quinta-feira, 18 de novembro de 2021

Na foto da esquerda para a direita: Delmar Maia Gonçalves, Victor Oliveira Mateus, Manuela Gonzaga, Luis Pires dos Reys.
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PRÉ-PUBLICAÇÃO
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Breve contributo para uma leitura de O caminho dos sete sentidos de
Manuela Gonzaga

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 Estruturar um livro de poesia com uma produção textual que abrange algumas décadas com textos que oscilam entre os longos poemas monostróficos e temas tangenciando o registo memorialístico e onírico, que, registe-se, jamais caem no prosaísmo, sem esse trabalho perder a coerência interna que deve sempre presidir a um livro de poesia, uma iniciativa desse tipo, não acessível a muitos, é levada a cabo com subtileza e eficácia por Manuela Gonzaga em O caminho dos sete sentidos.

Não sendo possível, através da poesia, expor um sistema filosófico, nem modelos científicos e cosmogónicos devidamente articulados e fechados é, no entanto, viável cismar-se poeticamente em torno dessas áreas disciplinares, temos como exemplos: Antero de Quental, Teixeira de Pascoaes e Natália Correia no que diz respeito ao filosofar, e no que diz respeito à ciência convém não esquecer o célebre Limite de idade de Vitorino Nemésio. Manuela Gonzaga, neste seu livro, entrega-se a inquietações intelectuais distintas dos poetas referidos. Logo no poema Perséfone (p 17) estabelece as três dicotomias que irão ser o fundamento organizativo desta obra: sombra/ Sol, permanência/ devir cíclico, morte/ vida:

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Sou a rainha da sombra a senhora

do reino das trevas a anfitriã

dos mortos.

 

(17, 1-3; neste texto o primeiro número dirá sempre respeito à página e os seguintes indicarão os versos)

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 Estas linhas axiais, em torno das quais se estrutura este livro, surgirão recorrentemente, embora com outras formulações, veja-se o poema Deméter :

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 O Senhor dos Infernos guarda

a minha filha.

Fez dela rainha

Do seu vasto reino.

 

(20, 16-19)

 Veja-se também, no mesmo poema, a problemática do “devir cíclico”:

 Agora sim, minha alma luz,

adorada

vais voltar.

Perséfone, estou à tua espera

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 (21, 20-24)

 Estes tópicos não nos surgem apenas nos poemas com carga ontológica, mítica e cosmogónica, eles irrompem igualmente em poemas onde o antropológico é predominante, como por exemplo no extenso poema África :

 

Cais de náufragos

em cidades mortas

onde aportei em meu contínuo naufragar

depois de enterrar os mortos

e esquecer o local das suas sepulturas.

Às vezes ainda lá vou

queimar imagens de deuses

em lareiras que nem existem

e ouço-me

a chamar por eles

e fico

de mãos feridas a escavar palavras e silêncios.

Procuro, procuro.

 

(45, 17-24; 46, 1-5)

 Estes versos fazem ressaltar dois outros temas fundamentais deste livro: um, a morte e a vida não são opositivas; dois, a comunicação entre os dois territórios processa-se através de ritos. Estas teses aparecem-nos tanto em filósofos cristãos como em religiões pré-cristãs: vejamos, por exemplo, o final do Sermão 5b de Eckhart, onde é eliminando o criatural que se vivifica em nós o ser divino:

 Aí onde termina a criatura, começa o ser de Deus. Ora, tudo o que Deus te pede, é de sair de ti mesmo segundo o teu modo criatural de ser e deixar Deus entrar em ti.

 (In Eckhart, Traités et Sermons. Paris: Flammarion, 1993, p 256, tradução e sublinhados de minha autoria)

 Esta infração da Lógica da Identidade, onde a morte pode vivificar e a vida ser uma espécie de morte e onde até a sombra pode iluminar, conduzindo-nos a um monismo de fronteiras esbatidas e de permeabilidade entre territórios aparentemente distintos, a esta infração responde um texto de Manuela Gonzaga, Testamento de vida:

 E nestes dias, nestas noites, todas as verdades são diferentes e contraditórias, e essa contradição em si mesma é uma verdade também, e nestes dias, nestas noites passam por nós restos de estrelas, caudas entrançadas de cometas…

 (79, 1-4)

 Nesta linha de leitura, que é a minha, a mediação e a intercomunicação entre o Diferente, ou melhor, entre as múltiplas vertentes do Mesmo , ou ainda, e para usar um conceito desse filósofo pagão que foi Plotino, do Uno, faz-se através de Rituais, veja-se, nas páginas 22 e 23, o poema Elêusis :

 

Sol Céus Vida

minha bendita luz e claridade

calor!

(…)

eis-me de novo nunca cheguei a partir

Nunca!

(…)

Um alto rei

que dizia:

a minha rainha é livre de deixar os seus reinos

 

(22, 1-7; 23, 1-3)

 Esta vitória da luz e da claridade, neste poema, parece apontar para uma síntese redentora e contradizer tudo o que até agora tenho dito acerca das dicotomias Morte/Vida, Sombra/Sol, contudo, convém esclarecer que o discurso anterior se referia ao Ser e neste poema está em causa o Ente. É o homem ou a mulher que através de um Rito alcança a luz e a claridade, é disso que o poema fala.

Eram vários os santuários e/ou lugares de iniciação na Grécia Antiga, a poeta neste seu livro refere aquele que alcançou maior estatuto, o de Elêusis, ao sul da Atenas. Aqui, a religião ainda muito próxima da dos cretenses, introduz novos aspetos como o culto “dos mortos também, como nos dão testemunho os traços de sacrifício perto das tumbas micénicas. Surgem grandes deuses novos, já gregos, como Atena, Zeus (…) Deméter, da qual o mais antigo telestérion (sala de iniciação), em Elêusis, remonta à época micénica; é possível que tenham sido edificados templos, pela primeira vez, mas somente no fim do período.” (In Paul Petit, O mundo  Antigo. Lisboa: Edições Ática, 1976, pp 45-46). Convém, no entanto, enfatizar que eram vários os cultos e as modalidades de rituais, já na Grécia homérica tínhamos, por exemplo, “Em Éfeso, o sumo-sacerdote, que mais tarde usará o nome persa de “Megabyse” carregado de ornamentos reais e sacerdotais de púrpura e oiro, conduz a procissão anual de Artémis, ele é o encarregado de representar a deusa no exterior, nas festas e nos jogos. Em Claros, o sacerdote de Apolo pode exercer a função de profeta. “(In Émile Mireaux, A vida quotidiana no tempode Homero. Lisboa: Livros do Brasil, S/d., p 77, tradução de Sophia de Mello Breyner Andresen), contudo, Manuela Gonzaga opta por aquele rito de estatuto mais elevado: “Em Elêusis uma das funções essenciais do hierofante consiste em “revelar” aos iniciados os objectos sagrados durante as cerimónias da “epoptia”, a iniciação do segundo grau.” (In Émile Mireaux, op. Cit. P 77). Depois desta referência ao poema Elêusis e de referir como este modo iniciático de desvelamento do real adquire impacto na mensagem que transpassa todo este livro, tornam-se evidentes três conceitos que se apresentam como corolário desta minha linha de leitura: o Caminho, a Aprendizagem (Introspetiva ou Iniciática), o Viandante, aliás evidenciados no próprio título da obra: O caminho dos sete sentidos.

As referências aos conceitos de Caminho e de Viandante atravessam todo este livro, muitas vezes metamorfoseados em vocábulos outros:

 Disseram:

Olha de frente, e era o abismo.

No meu caminho.

 

(30, 8-10)

 

(…) abriu caminho através dos sargaços

Onde se prendia e afogava a minha alma.

 

(39, 7-8)

 

Alguns vão-se embora

Há procura

 

(42, 4-5)

 

E sei que vou acabar por lhe abrir a porta, os braços, o coração,

a alma, o corpo (…) porque é dele que fujo desde o princípio dos

tempos e é ele que quero desde a eternidade, e é ele que procuro

desajeitadamente (…) tacteando às cegas o caminho dos sete

sentidos,,,

 

(78, 7-13)

 Vemos neste último excerto, que o percurso que os humanos são chamados a trilhar, e que assinalei ao longo deste texto, se faz mediante uma Aprendizagem triádica: introspetiva, em diálogo com o meio e iniciática, e é da conjugação de todas elas que resulta a apreensão desse Sentido inerente ao nosso estar-aqui, que nos é dado pelos (nossos) sete sentidos. O número de sentidos nos humanos varia segundo o entendimento dos diversos cientistas, e pode ir dos sete geralmente referidos (olhar, audição, odor, tato, paladar, proprieceção (apreensão espacial do corpo) e equilíbrio) até mais de três dezenas), contudo a poeta jamais refere – explicitamente - quais os sete sentidos que entende necessários ao caminho, e isso parece-me bastante interessante, já que essa ocultação, esse mistério, faz corpo com aquilo a que poderei chamar o nó substancial do livro. Convém, no entanto, não confundir os sentidos tal como são enumerados pela psicologia, pela biologia e outras ciências que falam do corpo com os sentidos de índole metafísica, ética ou mesmo cartográfica e desse equívoco salva-nos o poema Ausência da página 41:

 Presenças ausentes

Presságios

Sinais em todos os sentidos

um rumor de seda

amachucada

passos furtivos

recordações

insistentes

 

Lá fora a noite

agarra-se à janela

 Por fim, e em jeito de epílogo desta leitura, direi tão-só que esta minha interpretação de O caminho dos sete sentidos de Manuela Gonzaga, esta minha chave para uma porta que não existe – como a poeta diz num dos primeiros poemas do livro – aponta para um conceito que atravessa igualmente todo o livro, o conceito de Fundamento que irrompe nos poemas sob quatro formulações: a Grande Mãe (pp 31, 48), Pai (pp 50, 74), Deus (p 71) e Rei (pp 26, 58); quatro termos que referem o mesmo: esse Fundamento que escapa ao rigor e à objetivação, mas que alguns dos Viandantes sabem que Há ao fundo, e na base, do Caminho.

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terça-feira, 16 de novembro de 2021


    Escrevo estas recordações com um mal-estar que não tenho capacidade para definir. É que da maneira como as narro, elas surgem-me tão adulteradas e ridículas que seria bem melhor, nem que fosse por pudor, guardá-las para mim. E talvez sejam mesmo ridículas e não haja modo de lhes dar coerência e dignidade. A vida é assim. É por isso que as histórias que se contam nos bons livros são suportáveis: torcem a vida, inventam-na, até lhe darem verosimilhança e uns restos de grandeza. (...)
    Mas já agora que comecei e me é urgente pôr cá fora uns entulhos para melhor os clarificar e esquecer, terei de ir por diante. Não volto a pedir-vos desculpa de ser tão desastrado nestas evocações.
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 Fernando Namora. domingo à tarde. Lisboa: TVGuia Editora, 1996, p 59.
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quarta-feira, 10 de novembro de 2021


                 Manuel Silva-Terra e a Crítica da Razão Geométrica


                                                  por Victor Oliveira Mateus


Neste ano de 2021, Manuel Silva-Terra publica um novo livro: Holderlin (Editora Licorne). Comedido, discreto, este poeta tem vindo ao longo dos anos a edificar uma obra consistente e de uma circunspeção invulgar no panorama atual da nossa poesia. Alheia a circunstancialismos epocais e à gratuitidade de tantos determinismos, a poesia de Manuel Silva-Terra tem optado pelo cismar, e pela inquirição, não só daquilo que no humano é interioridade, mas também não descurando todos os vetores (cultural, económico, ecológico, etc.) que contextualizam o que essa interioridade é chamada a viver.

MST inicia o seu Holderlin com um poema que é simultaneamente uma invocação à mãe e uma justificação da recusa do poeta alemão em enveredar pela vida clerical. Este poema, formado por duas estrofes (uma quadra e uma sextilha), em versos heterométricos e livre de qualquer esquema rimático, apresenta-se neste livro como paradigma das preocupações estilísticas que marcarão toda esta obra. Mas há mais: neste poema frontispicial correm os dois veios que irão estar interconectados ao longo de todo este Holderlin , e que são: os aspetos biográficos do poeta romântico e as inquietações do eu poético relativas à contemporaneidade.

Quanto ao primeiro veio aqui referido encontramos logo a referência a Leuffen, (11/6, o primeiro número dirá sempre respeito à página e o segundo à linha do texto) a cidade onde nasceu, assim como a presença da mãe (11/1) – convém referir que o pai de Holderlin morreu cedo -, já quanto ao segundo veio, concentremo-nos nas alusões à Liberdade e às asas, termos esparsos por todo o poema.

Se aceitarmos a tese generalizante de Joseph Beuys de que “todo o homem é um artista”, teremos de enfatizar que nem todos o são do mesmo modo, MST demarca-se de um diletantismo à imagem de um Marino Aurati, bem como de uma visionação à la Aleister Crowley; embiocar o discurso não é a marca de água desta poesia, já que para o complexo basta a intuição (1) do poeta, bem como aquilo a que ele almeja, e que não se restringe, obviamente, a qualquer tipo de práxis lúdica, antes centra-se no vivido e numa certa degenerescência do meio, que com esse vivido interage, pelo que MST, se acaba colocando num continuum onde se insere uma miríade de autores (2). Por tudo isto, o complexo metamorfoseia-se e atinge-nos naquilo que em nós é mais profundo. Veja-se, por exemplo, um “momento” poemático extremamente forte:

Os deuses ainda não acabaram a tarefa

de criar um homem.

A terra carrega a sua leveza

e o céu o seu peso.

O Homem é uma criatura inacabada

por isso imperfeita.

E assim estamos violentamente sós

selados pelo sinete do porvir.

Cada um é uma construção feita

a partir de materiais recolhidos no entulho

de antigos fundamentos e reconstruções.

(p 26)

Por conseguinte, e se o poético não reside exclusivamente no Objeto, como prefeririam os adeptos de um Realismo Especulativo, mas antes – como eu penso - na Correlação entre ele e um Sujeito que o apreende e interpreta, poder-se-á dizer que esta poesia se instala naquilo que é claro e distinto para, a partir daí, instaurar a fulguração desse mesmo poético. Dito de outra maneira: este Holderlin estabelece-se no seio de uma Razão Geométrica, sitia-a, e lança os seus dardos a partir daí; é a célebre traição por dentro tal como a praticaram Diderot, Voltaire e d’ Holbach. Vejam-se também o que poderia ser uma Arte Poética e que ilustra a minha tese:

Pensam que o poema é apenas

Um conjunto de palavras alinhadas?

Não. Em cada poema

cada palavra é uma gota de sangue do ser-poeta.

O poeta é aquele que bebe o cálix até ao fim

- Seja do que for – até ao fim!

Seja de fogo, seja de gelo.

O poeta esvazia o cálix, seja de veneno, seja de amor.

O poeta não gosta do bom gosto

nem aprecia a sensatez.

A poesia nada faz pela metade.

(p 25)

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Como um gato

o poema deve ter pelo sedoso

e língua áspera

chegar rápido e em silêncio

preparar o salto para o teu colo.

Em troca dá-te o ron-ron do universo.

O poema gosta de brincar

jogar com as palavras

enroladas numa bola de papel

mas pode ferir-te com as garras

se o excitares demasiado.

O poema deve ser diurno

mas ver melhor durante a noite

as profundidades da alma.

O poema deve iluminar e cegar.

(pp 42-43)

E todo este Holderlin percorre uma via simultaneamente dual e com dois caminhos paralelos: a) no relativo à biografia do poeta alemão, assumem destaque os poemas onde a figura de Diotima (3) tem uma presença privilegiada (pp 17, 23, 40), mas também se encontram versos com referências à família Zimmer (14/6), que o acolheria nos seus últimos anos; a Píndaro (18/7) poeta que ele traduziria; a Schiller, seu mestre (22/14); ao rio Neckar (16/25), que banha a cidade de Leuffen, onde ele nascera, etc.; b) o segundo caminho é aquele onde o poeta escalpeliza todo este aqui que nos é dado viver, bem como o processo que a este ponto nos trouxe: a “Companhia do Lucro” que nos roubou a alma (18/26); Auschwitz (19/7); Greta na Cimeira Mundial do Clima (20/15); o cerco de Leninegrado (24/22); Hiroxima (27/24); a chuva ácida (39/22), enfim, nada escapa à lucidez – tantas vezes desalentada – do poeta:

Tornei-me uma pessoa sensível, dizem

porque adquiri o hábito de andar com uma navalha no bolso.

Por isso me afasto dos homens.

(p 32)

Esta lucidez está, por vezes, eivada de uma ironia ácida, onde o peso das maiúsculas nos impede qualquer desatenção:

A poesia é um Pandemónio

para os Donos Disto Tudo.

Amo sobretudo as prostitutas, sabes?

São autênticas.

(p 36)

E à pergunta “Que fundações são as deste mundo?” (p 30), MST dá ele mesmo a resposta, que surge, aliás, como título deste meu texto: “Não sabíamos da maldade de razão matemática/ posta ao serviço das engrenagens mecânicas. “(p 19); “Vejo os melhores espíritos da minha geração/ trabalhando em publicidade e marketing.// Outros desenvolvendo algoritmos/ enquanto as baleias sufocam com os plásticos.//(…) E eu perdido neste labirinto, sem fio nem Ariadne.” (p 31). É por esta hecatombe que nos é dada vivenciar, e que o poeta põe a nu, que Isabel Aguiar – no seu rigoroso e poético prefácio a este livro – relaciona, e bem, esta obra de MST com o conceito de meta-ética de Rosenzeig (4): um adequado olhar sobre um livro raro.

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(1) “Ce mouvement est, bien entendu, l’intuition, mais interprétée non pas comme une faculte privilégiée et supraintellectuelle de connaissance, c’est-à-dire comme une manière néo-romantique d’aborder le réel, mais plutôt – et sur ce point Bergson lui-même avait maintes fois insisté – comme capacité de se poser au niveau de la durée et de suivre toutes ses nuances.” Carlo Migliaccio in Bergson pour maître. Magazine littéraire, Nº 333 – Juin 1995, p 36.

(2) “El arte (en particular la poesia y la música), oberva Ortega, era a comienzos del siglo veinte algo de enorme importância tanto por su contenido, que abordaba los grandes problemas de la existência, como por la solemnidad y la dignidade que su ejercicio conferia. En pocos lustros esta digna función se pierde: el arte se há visto investido de um processo de privación de vida, que lo há empujado hacia la periferia de la experiencia vital. El arte se há convertido en algo próximo al juego o, incluso, al deporte, al tiempo que todo Ocidente parece haber entrado en su fase de puerilidad.” Mario Perniola in La estética contemporânea. Madrid: Machado Libros, 2016, pp 49-50.

(3) Susette Gontard, mulher de um aluno seu, Jacob Gontard, que viria a ser o seu grande amor. Após o último encontro de ambos, em 1800, a saúde mental de Holderlin iniciou uma deterioração acentuada.

(4) Cf. Rosenzweig, Franz. L’Étoile de la Rédemption. Paris: Éditions du Seuil, 2003, pp 121-124.

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In Lógos, Biblioteca do Tempo, Nº 9/ Novembro 2021, pp 161-167.

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domingo, 7 de novembro de 2021


E é afinal um modo como qualquer outro de resolver o problema da existência, esse de aproximar suficientemente as coisas e pessoas que de longe nos pareceram belas e misteriosas, para descobrirmos que não têm mistério nem beleza; é uma das higienes que se podem escolher, higiene talvez não muito recomendável, mas que nos dá uma certa calma para passarmos a vida e também nos resignarmos à morte, uma vez que nos faz não lamentar coisa alguma, persuadindo-nos de que alcançámos o melhor, e de que o melhor não é grande coisa.
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 Marcel Proust in Em Busca do Tempo Perdido Vol. 2, à sombra das raparigas em flor. Lisboa: Livros do Brasil, S/d, p 511 (Tradução de Mário Quintana).
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segunda-feira, 1 de novembro de 2021

 

Acaba de sair o Nº 8 da "Revista Fluir" editada por José Pacheco. Nela colaboram, entre outros: José Pacheco, Afonso Reis Cabral, Amadeu Baptista, Isabel Cristina Pires, Victor Oliveira Mateus, Afonso Cruz, Norberto Morais, Patrícia Reis, Fernando Venâncio. Podeis ver a versão digital aqui:

https://online.flippingbook.com/view/220855280/


A versão em papel estará em breve à venda.

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quinta-feira, 28 de outubro de 2021


(...) trazia em mim não só um ideal físico de beleza entrevista e que reconhecia de longe em toda a mulher que passava a distância suficiente para que as suas feições confusas não se opusessem à identificação, mas também o fantasma moral, disposto sempre a encarnar-se, da mulher que ia enamorar-se de mim e dar-me as réplicas naquela comédia amorosa que eu trazia escrita na cabeça desde criança, comédia que, a meu ver, qualquer rapariga amável quereria representar, contanto que tivesse um mínimo de disposições físicas para o seu papel. Nessa obra, e qualquer que fosse a nova "estrela" que eu trazia para que estreasse ou repetisse esse papel, a cena, as peripécias e o texto conservavam uma forma ne varietur.
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 Marcel Proust. Em Busca do Tempo Perdido Vol. 2, à sombra das raparigas em flor. Lisboa: Livros do Brasil, S/d., p 455 (Tradução de Mário Quintana).
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quarta-feira, 27 de outubro de 2021


Mas a essa primeira incerteza de saber se as veria ou não no mesmo dia vinha juntar-se outra mais grave, a de que talvez nunca mais as visse, pois ignorava em suma se deviam partir para a América ou voltar para Paris. Bastava isso para me fazer começar a amá-las. Pode-se ter inclinação por uma pessoa. Mas para desencadear essa tristeza, esse sentimento do irreparável, essas angústias que preparam o amor, é preciso - e talvez isso, e não a pessoa amada, seja o ansiado objecto da paixão - o risco de uma impossibilidade.
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  Marcel Proust. Em Busca do Tempo Perdido Vol. 2, à sombra das raparigas em flor. Lisboa: Livros do Brasil,S/d., pp 398-399 (Tradução de Mário Quintana).
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segunda-feira, 25 de outubro de 2021


 


Está já à venda a prestigiada Revista Lógos - Biblioteca do Tempo Nº 9/ Novembro de 2021 que traz um ensaio meu sobre a poesia de Manuel Silva-Terra.
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sexta-feira, 22 de outubro de 2021

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Uma agradável surpresa de Gisele Wolkoff no Youtube.
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         Poema para Jacqueline


partió
la que traía el firmamento
apresado en la mirada


la que ordenaba las mañanas
aun cuando la noche
nos amenazaba


partió
la que dibujaba lámparas
en los márgenes del alquitrán


y derramaba poesía
más allá de todas las fronteras


partió
pero también quedó
serena y resplandeciente
en la inmensidad
de este misterio que nos rodea


   Victor Oliveira Mateus. Sembradora de poesía, Cosecha para Jacqueline Alencar. Valladolid: editorial Azul, 2021, p 13 (Traducción de A. P. Alencart).
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                   Poema


procuro um poema
um poema que fale de antonio colinas
mas      como condensar tal tema
em três/ quatro estrofes?


para falar de colinas
teria de apreender
tanta tanta coisa:
      um bosque de sonhos
      rios de sombra
      estátuas mutiladas
      córdoba epidauro mozart


são 10:35h da manhã
lisboa brilha de humanidade e sol
como a poesia de colinas
qu'insisto em perscrutar
mas que sempre me escapa
numa grandeza que acena
e resplandece


  Victor Oliveira Mateus. El ciego que ve, Antología en homenaje a Antonio Colinas - XXIV Encuentro de Poetas Iberoamericanos. Salamanca: Edifsa, 2021, p 174 (Antólogo Alfredo Pérez Alencart).
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quinta-feira, 21 de outubro de 2021


 O Prémio Camões - o maior galardão para as Letras em Língua Portuguesa - foi atribuído neste ano de 2021 à romancista moçambicana Paulina Chiziane.

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Seis poemas de vários livros meus surgiram na Revista Italiana Perigeion de 2021/10/20.  A tradução desses textos é da autoria de Marcela Filippi.

Aqui:  https://perigeion.wordpress.com/2021/10/20/victor-oliveira-mateus-poesie/?fbclid=IwAR07Km70QOfNta39wxwwAmTOOh96a9WDNMKgnD7zS_Uc0cL3kncdAqgWYwY

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sábado, 16 de outubro de 2021

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Pré-publicação:
dois poemas do poeta italiano Damiano Sinfonico, do seu livro Lengualuce, e as respetivas traduções para português feitas por mim, surgirão no próximo número da Revista Oresteia.
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È alto e goffo il professore,
un po' più grande della lavagna
sulla quale scrive con precisione
i nomi di registi rari
mas parlando di un russo fa una pausa
e dolcemente si confessa
di quando lavorava di notte
e al mattino si addormentava
davanti a un film di Tarkvskij.
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O professor é alto e desajeitado
um pouco maior do que a ardósia
em que escreve com precisão
nomes de realizadores raros de cinema
mas ao falar de u russo faz uma pausa
e docemente confessa
que quando trabalhava de noite
de manhã adormecia
ante uma película de Tarkovski.
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Nelle biblioteche di provincia
la voce roca e cicalante
che da dietro uno scaffalle
t' impiglia nel suo giro di spola
fra le chiacchiere quotidiane
fa mostra di tutta la polvere, l'opaco
che s'incrosta sulla lingualuce.
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Nas bibliotecas de província
a voz rouca e tagarela
vinda detrás das estantes
prende-se no seu volteio
entre as conversas quotidinas
mostrando toda a poeira, o opaco
que se crava na língualuz. 
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sexta-feira, 15 de outubro de 2021


Realizou-se hoje, dia 15 de outubro de 2021, pelas 11:00H, hora de Espanha, no Colégio Maior Fonseca (Salamanca), a apresentação da Antologia Poética Sembradora de Poesía (Editorial Azul. 2021dedicada a Jacqueline Alencar. Esta obra integra colaborações de autores de vários países entre os quais me incluo.
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quarta-feira, 13 de outubro de 2021


Comemoração: em outubro de 2019 apresentou-se na Livraria Almedina (do Rato) o livro Mulher Bala. Na foto, da esquerda para a direita: Albano Jerónimo, Maria Quintans, Cláudia Lucas Chéu, Miguel Real, Victor Oliveira Mateus, Maria João Cabrita, Meg Rodrigues.
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terça-feira, 12 de outubro de 2021


No XXIV Encuentro de Poetas Iberoamericanos (de Salamanca), Homenaje a António Colinas.
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sexta-feira, 8 de outubro de 2021


 

A atriz brasileira Fernanda Montenegro, atualmente com 92 anos, irá ocupar a Cadeira 17 da ABL (Academia Brasileira de Letras), a votação ainda não foi anunciada, contudo sabe-se que a dita Cadeira lhe pertencerá, já que - por respeito com F.M.  - nenhum outro intelectual resolveu concorrer ao dito lugar.

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A belíssima poesia de Francesco Ottonello lida pelo próprio no Pinerolo Poesía 2021. A escrita deste autor consta já deste blogue e a Revista Oresteia tem dele duas publicações: um ensaio e poesia (bilingue) com versão portuguesa minha.
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quinta-feira, 23 de setembro de 2021


 Parque dos Poetas, Templo da Poesia, Oeiras
Apresentação da Antologia
‘19 POETAS DE PORTUGAL’
Numa edição de Lastura Ediciones (Madrid) apresentamos no dia 1 de Outubro no Templo da Poesia, em Oeiras, com Isabel Miguel e Montserrat Villar González, uma obra única pelo universo representativo da poesia portuguesa actual, com:
Manuel Alegre, Ana Luisa Amaral , Rosa Alice Branco, Casimiro de Brito, Fernando Cabrita, Maria Cantinho, Luis Castro Mendes, Mário Cláudio, Renata Correia Botelho, Maria Teresa Horta, Nuno Júdice, Isabel Isabel Maria Mendes Ferreira, Raquel Nobre Guerra, Victor Oliveira Mateus, Maria do Rosário Pedreira, João Rasteiro, Jorge Reis-Sá, Isabel de Sá, Cláudia R. Sampaio.
Foi com um gosto imenso que assinei o prólogo do volume. Deixo um agradecimento adicional à Lidia López Miguel e à Ana.
Dia 1 de Outubro às 18.00h.
Apoio à apresentação: Município de Oeiras
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quarta-feira, 22 de setembro de 2021

(Excerto do monólogo ficcionado do escultor Miguel Ângelo para o seu jovem modelo Gherardo Perini):
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.Se fosses meu filho, Gherardo, eu não te amaria mais, mas não teria que perguntar-te porquê. Toda a minha vida procurei respostas a perguntas que talvez não tenham resposta (...)
Assim, tu partes. Na minha idade já não se dá importância a uma separação, mesmo que definitiva. Eu bem sei que os seres que amamos e que nos amam mais se vão separando insensivelmente de nós a cada momento que passa. É também deste modo que se vão separando de si próprios. (...) É certo que compreendo que tudo isto é ilusão, como o resto, e que o futuro não existe. Os homens que inventaram o tempo, inventaram por contraste a eternidade, mas a negação do tempo é tão vã como ele próprio. Não há nem passado nem futuro mas apenas uma série de presentes sucessivos, um caminho perpetuamente destruído e continuado onde todos vamos avançando (...)
O amor de alguém é um presente tão inesperado e tão pouco merecido que devemos espantar-nos que não no-lo retirem mais cedo. (...) Não se possui ninguém (mesmo os que pecam não o conseguem) e, sendo a arte a única forma de posse verdadeira, o que importa é recriar um ser e não prendê-lo.
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 Marguerite Yourcenar. O Tempo Esse Grande Escultor. Miraflores: Difel, 2001, pp 18-19 (Tradução de Helena Vaz da Silva).
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segunda-feira, 20 de setembro de 2021


       Desencontro II


o mundo era a tua ostra


eu queria-te
pérola



    Renato Filipe Cardoso. Passageiro do Real. Fafe: Editora Labirinto, 2021, p 82.
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sexta-feira, 17 de setembro de 2021


                   Antes de tempo


éramos tão velozes
que a bala do amor
nos atingiu antes da partida


Renato Filipe Cardoso. Passageiro do real. Fafe: Editora Labirinto, 2021, p 66.

terça-feira, 14 de setembro de 2021


                                       Museu do Futuro

               mano e cielo e terra (Dante, Paradiso, XXV, 2)


Haverá somente peças desirmanadas nesse museu do futuro a que um dia chamámos planeta. Seja esta a melhor hipótese. Ocorreu-me, por entre destroços e sombras, definir o pensamento como o lugar onde corrigimos, em permanência, os abusos e as intrusões que nos legaram. Caminho dentro de uma cidade, retomo a sua capilaridade. Alguém te abandonou, como se abandona um artefacto sem préstimo, excluído da soberania da função, dos seus sistemas e métricas. Deverá haver um dia uma assinalável descrição destes objectos corrompidos, sem uso reconhecível. Haverá vitrinas, vidros limpos que separem a ferida dos que a contemplam, que os separem de vez, que os afastem de uma pestífera vontade de toque e apropriação. Cada um dos visitantes desse museu de peças desirmanadas será uma fera domiciliada na sua impotência perante o Paraíso que está para lá da mão, do céu, e da terra..
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 Luís Quintais. Ângulo Morto. Porto: Assírio & Alvim, 2021, p 107.
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segunda-feira, 13 de setembro de 2021

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 Lembro-me do meu pai a tremer

de frio. O seu corpo magro

sacudido pela fúria do vento


numa praia fora de estação.

Lembro-me de como era frágil,

sem peso, exposto.


É essa a minha condição.

Eu sou aquele que se expõe

e morre ferido por uma lembrança.



   Luís Quintais. Ângulo Morto. Porto: Assírio & Alvim, 2021, p 32.

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segunda-feira, 6 de setembro de 2021


             Encantador de pássaros


Encantador de pássaros, tenho nos dedos o instante
dos rios em que se oculta um leve bater de asas,
a mestria do aceno reflectido no lago,
a chuva como a pele nas ledas madrugadas.
Um anelo de sedes irrompe-me dos lábios
reclamando da boca a memória da água,
o vitral de uma luz que venha e não se atarde
a derramar o sol entre cristais de orvalho.
Não sei como deter esta abstracta vontade de absorver o opaco,
segurar entre as mãos o adejar das asas,
beber a alquimia da lonjura do voo
predestinado à melodia da obscuridade
que carrega consigo o segredo das ásvores
e deixo-me ficar, como barro sedento,
ou vertigem de musgo segurando-se à laje,
observando o azul de um telhado sem casa
e o espanto da miragem crecendo num menino parado.


  Fernando Fitas. Elegia dos Pássaros. Fafe: Editora Labirinto, 2021, p 58.
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domingo, 5 de setembro de 2021


                         Rarefação


certas tardes a presença das coisas e de nós
rarefaz-se até ao remorso


é em março, em junho, em setembro,
caímos na melancolia do silêncio
sobre as paredes,
não habitamos lugar nenhum,
somos inóspitos
e sós


o ar queima ao passar 
nas narinas e pela boca


é como se uma violência
mansa, desmedida,
deslassasse o mundo
e fosse culpa nossa


como se nem a poesia
pudesse suportar dor tamanha,
nem para ela houvesse
consolo ou outra forma
de expiação


João Ricardo Lopes. Eutrapelia. Fafe: Editora Labirinto, 2021, p 48.
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