verbo divino conjuga-se num passado, presente e futuro, dispersando-se no fluxo da evolução do real, não se reunindo em si como Ser Absoluto, regente “transhistórico” do Universo. E se este Deus pode ainda ser pensado como Deus-história, ele não mais é pensado como “senhor da História” cuja mão orienta o mundo segundo um projecto divino, mas apenas como um Deus que se temporaliza e se espacializa. Um completo despojamento de si no acto criador não permite que Deus permaneça além do mundo como transcendência que o dirige...A perda de si, inerente ao acto criador, lança a divindade numa viagem sem plano previamente traçado, mas que progressivamente se deixa delinear no fluxo do tempo e, particularmente, pelo resultado das decisões humanas (…) Simultâneamente, Deus oferece-se como máxima presença, porquanto o mundo não é senão divindade caída, e como máxima ausência (…) depois de Auschwitz, o conceito de Deus preserva ainda a sua essência bondosa e inteligível, mas abandona a omnipotência de um Deus que não evitou o sofrimento das suas criaturas. Desvela-se, então, a partir do Deus silencioso de Auschwitz, um Deus impotente que esgota todo o seu poder na totalidade da sua criação. Deposto no mundo – aquilo a que Hans Jonas chama “o grande teatro” -, ele não mais se ergue para o dirigir, mas sucumbe perante as suas forças, confiando o seu destino ao rumo do universo e, em particular, à mão humana. Deus na história não é rei, uma mão poderosa e providente, mas vassalo dos seus acontecimentos mundanos, esperando das suas criaturas um cuidado que ele, desprovido de poder, não pôde nem pode prestar.

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Filipa Afonso in “A Questão de Deus na História da Filosofia, Vol. II”. Sintra: Zéfiro, 2008, pp 933-942.

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Nota - Foto de Hans Jonas (1903/05/10 - 1993/02/05).

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sábado, 8 de julho de 2023


O mundo envelhece, às vezes aziago,
e nós esbanjamos todo o tempo nele.
Sei que é lamentável repetir, mas tu lembras-te
da neve a derreter no fundo raso dos olhos,
como era fácil imaginá-la sem um mapa à mão -
pendurávamos as palavras na corda do rosto
para que soasse tudo certeiro e bem-intencionado?
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Não era perdão o que pedíamos
nesses tempos altivos, era a carne branda
da companhia porque éramos jovens
e vagamente interessantes. A palavra amigo
não tinha sentido algum, era mais um copo de água
numa mesa onde não havia comida, só o tilintar
dos talheres de prata roubados num rasgo de fantasia.
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Hoje podes escrever-me todos os dias.
Não sou rico nem ressentido.
Se me vires na minha cadeira
de-trás-para-a-frente não perguntes -
assisto só aos campos neutros da história,
o costume: o rapaz que fazia poemas de guerra,
o intelectual solene e não-parisiense
que numa mesa de pé-de-galo compôs
muitos versos recalcados à mãe dele.
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Levo para todo o lado o meu cinto-faroeste,
mal me esqueço da minha manha bem disfarçada -
não sou eu que digo que o mundo envelhece,
são coisas que vou ouvindo na rude telefonia
ao passear pelo alpendre de quatro paredes.
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Quando é que ficámos interessantes?
Tu lembras-te. sim, quando ainda em jovens
trocávamos por graça a ordem dos acontecimentos:
fazíamos girar gaivotas nos tectos negros das roulottes
e derramávamos cerveja no areal a caminho do mar,
engolindo corpo e espírito numa espécie de autofagia,
tão bela, demente. Podes escrever-me todos os dias.
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  Frederico Pedreira. Coração Lento. Porto: Assírio & Alvim, 2021, pp 31-32.
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quarta-feira, 28 de junho de 2023

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Acaba de sair em Espanha Una casa al otro lado del mundo (Editorial Juglar, 2023) de Victor Oliveira Mateus com tradução do poeta Pedro Sánchez Sanz e Prólogo do Prof. Dr. Fernando Pinto do Amaral.
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