sábado, 11 de julho de 2020

Pré-publicação de um artigo que sairá dentro de semanas numa Revista Literária. 
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                                      Victor Oliveira Mateus

     
        Hugo Milhanas Machado: a meticulosa insurreição do verbo


O mais recente livro de Hugo Milhanas Machado (Estrela Tambor, Editora Labirinto, 2020) acentua e homogeneíza alguns dos temas e dos procedimentos estilísticos suscetíveis já de ser encontrados em livros seus anteriores. Esta obra está dividida em duas secções: um, Estrela, que integra um grupo de quarenta e quatro sonetos; dois, Tambor, composta por dez momentos de prosa poética a que o autor chama falas. Convém, no entanto, sublinhar que a opção do poeta pelo soneto se integra num intento mais geral e que é uma das traves mestras deste seu livro: o ir jogando com a tradição literária e, simultaneamente, o escangalhar dessa mesma tradição, vejamos: Milhanas Machado recusa, de modo deliberado, o soneto petrarquiano, bem como o soneto shakespeariano, com tudo o que isso implica de escansão e esquemas rimáticos, opta pelo soneto monostrófico todo ele em verso livre, já que é esse procedimento que melhor serve os seus propósitos: “Ia estranho, obscuras formas, soneto carnaval” (16:14, nas citações referentes a todos os livros o primeiro número será sempre relativo à página e os seguintes aos versos); “Tens o muro do catorze, a piscina da tradição” (24:1); “Domingo contigo ou a bomba no soneto” (50:9); “O segredo desfez o soneto, que a fibra da fala é a praia da frase, e assim monta e organiza os números de luz” (59:2-4).
Parece-me curial traçar um paralelismo entre o desígnio visado por Estrela Tambor e aquele outro que John E. Jackson assinala como subjacente ao projeto poético de Rimbaud (Cf. “la poésie et son autre”, pp 43-75), onde, para este especialista da poesia moderna, o poeta francês acaba levando à cena uma riquíssima Ópera Fabulosa em que a música e o teatro desempenham funções estruturantes, então, e pelo que aqui nos ocupa, poder-se-á dizer que HMM monta, não uma Ópera Fabulosa, mas uma Arquitetura Meticulosa cujas variáveis organizativas são: o lúdico-desportivo, a música (também) e o existencial incluindo este, por sua vez, o afetivo e a dimensão do trabalho. Contudo, toda esta arquitetura visa, e opera, um solo específico – o da escrita.
Como se disse acima, alguns destes elementos encontravam-se já esparsos em obras anteriores, embora ao serviço de grelhas concetuais e paradigmas diferentes dos de Estrela Tambor, exemplos: “acho que tento de longe tocar/ e que debaixo das estrelas aqui chegássemos/ acho que uma guitarra me vinha bem/ um bocado de música fosse um bocado/ de ti mas as partes de que mais gosto” ( In As Junções, 71:13-17); “O poema diz/ fecharam janelas em quartos/ e fomos nós” ( In Onde fingimos dormir como nos campismos, 71:7-10); “Eu querer só quero uma beca/ do teu coração/ a mais composta” (In Onde fingimos dormir como nos campismos, 76:12-15); “Meu corpo afinal é o mesmo/ e recordo doutro poema/ em que noutro poema eu tentava/ navios de barro à hora de jantar” ( In Supertubos, Poemas 2005-2015, 92:13-16). Se é possível, então, estabelecer convergências semânticas e estilísticas com livros anteriores de HMM, não restam também quaisquer dúvidas, que todos esses conceitos e processos se encontram agora ao serviço de um projeto distinto dos anteriores, como o poeta diz mesmo na Introdução da obra: “Faz a frase grande, e então prossegue. Lança letras e diz: faz luz chata, vem, é só a gente a continuar. A fola daqui é torta e violenta e também por isso merece o horizonte” (In Estrela Tambor, 7:26-29). Assim, estamos, com este livro, instalados em pleno território da escrita com toda a conflitualidade e horizontes a ela inerentes e, num regresso a John E. Jackson, faz todo o sentido traçar uma analogia com o que este ensaísta conclui acerca de Celan; “(…) existe (…) uma grelha verbal, uma barreira ou um filtro de palavras entre o sujeito e o ser. (…) a linguagem é menos um meio para diferenciar – para separar – do que para definir. Ou melhor, a linguagem (…) irrompe como um meio que distingue para definir” (In Op. Cit. p 97). Estamos, pois, neste momento, na posse de algumas das principais premissas que nos permitem compreender o principal da já citada arquitetura que Milhanas Machado se autopropõe levar a cabo com o presente livro.
Ao nível do sentido, Estrela Tambor dá-nos, na sua urdidura, aspetos curiosos e inusitados na poesia portuguesa contemporânea: a) a estreita convizinhança entre o jargão e/ou o mero linguajar de irreverentes  agrupamentos sociais específicos, aliás, muito mais esbatido aqui do que em livros anteriores deste autor (“nos bailes malucos” 16:7; “roupas beras” 38:12; “Estilo marado” 41:10; “buchas para depois lembrar.” 44:14) e um lirismo, que, muitas vezes, se tenta ocultar no corpo do poema e, em outras, afronta o leitor, como por exemplo através de diminutivos (“Pedimos o santo dos grandes guerreiros,/ Travar batalha na incandescência pirata/ Meu amor, intuir contigo a serrania.” 43:12-14 – seguindo de perto Martine Broda no seu L’amour du nom, e para o que aqui nos interessa, não importa se o “amor” mencionado por HMM no último verso do soneto da página 43 se refere à mulher amada, à escrita ou à missão que a si se impôs;  “ Essa recordação tomada nas coisinhas”, 51:11); b) um fusional (propositado) que opera no coração dos textos através de palavras e expressões provenientes de vários territórios do humano: o laboral, a escrita, o afetivo, o lúdico, etc.: “Curvavam longe, bravos patinadores/ Nessa alta nuvem de gelo e papel,/ Flor em punho o corpo despido,/ Imitam forte a universidade do cometa./ Com eles a defesa de uma semântica,/ Roladores de linha no pulso da página/ A curva vai e vem como o caminho./ Do saquinho da língua, país do osso naval/ Guardar os tesouros para saber quando cantar”” (39:1-10). Este modo de trazer o vivencial, nas suas múltiplas vertentes, para dentro da poesia e com isso questionar a tradição de modo a acenar com uma gramática outra, assemelha-se ao que Wordsworth fez, no seu tempo, com a natureza: “A Wordsworth concede-se geralmente o mérito de estar na primeira fila daqueles que descobriram e fizeram descobrir à poesia a natureza. O que ele, em primeiro lugar, parece-me, descobriu e fez descobrir sob esse nome, foi um modo de ver a paisagem, de fixar um sketch onde a natureza se apresentava a si própria, se manifestava como uma apresentação de si própria.” (Jacques Rancière, in “La politiques des poètes, pourquoi des poètes en temps de détresse”, p 98). Se neste excerto substituirmos o nome do poeta e as palavras “natureza” e “paisagem” por “escrita”, eis-nos no centro de Estrela Tambor!
Milhanas Machado consegue, neste seu livro, uma arquitetónica pluriforme, que sem perder de vista uma crítica à tradição literária não a escorraça completamente, deixando fugir mesmo, aqui e ali, alguns laivos de um enternecimento saudoso: “Velhos cantos de trazer à fogueira connosco/(…) Nos recantos destas casinhas que de longe habitámos” (24:2-4), contudo, o posicionamento do eu-poético, quer numa perspetiva literária quer mesmo numa outra de tipo ideológico, é bastante claro: o que se visa alcançar, não é um qualquer espartilhar da fala (atente-se à segunda parte do livro!), mas antes um Ser-em-Aberto, ou seja, um horizonte a montar num tempo futuro: “Essa bomba do texto que a gente vem dizer./ O mar batido nas confluências é bonito,/ Começamos o vocabulário dessa borriça/ Que rediz o valor e o transporte no tempo” (46:11-14); “São teus esses escritos que aí ficam/ E nós outra vez na mesma maneira,/ Estrela tambor, campismo a fingir.” (53:12-14).
A uma arquitetura filigranada, a uma poética especular onde os vocábulos surgem, por vezes impetuosamente, desvanecem-se, e logo irrompem mais além, como num enorme caleidoscópio dador de sentidos multiplicáveis e combináveis, a uma estratégia literária deste tipo terá de corresponder igualmente uma conceção do ritmo, da harmonia, distinta das conceções clássica e romântica, assim, penso que a poesia de Hugo Milhanas Machado encaixa perfeitamente num tipo de musicalidade diferente destas duas últimas aqui referidas, aproximando-se de harmonias outras como por exemplo da música atonal, tal como aparece no Pierrot Lunaire de Schoenberg (ver aqui: https://www.youtube.com/watch?v=h4jKtzbc3G0 ) , aliás, será mesmo uma experiência interessante: ler-se alguns sonetos deste livro e escutar-se em seguida a referida peça musical, tornar-se-ia evidente de imediato o que é a meticulosa insurreição do verbo.
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Bibliografia
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. Broda, Martine. L’amour du Nom. Paris: José Corti, 1997.
. Cixoux, Hélène. Aya! Le cri da la littérature. Paris: Éditions Galilée, 2013.
. Derrida, Jacques. Che cos’è la poesia? Coimbra: Colecção Marfim, 2003
. Jackson, John E. La Poésie et son Autre, Essai Sur la Modernité. Paris: José Corti, 1998.
. Machado, Hugo Milhanas. Lisboa: Artefacto, 2010.
. Machado, Hugo Milhanas. Lisboa: Enfermaria 6, 2014.
. Machado, Hugo Milhanas. Supertubos, Poemas 2005-2015. Lisboa: Enfermaria, 6, 2015.
. Machado, Hugo Milhanas. Estrela Tambor. Fafe: Editora Labirinto, 2020.
. Maulpoix, Jean-Michel. La Poésie Malgré Tout. Paris: Mercure de GFrance, 1996.
. Maulpoix, Jean-Michel. Pour un Lyrisme Critique. Paris: José Corte, 2009.
. Rancière, Jacques. La politique des poètes, pourquoi des poètes en temps de détresse. Paris: Albin Michel, 1992.
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quarta-feira, 1 de julho de 2020


                    A Minha Amante


                         "............................... a dor
                         só lhe perco o som e a cor
                         em orgias de morfina!"



Dizem que eu tenho amores contigo!
Deixa-os dizer!...
Eles sabem lá o que há de sublime,
nos meus sonhos de prazer...

De madrugada, logo ao despertar,
há quem me tenha ouvido gritar
pelo teu nome...

Dizem - e eu não protesto -
que seja qual for
o meu aspeto
tu estás
na minha fisionomia
e no meu gesto!

Dizem que eu me embriago toda em cores
para te esquecer...
E que de noite pelos corredores
quando vou passando para te ir buscar,
levo risos de louca, no olhar!

Não entendem dos meus amores contigo -
não entendem deste luar de beijos...
- Há quem lhe chame a tara perversa,
dum ser destrambelhado e sensual!
Chamam-te o génio do mal -
o meu castigo...
E eu em sombras alheio-me dispersa...

E ninguém sabe que é de ti que eu vivo...
Que és tu que doiras ainda
o meu castelo em ruína...
Que fazes da hora má, a hora linda
dos meus sonhos voluptuosos -
Não faltes aos meus apelos dolorosos...
- Adormenta esta dor que me domina!
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( Junho, 1922)
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 Teixeira, Judith. Poesia e Prosa. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2015, pp 82-83 (Organização e estudos introdutórios de Cláudia Pazos Alonso e Fabio Mario da Silva).
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terça-feira, 30 de junho de 2020


  Poemas 10 do Ciclo Outros Poemas Tristes


Eh, toma todas estas palavras e faz delas
uma pedra de silêncio húmido, uma frase
de lâminas brutais, uma posta de sangue
exacto, um osso exposto entre as carnes,

em todos estes pássaros que nos cercam,
neste barulho de asas que batem na pez
impossível da mesa do fundo no café,
escolhe a veia do mais poderoso grito,

e senta-te no mundo, ó deus insensato,
nocturno, bebe esse vinho dos homens,
lê nas entrelinhas dos jornais, adormece
na boca do esquecimento, aborrecido.
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 Moutinho, José Viale. Os Cimentos da Noite, Poesia 1975-2018. Porto: Edições Afrontamento, 2020, pp 179-180.
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domingo, 28 de junho de 2020


    Em segredo, pelos erros


Não me grites essas palavras gastas, não desenhes
no rosto nada que se pareça com o entardecer;
se o dia desaparece diante de nós, um anjo atrasado,

entre dois gritos intermináveis, abrirá as veias a rir;
o istmo está no fundo da cave, a ilha está seca,
é o que resta de um velho e sombrio continente,
o ogre corta aos cubos os dias abandonados;

já não sei o caminho, não voltarei à casa onde cometi
os erros, resisto a escrever a tinta da china avermelhada
no crânio que deixaram aqui abandonado, na mesa
em que espero a chegada da lua, o homem da lenha;

das nuvens mais escuras, da arca do trigo, da saída,
por favor, não me grites essas palavras, não me grites,
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  Moutinho, José Viale, Os Cimentos da Noite, Poesia 1975-2018. Porto: Edições Afrontamento, 2020, p 300.
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sábado, 27 de junho de 2020


CURVAVAM LONGE OS BRAÇOS DESSE ABANDONO
E nada mais podia sacudir a terra, eira negra
Não saber o curso da estrela, talvez
Não saber o curso da estrela.
Tão pequena luz no céu recolhida
Que a gente nem sabe o nome, mas confia
Pode ser um lugar para nós, pode ser.
Recordas a paz do Verão e as letras cantadas
Esse país imaginado nos colos da fantasia
Gelados e fuligens para situar o amor.
Nada mais mexia a terra de que nos falavam,
Mas valia a urgência dessa frase começada
A brincadeira nas figuras, velhos bailados
Para começar o corpo, apagado tambor.
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   Machado, Hugo Milhanas, Estrela Tambor. Fafe: Editora Labirinto,  2020, p 37.
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sexta-feira, 26 de junho de 2020


ESTRELA TAMBOR OS TEUS BAILES
Tomar-te as mãos só para ver descer
Mais longe um sol, o recorte de altas montanhas
Como morada do amor, o mar futuro.
Sigo os acordes da estrela tambor, ela dura
Ela percute a sólida onda dos carinhos
Estrela tambor, tu sabes, no rumor das linhas.
Nomeias a fúria, a casa de viver, voltar depois
O âmbar de guardar o sono conjunto, pequeno
País na quente manhã da vontade.
Sigo o pulso da estrela tambor, bateria
No oceânico fio de memória a sul
Bateria no enigma dessas altas montanhas
De subir o definitivo lugar da paz.
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 Machado, Hugo Milhanas, Estrela Tambor. Fafe: Editora Labirinto, 2020, p 35.
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quarta-feira, 24 de junho de 2020


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Foi já anunciado o Programa do Festival Literário Raias Poéticas na sua edição de 2020. O referido evento decorrerá de 18 de julho a 13 de agosto deste ano e integrará escritores de vários países. Eu estarei na Mesa 2 de 20 de julho, pelas 19:00H.
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PROGRAMAÇÃO !
RAIAS POÉTICAS:
AFLUENTES IBERO-AFRO-AMERICANOS DE ARTE E PENSAMENTO
(haja raias!)
APOIO:
Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão
CURADORES:
Luís Serguilha
Marcelo Ariel
Nuno Rau
INTERCESSORES:
Revista Mallarmargens (Brasil)
Palavra Comum (Corunha)
Assistência técnica: Amanda Vital
Designer: Lua Palasadany
Serviço de streaming utilizado: StreamYard
LIMIAR - 18 de Julho, às 19h
Dr. Paulo Cunha – presidente da Câmara de Vila Nova de Famalicão
Luís de Serguilha – curador de arte, poeta, ensaísta
Álvaro Santos – pianista e director da Casa das Artes
Marcelo Ariel – poeta, ensaísta e cineasta
Nuno Rau – poeta, ensaísta, editor, professor, arquiteto
Mesa 1: dia 19 de Julho, domingo | 19h
Dobra de pensamento: A POÉTICA ENQUANTO MARCHETARIA DO BRASIL
Guilherme Gontijo Flores (professor universitário, tradutor e poeta, Brasil)
Nina Rizzi (poeta, tradutora, Brasil)
Tarso de Melo (poeta, ensaísta e editor, Brasil)
Marcelo Ariel (poeta, ensaísta, cineasta, Brasil)
Mesa 2: dia 20 de Julho, segunda | 19h
Dobra de pensamento: A LITERATURA ACONTECE EM RECOMEÇO ININTERRUPTO
Tiago Alves Costa (poeta, ensaísta e tradutor, Corunha)
José Emílio-nelson (poeta ensaísta, Portugal)
Carla Carbatti (poeta, ensaísta, Brasil)
Victor Oliveira Mateus (poeta, ensaísta, Portugal)
Jorge Velhote (poeta, fotógrafo, ensaísta, Portugal)
Mesa 3: dia 21 de Julho, terça | 19h
Dobra de pensamento: QUE NOVOS MODOS DE COMBATE EXISTEM ENTRE A POESIA E O MUNDO?
Telma Scherer(poeta, ensaísta e professora universitária, Brasil)
Jorge Henrique Bastos (crítico literário, escritor e editor, Brasil)
Anelito De Oliveira de Oliveira (professor universitário, poeta, ensaísta, Brasil)
Francesca Cricelli (poeta, tradutora, Itália)
Mesa 4: dia 22 de Julho, quarta | 19h
Dobra de pensamento: A PALAVRA NO CORPO PERFORMÁTICO
Vitor Lemos (professor universitário e encenador, Brasil)
José Miguel Braga (professor universitário e encenador, Portugal)
Luisa Monteiro (dramaturga, romancista e professora universitária, Portugal)
Juliana Tavares (actriz, pesquisadora, Brasil)
Mesa 5: dia 23 de Julho, quinta | 19h
Dobra de pensamento: O QUE PODE A LITERATURA NA AGORIDADE?
Paulo Scott (escritor, ensaísta, Brasil)
Afonso Henriques Guimaraens Neto (escritor, ensaísta, Brasil)
Ademir Demarchi (poeta, ensaísta, editor, Brasil)
Fabiane Secches (crítica literária, psicanalista, Brasil)
Mesa 6: dia 24 de Julho, sexta | 19h
Dobra de pensamento: FICÇÕES DE CÂNONES PRECÁRIOS
Fabrício Marques (poeta, ensaísta, professor universitário, Brasil)
Letícia Ferro (pesquisadora, ensaísta, Brasil)
Prisca Agustoni (poeta, ensaísta, professora universitária, Brasil)
Ronald Augusto (poeta, ensaísta, Brasil)
Mesa 7: dia 25 de Julho, sábado | 19h
Dobra de pensamento: O POETA É, AO MESMO TEMPO, AQUELE QUE ESCREVE E QUE É ESCRITO
Annita Costa Malufe (poeta, ensaísta e prof. universitária, Brasil)
Paula Vaz (poeta, psicanalista, Brasil)
Daniella Zupo (escritora, jornalista, Brasil)
Ana Kiffer (professora universitária, ensaísta, escritora, Brasil)
Mauricio Salles Vasconcelos (prof. universitário, escritor e ensaísta, Brasil)
Mesa 8: dia 26 de Julho, domingo | 19h
Dobra de pensamento: POESIA – ARTE DESCONFINADA, TRANSUMANA, ALÉM DO EU
Thiago Arrais (encenador teatral e professor universitário, Brasil)
Patricia Portela (escritora, performer, Portugal)
Carlos Emílio Corrêa Lima (escritor, ensaísta, Brasil)
Abreu Paxe (professor universitário, ensaísta, poeta, Angola)
Mesa 9: dia 27 de julho, segunda | 19h
Dobra do pensamento: O QUE AS PALAVRAS DIZEM DO CORPO E O QUE O CORPO PODE DIZER ÀS PALAVRAS
Mariana Muniz (bailarina, coreógrafa, actriz, Brasil)
Adriana Nunes (bailarina e professora de dança contemporânea, Brasil)
Paula Sales (professora e pesquisadora, Brasil)
Iara Biderman (jornalista e crítica de dança, Brasil)
Mesa 10: dia 28 de Julho, terça | 19h
Dobra do Pensamento: A LITERATURA E O INSITUÁVEL DAS TRANSFRONTEIRAS
Ana Mafalda Leite (professora universitária, poeta, ensaísta, Moçambique)
Vera Duarte (escritora, jurista, Cabo Verde)
Vanessa Riambau Pinheiro (professora universitária, ensaísta, Brasil)
Hirondina Joshua (poeta, jurista, Moçambique)
Mesa 11: dia 29 de Julho, quarta | 19h
Dobra de Pensamento: SOPRO VEGETAL
Alda Regina Tognini Romaguera (prof. universit., pesquisadora, Brasil)
Susana Oliveira Dias (professora universitária, pesquisadora, Brasil);
Alik Wunder (professora universitária, pesquisadora, Brasil)
Mesa 12: dia 30 de Julho, quinta | 19h
Dobra de Pensamento: A PALAVRA: A FISSURA VIBRÁTIL DO CORPO
Ana Vitória (professora universitária, coreógrafa, pesquisadora, Brasil)
Regina Miranda (coreógrafa, Brasil)
Marcelo Aquino (diretor de teatro, actor, Brasil)
Mickael Oliveira (pesquisador em artes, Brasil)
Sofia Dias (coreógrafa, performer, Portugal)
Vítor Roriz (coreógrafo e performer, Portugal)
Mesa 13: dia 31 de Julho, sexta | 19h
Dobra do Pensamento: PSICANÁLISE E DOBRAS DA PALAVRA
Alcimar Souza Lima (professor universitário, poeta, psicanalista, Brasil)
Renata Udler Cromberg (prof. universitária, escritora, psicanalista, Brasil)
Maria Laurinda Ribeiro de Sousa (prof. univ., escritora, psicanalista, Brasil)
Daniela Athuil (psicanalista, escritora, Brasil)
Victor Sosa (psicanalista, poeta, ensaísta, tradutor, México)
Mesa 14: dia 1 de Agosto, sábado | 19h
Dobra do Pensamento: A BELEZA É UMA FERIDA
Bianca Dias (psicanalista, ensaísta, escritora, Brasil)
Luiz Augusto Contador Borges (filósofo, psicanalista e escritor, Brasil)
Juliano Garcia Pessanha (filósofo, escritor, ensaísta, Brasil)
Mesa 15: dia 2 de Agosto, domingo | 19h
Dobra do Pensamento: RETUMBAR DA LOUCA SAÚDE
Paola Zordan (artista plástica, professora universitária, Brasil)
Patrícia Unyl (atriz, diretora teatral, pesquisadora, performer, Brasil)
Eduardo Guedes Pacheco (percussionista, prof. universitário, Brasil)
Mesa 16: dia 3 de Agosto, segunda | 19h
Dobra do Pensamento: A LITERATURA NÃO PRODUZ OBRA, CRIA VIDA!
Amanda Vital (poeta, editora, ensaista, Brasil)
Flávio Viegas Amoreira (escritor, ensaísta, Brasil)
Maria Oliveira (ensaísta, poeta, filósofa, Portugal)
Tavinho Paes (poeta, ativista cultural e letrista, Brasil)
Mesa 17: dia 4 de Agosto, terça | 19h
Dobra de Pensamento: EXCRITURA E PANDEMIA
María Ángeles Pérez López (poeta, ensaísta e prof. univ., Salamanca)
Montserrat Villar González (prof. universit., poeta, ensaísta, Salamanca)
Lidia López Miguel (fundadora y directora editorial de Lastura Ed., Madrid)
Isabel Miguel (poeta e tradutora, Madrid)
Mesa 18: dia 5 de Agosto, quarta | 19h
Dobra do Pensamento: LIBERDADE E CENSURA EM DEMOCRACIA
Raquel Serejo (poeta, Portugal)
Luís Filipe Sarmento (escritor, ensaísta, tradutor, Portugal)
Jaime Rocha (poeta, dramaturgo, ensaísta, Portugal)
José Eduardo Degrazia (poeta, ensaísta, tradutor, Brasil)
Basílio Rodríguez Cañada (poeta, ensaísta, editor, Espanha)
Alexandre Faria (escritor e jurista)
Mesa 19: dia 6 de Agosto, quinta | 19h
Dobra do Pensamento: POESIA NO CONTEMPORÂNEO – UMA MECÂNICA DE FRAGMENTOS
Alexandre Guarnieri (poeta, mestre em História da Arte, Brasil)
Denise Martins Freitas (poeta, ensaísta, historiadora, Brasil)
Mar Becker (poeta, graduada em filosofia, Brasil)
Nuno Rau (poeta, ensaísta, professor, arquiteto, Brasil)
Mesa 20: dia 7 de Agosto, sexta | 19h
Dobra do Pensamento: POESIA E MÍSTICA – RASURAS DO ESPÍRITO
Cláudia Roquette-Pinto (poeta, ensaísta, Brasil)
Eduardo Guerreiro B. Losso (prof. universitário, crítico, ensaísta, Brasil)
Edimilson de Almeida Pereira (poeta, ensaísta, prof. universitário, Brasil)
Waldo Motta (poeta, ensaísta, Brasil)
Mesa 21: dia 8 de agosto, sábado | 19h
Dobra do Pensamento: A PALAVRA E A CANÇÃO – O RIGOR QUE DANÇA
Fred Martins (compositor, músico, Brasil/Portugal)
Marcelo Diniz (poeta, professor universitário, letrista, Brasil);
Roberto Bozzetti (poeta, professor universitário, letrista, Brasil)
Mesa 22: dia 9 de Agosto, domingo | 19h
Dobra de Pensamento: A IMPOTÊNCIA DA LINGUAGEM NO VÍRUS DO MUNDO
António Ferreira (cineasta, Portugal)
Aurelino Costa (poeta, diseur e advogado, Portugal)
Graça Capinha (professora universitária, ensaísta, Portugal)
João Rasteiro (poeta e ensaísta, Portugal)
Mesa 23: dia 10 de Agosto, segunda | 19h
Dobra do Pensamento: TRANSGEOGRAFIAS POÉTICAS: “MUDAR A VIDA É MODIFICAR A MANEIRA DE SENTIR”
Davino Sena (escritor e diplomata, Brasil)
Railssa Alencar (escritora e diplomata, Brasil)
Raul de Taunay (escritor e diplomata, Brasil)
Mesa 24: dia 11 de agosto, terça | 19h
Dobra do Pensamento: A EXPERIÊNCIA DA QUEDA
Hélia Borges (psicanalista, escritora e professora universitária, Brasil)
Paulo Oneto (filósofo e professor universitário, Brasil)
Felipe Ribeiro (professor universitário e curador de arte, Brasil)
Maria Alice Pope (professora universitária e pesquisadora, Brasil)
Mesa 25: dia 12 de Agosto, quarta | 19h
Dobra do Pensamento: O POEMA COMO DEVIR E O PERSPECTIVISMO AMERÍNDIO
Nomes a confirmar.
Mesa 26: dia 13 de Agosto, quinta | 19h
Dobra do Pensamento: ONDE ESTÁ A TRADIÇÃO NO CONTEMPORÂNEO?
Nomes a confirmar.
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terça-feira, 16 de junho de 2020



 Poema 6 do Ciclo " Os ombros e a Manhã"


Subitamente
a aurora abriu
todas as janelas

Dois pássaros cegos
os teus ombros despertos
de um sonho
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 Bonafim, Alexandre. Noite de Dioniso. São Paulo: Terra Redonda, 2019, p 50.
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segunda-feira, 15 de junho de 2020


O Diário Salamanca Al Dia de hoje (15 de junio de 2020) publica uma extensa notícia, com fotos dos autores convidados, sobre o Festival Internacional de Poesía En el Lugar de Los Escudos (México).
A foto deste post diz respeito ao Festival do ano passado.
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sexta-feira, 12 de junho de 2020


    Programa General del Festival Interncional de Poesía en El Lugar de Los Escudos (2020)
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Recitales:
14 horas de la Ciudad de México-Bogotá
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Lunes 15 de junio.
Alfredo Pérez Alencart (poeta, Perú-España); Marta Miranda (poeta, Argentina); Leonardo Nin (poeta, República Dominicana); Fernanda Martínez (poeta, Chile); Talat Shahin (poeta, Egipto); Sara Sae (cantante, España) y Miriam Sae (cantante, España).
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Martes 16 de junio.
Carlos Aganzo (poeta, España); Ángela Acero Rodríguez (poeta, Colombia); Stefania Di Leo (poeta, Italia); Víctor Hugo Fernández (poeta, Costa Rica) y Leandro Sagobal (cantautor, Colombia).
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Miércoles 17 de junio.
Víctor Oliveira Mateus (poeta, Portugal); Jaya Choudhury (poeta, India); Mpesse Geraldin (poeta, Camerún); Katariina Vuorinen (poeta, Finlandia) y Ciela Asad (actriz, poeta, Argentina).
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Jueves 18 de junio.
Katia-Sofía Hakim (Francia); David Cortés Cabán (Puerto Rico); Gabriela D’Arbel (México); Paolo Agrati (Italia) y Leandro Sagobal (Colombia).
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Viernes 19 de junio.
Ricardo Rojas Ayrala (poeta, Argentina); Corina Oproae (poeta, Rumania-España); Isabel González Gil (poeta, España); Luisa Fernanda Trujillo (poeta, Colombia); Alexis Romero (poeta, Venezuela); Sara Sae (cantante, España) y Miriam Sae (cantante, España).










Sin Reverencias
18 horas Ciudad de México-Bogotá
Coordinación general: Álvaro Mata Guillé y Edgar Krauss
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Martes 16 de junio.
Democracia-pandemia-virtualidad
Alexis romero (poeta Venezuela); Madeline Mendieta (poeta, Nicaragua); Víctor Paz Otero (poeta, novelista, Colombia); José Alberto Moreno (relaciones internacionales, historia, México).
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Miércoles 17 de junio
Poesía (teatro, arte)-pandemia-virtualidad
Corina Oproae (poeta, Rumania-España); Katia-Sofía Hakim (poeta, Francia); Ciela Asad (actriz, poeta, Argentina); Otoniel Guevara (poeta, El Salvador)
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Jueves 18 de junio.
Relaciones humanas (libertad)-pandemia-virtualidad.
Ricardo Rojas Ayrala (poeta, Argentina); Javier Rey (cineasta, Colombia); Yolanda Hernández (poeta, República Dominicana); Carlos Zatizabal (actor, poeta, Colombia); Madeline Mendieta (poeta, Nicaragua)
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quinta-feira, 11 de junho de 2020


  Sorriso


Tecer a filigrana
do sol
a ardência
do sal
na fratura exposta
da tua alegria

Tecer o ninho
de um pássaro
de um escorpião
na luz de tua boca
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 Bonafim, Alexandre. Noite de Dioniso. São Paulo: Terra Redonda, 2019, p 20.
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quarta-feira, 10 de junho de 2020


O Festival Internacional de Poesia en El Lugar de Los Escudos (México) iniciar-se-á, este ano por streaming devido à pandemia de covid-19, no próximo dia 15. Fica aqui a mesa do dia 17 pelas 14:00H na Cidade do México/ 21:00H em Lisboa:

Katarina Vourien (Finlândia)

Victor Oliveira Mateus (Portugal)

Joya Choudhury (India)

Mpesse Geraldin (Camarões)

Ciela Asad (Argentina)
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terça-feira, 9 de junho de 2020


1º Coveiro:
(...) Esta caveira, senhor, a caveira que estais a ver, é a de Yorik, o bobo do rei.

Hamlet:
Esta caveira?!

1º Coveiro:
Essa mesma.

Hamlet:
Deixa-ma examinar. (Pega na caveira.) Pobre Yorik! Conheci-o, Horácio. Era um rapaz com muita graça, duma alegria infinita e dum espírito vivíssimo; trouxe-me muitas vezes às cavaleiras. E agora, que horror causa à minha imaginação! O meu coração dilata-se! Aqui pendiam os lábios que eu beijei tanta vez! Que é feito neste momento dos trocadilhos? das cabriolas? das canções? desses relâmpagos de gracejos que levantavam em toda a mesa uma tempestade de gargalhadas? Nem uma só facécia ficou para vos rirdes da vossa própria carantonha! A boca completamente fechada! Ide agora dizer ao gabinete da rainha que por mais caio que ponha no rosto há-de ficar com uma cara assim. Fazei-a rir dizendo-lhe isto! Oh! Horácio, diz-me uma coisa, peço-te.

Horácio:
Que é, senhor?

Hamlet:
Acreditas que Alexandre tenha esta mesma cara na cova?

Horácio:
Exactamente a mesma...

Hamlet:
E que cheire assim? Fu!... Fu!... (Pousa no chão a caveira.)

Horácio:
Absolutamente, meu senhor.

Hamlet:
A que grosseiras aplicações podemos descer, Horácio! A nossa imaginação não conseguirá facilmente seguir a viagem das nobres cinzas de Alexandre, até vê-las a tapar o buraco dum tonel!

Horácio:
Essa observação é muitíssimo subtil.
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 Shakespeare, William. Hamlet, Acto V, Cena I. Porto: Lello & Irmão Editores, S/d., pp 233-235 (Tradução de Domingos Ramos).
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Notas:
1.- Neste excerto, Hamlet, para ilustrar a fragilidade e a efemeridade da vida e das aparências serve-se da pessoa de Alexandre, o Grande: aquele que foi dono de todo o mundo conhecido, hoje não passa de um montão de cinzas a tapar o buraco de um tonel.
2. - A foto deste post é de uma das interpretações de Hamlet levada a cabo por Benedict Cumberbatch, enquanto que a do post abaixo é de Ethan Hawke numa versão cinematográfica desta peça.
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domingo, 7 de junho de 2020



Rainha:
Se é a lei comum, por que aparentas afligir-te, como se isso fosse para ti um caso particular?

Hamlet:
Eu não aparento, senhora, é bem uma realidade; não conheço aparências. Minha boa mãe, não é somente o meu manto negro como tinta, nem o aparato ordinário do luto solene, nem os suspiros gementes duma respiração opressa, nem os olhos transformados em rios de lágrimas, nem o aspecto acabrunhado do rosto, nem o cortejo de fórmulas, expressões, sinais de pesar, que podem traduzir a verdade do meu coração! Essas coisas são com efeito aparências, porque são actos que um homem pode fingir; mas eu tenho em mim alguma coisa que ultrapassa todas as manifestações exteriores que nada mais representam do que a libré e os atavios da dor...
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 Shakespeare, William. Hamlet , Acto I, Cena II. Porto: Lello & Irmão Editores, S/d., pp 47-48 (Tradução de Domingos Ramos).
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quinta-feira, 4 de junho de 2020

Integrarei o elenco de autores convidados para o Festival Internacional de Poesía en El Lugar de los Escudos, Cidade do México. O prestigiado evento, este ano e devido à pandemia covid-19, realizar-se-á por streaming. Em breve postarei o Programa com os autores convidados e respetivos países.
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segunda-feira, 1 de junho de 2020


hás de voltar à planície
da pulsação solar


quando as horas forem os rios
da nossa alvorada


e quando as ervas puderem ungir
                               a pele
esmagada pela sede


meu amor


hás de voltar
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  Almeida, Ângela. Estado de Emergência. Santa Maria: Confraria do Silêncio, 2020, p 33.
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domingo, 31 de maio de 2020


como é íngreme
a paisagem da sede
sobre a memória
das rosas iluminadas
pelo rubor das mãos

as mesmas

as que agora suportam
o descomunal aperto
do corpo
cercado pelo gume
dos ponteiros

resta-nos
o esquecimento
do que fomos

insubmissas aves

tocaremos ainda
o último acorde
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 Almeida, Ângela. Estado de Emergência. Santa Maria: Confraria do Silêncio, 2020, p 23.
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sábado, 30 de maio de 2020


A raiz das árvores está cercada por urtigas de plástico,
a junta de freguesia cavou-lhes nervuras, manualmente,
queimaram a vegetação insurrecta com um fósforo de cera,
O dono do café fechou a esplanada,
a árvore pública passou a ser privada de água,
quase os cães já não lhe mijam,
foram extintas as flautas de pã dos amoladores de bairro
já sem melodia, sem furos e sem vento.
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  Ferra, António. ente. Lisboa: Edição do Autor, 2020.
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segunda-feira, 25 de maio de 2020

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"Mádras/ Madras" livro bilingue de Ángela Gentile com versão portuguesa de Victor Oliveira Mateus (Editora Labirinto, coleção contramaré).
Já à venda!!!
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"Estrela Tambor" de Hugo Milhanas Machado (Editora Labirinto, coleção contramaré).
Já à venda!!!
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domingo, 24 de maio de 2020


           Maria Velho da Costa (1938/06/26-2020/05/23).
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segunda-feira, 18 de maio de 2020



A Editora mexicana Abismos colocou já à venda o livro Aquello que no tiene nombre. A dita obra poderá ser encontrada nas redes sociais: Facebook, Instagram e Twitter, bem como em dadas plataformas como a amazon.
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sábado, 16 de maio de 2020


Falou nesse palácio mas só rei
terna passagem nos navios
que nos faz bem fora de nós
seguir o macio desses sossegos


A segunda terra já depende do salto
mas depois é toda ela balão em luz batido
e madeira pisada naquele lugar
o estranhamento neste novo passo começado


Esse vai ser o meu navio presidente
parece tanto o grosso silêncio dos minutos
embala lento desvia a luz e
lá em casa armando o viajante


   Machado, Hugo Milhanas. Supertubos, Poemas 2005-2015. Lisboa: Enfermaria 6, 2015, p 88.
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sexta-feira, 15 de maio de 2020


Entusiasta contigo estoura a rua
e diz aquela vontade até ao fim
que juntos não é juntos somos manos
e a tábua amiga de um instrumento


É tão guloso aquele mexer africano
sacudindo limpo o corpo na gente
que palavra é palavra de lugar torto
e diz aquela vontade é o sal é o sul


quem não queria tudo assim sozinho
e ruas onde de repente de novo somos
maratona e limo o pisar por aí abaixo e
um rio devagar de um falar devagar
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Machado, Hugo Milhanas. Supertubos, Poemas 2005-2015.  Lisboa: Enfermaria 6, 2015, p 26.
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quarta-feira, 6 de maio de 2020

Celebrou-se ontem, dia 5 de maio de 2020, o DMLP - Dia Mundial da Língua Portuguesa. As ditas celebrações, devido à Pandemia do Covid-19, ocorreram, por screaming, em várias plataformas. Agradeço ao escritor brasileiro David Oscar Vaz o convite para estar presente na plataforma Flipgrid, em cujo espaço participaram dezenas de figuras dos vários países de expressão oficial portuguesa, das quais refiro apenas: o Embaixador de Portugal na Unesco, António Sampaio da Nóvoa; a poeta e ensaísta brasileira e atualmente Professora na Universidade italiana de Peruggia, Vera Lúcia  Oliveira; os escritores brasileiros Marina Colasanti, Luiz Rufato, David Oscar Vaz; o escritor angolano Lopito Feijó, a escritora portuguesa Gabriela Ruivo Trindade, etc., etc. Segue o meu texto alusivo ao Dia e lido no referido evento:
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Defende uma dada corrente filosófica que a Língua, enquanto solo matricial, condiciona de forma necessária dadas formas de sentir e de pensar. Talvez seja de aceitar a questão do condicionamento, mas apenas se o interpretarmos fora da questão de uma exclusividade e retirando-lhe a pretensão de possuir esquemas mentais não susceptíveis de serem encontrados em outras Línguas e em outros Pensares, como, por exemplo, a problemática da Saudade ou variantes de uma espiritualidade e mística de cariz nacionalista.
A Língua condiciona, de facto, a arquitetónica do Pensar e, consequentemente, do Saber, mas apenas se a este processo for acrescentado um certo dinamismo de convivência com o Diferente, bem como a importação de algo que desse Diferente é pertença. Ou seja: se não houver na contínua construção da Língua um único vetor proveniente:
a) desse Diferente - outras Línguas, códigos informáticos, estratégias de uma informação centralizada em poderes globalizantes, etc.
b) ou também se não existir apenas uma emanação, quase sagrada, que faria de uma Língua um dinamismo único tido por inconspurcado pelo diverso.
A Língua vive, pois, desse dialogismo entre o matricial e o constantemente importado, não devendo, contudo, este último ser imposto ao primeiro pelos mais diversos tipos de poder, mas assumido e sempre conversado com esse primeiro. É nesta Dialética que se tornam possíveis duas ocorrências:
I - a autenticidade da escuta de um dado enraizamento;
II - mas também a aceitação de eventuais processos de autonomização de dadas zonas dessa Língua Primeira.
A Língua é, por conseguinte, um território de tensão entre um enraizamento que, de uma forma ou de outra, acabará sempre por emergir num qualquer sussurro proveniente desse tal solo originário e matricial, mas também contém - mesmo que colocada como hipótese! - a autonomização futura de parte desse Si-próprio que se tornará num qualquer Diferente outro. E é isto que nos ensinam diferentes disciplinas como a Antropologia Cultural, a História da Cultura, etc.; e é isto também que se vai observando nas diversas variantes do português, como por exemplo a de Portugal e a do Brasil, onde vamos sempre constatando semelhanças e diferenças, e é por a Língua portuguesa ser esse território onde se joga o Mesmo e o Diferente, é por isso que ela é tão rica.
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                            Victor Oliveira Mateus (Lisboa, 4 de maio de 2020)
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sábado, 2 de maio de 2020


   O passado pode ser ou não um país estrangeiro. Pode se transformar ou permanecer o mesmo, mas sua capital vai ser o Arrependimento, e o que flui ao longo dela é um canal de desejos não concretizados que correm em direção a um arquipélago de pequenas possibilidades que nunca aconteceram de verdade, mas não são irreais por não terem acontecido e talvez ainda possam acontecer embora tenhamos medo de que nunca aconteçam. E pensei no Velho Inglês guardando tantas coisas, como todos guardamos quando olhamos para trás e vemos que as estradas que abandonamos ou que não pegamos desapareceram. O arrependimento é o modo como esperamos voltar para nossas vidas reais assim que encontramos a determinação, o impulso cego e a coragem de trocar a vida que nos foi dada pela vida que tem nosso nome e nenhum outro. O arrependimento é o modo como ansiamos por coisas que perdemos, mas nunca tivemos de verdade. O arrependimento é a esperança sem convicção, eu disse. Estamos divididos entre o arrependimento, que é o preço que pagamos pelas coisas que não fizemos, e o remorso, que é o preço que pagamos por fazê-las. Entre um e outro, o tempo se diverte com seus convidativos truques.
   - Os gregos nunca tiveram um deus do arrependimento - observou o marido de modo imperioso, para se exibir ou desviar uma conversa que claramente não era só sobre o Velho Inglês.
   - Os gregos eram brilhantes. Usavam uma única palavra tanto para o arrependimento quanto para o remorso. Como Maquiavel.
(...) Quando saímos do restaurante, ela e eu caminhamos na frente juntos, enquanto Manfred e o marido seguiam atrás.
   - Mas você está feliz? - perguntei.
(...)
   - Porque meu coração está acelerado agora e faz tempo. Todos aqueles anos, e isso não vai embora - confessei.
   Comecei a lembrar as palavras dela sobre amar alguém sem estar apaixonado (...) E, quanto mais eu pensava nisso, mais me rasgava por dentro. Perdemos anos de nossas vidas, eu queria dizer. Então disse.
   - Perdemos anos de nossas vidas... estamos vivendo a vida errada, você e eu. Tudo em nós está errado.
   - Isso não é justo. Nunca estivemos errados. Você e eu somos a única coisa certa em nossa vida... todo o restante é que está errado.
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 Aciman, André. Variações Enigma. Rio de Janeiro: Editora Intrínseca, 2018, pp 240-243.
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