sábado, 1 de outubro de 2022
terça-feira, 27 de setembro de 2022
O PEN Clube Português congratula-se por divulgar a lista dos finalistas dos Prémios PEN 2022 com o apoio da DGLAB.
domingo, 18 de setembro de 2022
quarta-feira, 14 de setembro de 2022
(…)
e, ao mesmo tempo, não será através do olhar que as palavras precedem as
frases, pois jamais se viu alguém articular palavras antes de as organizar em
frases, por mais incorretas e coxas que possam ser? Os gramáticos, que expõem
doutrinalmente a ciência perfeita, ensinam primeiro o alfabeto, depois a
morfologia, depois a sintaxe; mas esta ordem didática é uma ordem “de
fabricação” que implica um longo trabalho anterior, e o que nesse trabalho de
elaboração inventiva aparece como “elementar”, não é um átomo alfabético –
fruto secundário de uma abstração, são “totalidades faladas”; a prova é que os
“métodos diretos”, cujo objetivo é acelerar a aprendizagem das línguas vivas,
esforçam-se por imitar a ordem viva e de criar o mais rapidamente possível essas
totalidades faladas graças à manipulação simultânea de todos os seres
gramaticais: substantivos, verbos, conjunções (…) porque nós não falamos apenas
com adjetivos, nem apenas com preposições, os métodos visam dar-nos desde o
princípio a totalidade da frase, e é posteriormente que a desdobram com uma
precisão crescente. Notemos, aliás, que as letras e as sílabas têm apenas
realidade “gráfica”; oralmente, quero dizer na vida da linguagem, não existem
letras, nem sílabas, mas relações, movimentos intelectuais que visam
exprimir-se; é que as palavras em-si comportam
algo mais do que uma realidade escrita ou visual; porque, na língua falada, as
palavras empregues isoladamente são elas mesmas quase sempre preposições
implicadas ou “gestos” verbais, quero dizer, ainda totalidades, mas totalidades
nas quais a distinção mental do sujeito, da cópula e do predicado não se
articulou em discurso: não assinalou Bergson nas palavras uma tendência natural
para se anastomosar em frases? (Cf. “Matiére et mémoire”, p 124). Fragmentos da
preposição que é, como observa Henri Delacroix (Cf. “Le langage et la pensée”,
p 492), verdadeira unidade da linguagem, as palavras tornam-se átomos
indiferentes e indeterminados; mas todas essas generalidades, se entrecruzam
por um jogo de relações gramaticais, adquirindo um sentido preciso e particular.
É porque o esforço intelectual vai do sentido para os signos, e não dos signos
para o sentido: as nossas ideias só são suscetíveis de ser pensadas no interior
de um contexto espiritual que as oriente.
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Vladimir Jankélévitch. Henri Bergson. Paris: Presses Universitaires de France, 1959, pp 17-18 (Tradução de Victor Oliveira Mateus).
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terça-feira, 6 de setembro de 2022
quarta-feira, 31 de agosto de 2022
terça-feira, 30 de agosto de 2022
segunda-feira, 29 de agosto de 2022
domingo, 14 de agosto de 2022
quarta-feira, 10 de agosto de 2022
sábado, 6 de agosto de 2022
Ana Luísa Amaral, 1956/04/05 - 2022/08/05
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A Ana Luísa é uma das mais importantes vozes poéticas das últimas décadas. Como pessoa era de uma inteireza rara, de uma generosidade invulgar. Esta partida deixa em "nós", para além da saudade, um vazio difícil de preencher. Jamais esquecerei tantas gentilezas recebidas! Alguns dos seus poemas estão em Antologias e em Revistas que coordenei. Há pessoas, que, apesar de partirem fisicamente, ficam também - e sempre - dentro de nós.
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terça-feira, 26 de julho de 2022
domingo, 24 de julho de 2022
sábado, 23 de julho de 2022
quinta-feira, 21 de julho de 2022
segunda-feira, 18 de julho de 2022
quarta-feira, 13 de julho de 2022
terça-feira, 12 de julho de 2022
quinta-feira, 7 de julho de 2022
LIVRA-ME DO REINO DA
QUANTIDADE
Livra-me do reino da quantidade.
Não permitas que seja
valorado
pelo número de amigos ou
de seguidores
que pudesse ter numa coisa
chamada rede.
Faz de mim esse milagre
minúsculo como a folha de um salgueiro acabada de irromper.
Apaga a minha assinatura
eletrónica dos servidores que me sufocam.
Limpa de servilismos a
minha rotina.
Faz com que me escutem
ainda que seja eu o único que diz o que digo.
Faz com que não tenha de
pedir milhares
ou dezenas de milhar de
assinaturas para obter uma ligeira mutação na ordem do mundo.
Livra-me das estatísticas,
dos megafones, dos muitos.
Livra-me do engenho que
seduz os fáceis.
Faz com que não tenha de
me integrar em equipas.
Destrói a palavra
cronograma.
Apaga os documentos em que
anotei
o que vou pensar e sonhar
nos próximos anos.
Concede transparência ao
meu futuro.
Investe-me com a sabedoria
da árvore,
Guarda para mim uma
partícula da integridade de Sócrates
quando molha os seus pés
no rio de Atenas.
Que possa sonhar único,
escrever como único
rodeado de únicos.
Deixa-me que vista as
minhas melhores roupas
para ler os clássicos.
Não tenha de olhar para as
listas de ficção ou da não ficção,
as cifras de audiência, o
número de visitantes.
Retira-me da cultura de
massas que me oprime a caixa torácica
com o seu descaramento
crescente em proporção geométrica.
Faz com que a razão como
um vento delicado cruze no meu cérebro outros cérebros sem gritos.
Dá-me força para
prosseguir ainda que não tenha ninguém
que acompanhe o meu
pensamento.
Dá-me um coração sensato,
mas não excluas a loucura nem a valentia necessárias
para me opor com elegância
às necessidades,
para ser invulnerável às
modas,
para prescindir das
bibliografias com um golpe de audácia.
Cumpre a tua promessa: Que
se abram as portas.
Arromba as grades das
reuniões, dos conselhos, comités, comissões e assembleias,
para que possa irromper a
manhã em que sopra a primavera impaciente.
Apaga as convocatórias e
as notificações.
Tu, que és inimigo
acérrimo de todo o absurdo,
anula de vez as
entelequias.
Faz com que não tenha de
preencher mais formulários.
Livra a minha pele os
códigos de barras.
Deixa que tire de cima de
mim as cifras alfanuméricas que o Poder me impõe.
Conduz-me ao meu tempo, à
época da água.
Deixa que me descalce no
meio do prado.
Deixa-me ser o último
qualitativo.
Concede-me que viva como
Montaigne
ou como Jaccottet à luz do inverno.
Liberta-me do reino da quantidade.
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Juan Antonio Gonzalez Iglesias. Confiado. Madrid: Visor Libros, 2015, pp 32-34 (Tradução de Victor Oliveira Mateus).
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