como uma ilha temos naufrágios por todos os lados
os pontos cardeais são exercícios de respiração
natação de almas perdidas
somos todos nós nós de gravata
passa a caravana do luxo
os cães ladram
de dentes nos moinhos
pés no deserto
ainda agora um magro e um gordo
por aqui passaram num cavalo magro
e num burro
duas ambiguidades divinas
atiram-se moedas ao ar e cavam-se fontes
fundam-se cidades romanas
somos enxame
estamos no chão do progresso
os números apressam-se no calendário
nos galhos da árvore dos antepassados
a modernidade é uma mãe
uma máquina de calcular
não chamem mãe à bela baleia branca
perdoem-lhe o tato
a perna do capitão
o fim não é o pior
o pior é o aprodrecimento
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José Gardeazabal. Viver Feliz Lá Fora. Lisboa: Relógio D' Água Editores, 2021, pp 35-36.
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