sábado, 1 de outubro de 2022


                  O relógio avariado


é a memória
de velhos segundos
que alimenta
esse pulso?


os ponteiros mancos
de avanços 
e recuos


às dez para as oito
de qual luto?


qual foi o dia dessa morte
que ainda se agita ao fundo?


( se o que se ouve
em teu ritmo
não pode ser o eco
de algum espírito


se em ti
nada excede
a engrenagem


que fez
de tua máquina
miragem)


sussurram os segundos
que ainda te restam
na memória: é esse
o pulso?


teu luto
cego
   e surdo?


de tudo
o óbvio


do tempo
que não redime
os relógios


  Iacyr Anderson Freitas. Os campos calcinados. São Paulo: Faria e Silva Editora, 2022, pp 50-51.
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terça-feira, 27 de setembro de 2022

 O PEN Clube Português congratula-se por divulgar a lista dos finalistas dos Prémios PEN 2022 com o apoio da DGLAB.

Narrativa
Ana Margarida de Carvalho, Cartografias de Lugares mal Situados (10 Contos da Guerrra) (Relógio D’Água)
Djaimilia Pereira de Almeida, Maremoto (Relógio D’Água)
Mário Cláudio, Embora eu seja um velho errante (Dom Quixote)
Teolinda Gersão, O Regresso de Júlia Mann a Paraty (Porto Editora)
Teresa Noronha, Tornado (Exclamação)
Poesia
Daniel Jonas, Cães de Chuva (Assírio & Alvim)
Graça Pires, Antígona Passou Por Aqui (Poética Edições)
José Manuel de Vasconcelos, Os grandes lagos da noite (Húmus)
José Tolentino Mendonça, Introdução à Pintura Rupestre (Assírio & Alvim).
Luís Filipe Castro Mendes, Voltar (Assírio & Alvim)
Ensaio
Eduarda Neves, 35 Graus Celsius. ensaios sobre arte contemporânea (Palimpsesto)
Jorge Fazenda Lourenço, Jorge de Sena, 939 Randolph Road: Exílio, Erotismo, Escatologia (Documenta)
Manuel Frias Martins, A Lágrima de Ulisses. Regimes da Cultura Literária (Exclamação)
Maria Irene Ramalho, fernando pessoa e outros fingidores (Tinta da China)
Pedro Cabral, O Paradoxo do Cérebro. Memória. Autismo. Identidade (Temas e Debates, Círculo de Leitores)
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ssoas
 

domingo, 18 de setembro de 2022


Hacía una tarde suave y húmeda que olía a hojas negras putrefactas y a humo de madera. Cuando bajaron del automóvil ante la verja de sua casa, el olor del cedro salió a recibirlos. Durando el trayecto apenas habían hablado, excepto cuando Laurie le indicaba el camino a Ralph.
Al salir de la iluminada sala les pareció que estaba ya muy oscuro (...). Por una gieta de las cortinas asomaba un resplandor de fuego. El cedro extendía sus largas manos oscuras en el gesto de un mago que incita al sueño.
- Así que esta es tu casa - dijo Ralph.
- Sí, hace cuatro horas que es mía... Parece distinta.
Ralph se quedó mirándola en silencio y posteriormente dijo en voz baja:
- No podía ser de otra manera.
Avanzaron juntos por el sendero sin hablar hasta que Ralph preguntó:
- Te la vas a quedar?
- Si puedo.
- Tienes que quedártela. Es una parte de ti. Venderla te traería mala suerte.
Laurie se volvió bajo las negras alas del cedro.
- Crees en la suerte?
- Soy marino - contestó Ralph.

Laurei supo que debía de haberse dormido porque el fuego se estaba apagando. Ya se habían adormilado en un par de ocasiones pero no durante mucho rato; abrían los ojos con la caída de las brasas y echaban a las últimas llamas un manojo de piñas o unas ramitas de abeto del montón. (...) Cada vez hacía más frío, pero todavía se estaba bien; tenía la sensación de que si no se movía, el tiempo también se detendría y no haría falta que existiera nada más que aquello.


  Mary Renault. El Auriga. Barcelona: Debolsillo, 2007, pp 398-399.
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quarta-feira, 14 de setembro de 2022

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(…) e, ao mesmo tempo, não será através do olhar que as palavras precedem as frases, pois jamais se viu alguém articular palavras antes de as organizar em frases, por mais incorretas e coxas que possam ser? Os gramáticos, que expõem doutrinalmente a ciência perfeita, ensinam primeiro o alfabeto, depois a morfologia, depois a sintaxe; mas esta ordem didática é uma ordem “de fabricação” que implica um longo trabalho anterior, e o que nesse trabalho de elaboração inventiva aparece como “elementar”, não é um átomo alfabético – fruto secundário de uma abstração, são “totalidades faladas”; a prova é que os “métodos diretos”, cujo objetivo é acelerar a aprendizagem das línguas vivas, esforçam-se por imitar a ordem viva e de criar o mais rapidamente possível essas totalidades faladas graças à manipulação simultânea de todos os seres gramaticais: substantivos, verbos, conjunções (…) porque nós não falamos apenas com adjetivos, nem apenas com preposições, os métodos visam dar-nos desde o princípio a totalidade da frase, e é posteriormente que a desdobram com uma precisão crescente. Notemos, aliás, que as letras e as sílabas têm apenas realidade “gráfica”; oralmente, quero dizer na vida da linguagem, não existem letras, nem sílabas, mas relações, movimentos intelectuais que visam exprimir-se; é que as palavras em-si  comportam algo mais do que uma realidade escrita ou visual; porque, na língua falada, as palavras empregues isoladamente são elas mesmas quase sempre preposições implicadas ou “gestos” verbais, quero dizer, ainda totalidades, mas totalidades nas quais a distinção mental do sujeito, da cópula e do predicado não se articulou em discurso: não assinalou Bergson nas palavras uma tendência natural para se anastomosar em frases? (Cf. “Matiére et mémoire”, p 124). Fragmentos da preposição que é, como observa Henri Delacroix (Cf. “Le langage et la pensée”, p 492), verdadeira unidade da linguagem, as palavras tornam-se átomos indiferentes e indeterminados; mas todas essas generalidades, se entrecruzam por um jogo de relações gramaticais, adquirindo um sentido preciso e particular. É porque o esforço intelectual vai do sentido para os signos, e não dos signos para o sentido: as nossas ideias só são suscetíveis de ser pensadas no interior de um contexto espiritual que as oriente.

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 Vladimir Jankélévitch. Henri Bergson. Paris: Presses Universitaires de France, 1959, pp 17-18 (Tradução de Victor Oliveira Mateus).

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terça-feira, 6 de setembro de 2022


Héracles de pé junto à janela olhando o escuro antes da madrugada.
Quando faziam amor
Gerião gostava de tocar em lenta sucessão cada um dos ossos das costas de Héracles
à medida que se dobravam para longe de si
até a um qualquer sonho obscuro, passando as mãos
desde o início do pescoço
até ao fim da coluna, causando-lhe arrepios como uma raíz à chuva.
Héracles faz
um som baixo e move a cabeça na almofada, abre lentamente os olhos.
Começa.
Gerião o que se passa? Fogo, detesto quando choras. O que foi?
Gerião pensa intensamente.
Amei-te um dia, agora não te conheço. Não o diz.
Estava a pensar no tempo - ele tacteia -
sabes, como as pessoas estão distantes no tempo juntas e distantes
ao mesmo tempo - pára.
Héracles limpa as lágrimas do rosto de Gerião
com a mão. Não podes apenas foder e não pensar? Héracles sai da cama
e entra na casa-de-banho.
Depois volta e fica de pé junto à janela um longo bocado. Quando regressa
para a cama já está a amanhecer.
Bem Gerião é só mais um sábado de manhã eu a rir e tu a chorar,
diz, enquanto se deita.
Gerião vê-o a puxar o cobertor até ao queixo. Como nos velhos tempos,
Como nos velhos tempos, diz igualmente Gerião.


  Anne Carson. Autobiografia do vermelho. S/c.: não (edições), 2020, pp 149-150 (Tradução de João Concha e Ricardo Marques).
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quarta-feira, 31 de agosto de 2022


Face a outro ser humano os nossos comportamentos definem-se.

Gerião estava surpreendido consigo mesmo. Agora via Héracles quase todos os dias.
O instante natural
formando-se entre os dois drenou cada gota das paredes da sua vida
deixando para trás apenas fantasmas
farfalhando como um velho mapa. Não tinha nada a dizer a ninguém.
Sentia-se solto e brilhante.
Ardia na presença da mãe.
Já quase nem te conheço, disse ela encostada à porta do quarto dele.
(...)
O amor não
me tornou gentil ou bondoso, pensou Gerião enquanto ele e a sua mãe se olhavam
a partir de cantos opostos da luz.
Ele enchia os bolsos com dinheiro, chaves, rolos. Ela bateu levemente com o cigarro nas costas da mão.
(...)
A que horas voltas para casa? Perguntou ela. Não muito tarde, respondeu.
Uma pura e ousada vontade de desaparecer invadiu-o.
Diz-me Gerião o que é que tu gostas neste rapaz nesse Héracles podes dizer-me?
Se te posso dizer, pensou Gerião.
Mil coisas que não podia contar passaram-lhe pela cabeça. Héracles sabe muito sobre arte. Temos boas conversas.
Ela olhava não para ele mas através dele à medida que colocava o cigarro por acender no bolso da frente da camisa..
"Como é que a distância se mostra?" é uma simples pergunta directa. Estende-se a partir de um interior sem espaço até ao limite
do que pode ser amado. Depende da luz. Acendo isso? disse ele tirando
a caixa de fósforos
dos jeans enquanto caminhava até ela. Não querido. Ela afastava-se.
Devia mesmo deixar isto.


  Anne Carson. Autobiografia do vermelho. S/c.: não (edições), 2020, pp 48-49 (Tradução de Ricardo Marques e João Concha).
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terça-feira, 30 de agosto de 2022


Estou sentada na
beira da cama
imparcial, transformei-me em cristal, tu entras

trazendo amor em forma de
uma caixa de cartão (vazia)
um bolso (vazio)
algumas mãos (também vazias)

Tem cuidado digo mas
como podes tu
     a coisa
vazia surge das tuas mãos, enche
o quarto lentamente, é uma
premência, uma ausência de
premência
     Como criatura do fundo
do mar com ossos de vidro e olhos
de bolacha trazida
à superfície, rompo-

-me, os pedaços de mim
brilham brevemente nas tuas mãos vazias


   Margaret Atwood. Políticas de poder. Lisboa: Relógio D' Água Editores, 2022, p 93 (Tradução de Ana Luísa Amaral).
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segunda-feira, 29 de agosto de 2022


        A voz poética não fidedigna


Não ouças o que eu digo; partiram-me o coração.
Não há nada que eu veja objetivamente.

Conheço-me a mim mesma; aprendi a escutar como um psiquiatra.
Quando falo apaixonadamente,
é quando sou menos de confiança.

Realmente é muito triste: toda a vida me elogiaram
pela minha inteligência, os meus poderes de lingagem, de perspicácia.
No fim, foram um desperdício -

Nunca me vejo,
de pé nos degraus da entrada, a dar a mão à minha irmã.
É por isso que não posso explicar
as nódoas negras no braço dela, onde termina a manga.

Dentro da minha mente, sou invisível: por isso sou perigosa.
As pessoas como eu, que parecem abnegadas,
somos nós as anormais, as mentirosas;
somos aquelas a quem se devia dar o desconto
a bem da verdade.

Quando me calo, é quando a verdade irrompe.
Um céu limpo, as nuvens como fibras brancas.
Por baixo, uma casinha cinzenta, com azáleas
de vermelho e rosa brilhante.

Para se ter a verdade, é preciso resguardarmo-nos
de ver a irmã mais velha, tapá-la;
quando se magoa assim uma coisa viva,
nos seus mais fundos mecanismos,
todas as funções se alteram.

É por isso que não sou de confiança.
Porque uma ferida no coração
é também uma ferida na mente.


   Louise Gluck. Ararate. Lisboa: Relógio D' Água Editores, 2021, pp 41-43 (Tradução de Margarida Vale de Gato).
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domingo, 14 de agosto de 2022


                    Clarão


Certas noites, quando sou o último
a sair da sala, gosto de fingir
que me esqueço de apagar a luz
e deixo a luz acesa toda a noite

     É claro que são mais uns quantos euros
     na conta da EDP ao fim do mês.
     Mas há coisas mais vastas do que o dinheiro,
     coisas que não é com euros que se medem.

Foi bom ter havido toda a noite
aquele clarão silencioso,
que, como o chicote na mão do domador,
espancou as trevas e as reenviou
para o sujo lugar donde tinham vindo.

Sim, uma vezes por outras, é aconselhável
esquecer-se a gente de apagar a luz,
e fazer assim com que a noite
não seja enormemente noite.
Fazer com que um sucedâneo do dia
se sobreponha à noite,
para não tropeçarmos nos escolhos
que fazem da noite aquele lugar de trevas,
perigos, ameaças, aflições.


    A. M. Pires Cabral. caderneta de lembranças. Lisboa: Tinta-da-China, 2021, p 10.
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quarta-feira, 10 de agosto de 2022


                Et nunc manet in te

Meu amor,
a casa está tão sozinha que
os pássaros vêm morrer lá dentro.
Nada mudou, mas falta
a mão para acariciar o gato
e acolher a ninhada secreta,
o sorriso que enchia o tanque
a fazia crescer a horta.

Já ninguém apanha as laranjas mais altas
ou usa a sombra da nogueira.
E até os ciprestes se tornaram redundantes
ao ponto de os abatermos:
a ausência diz-se melhor no esplendor
inútil das rosas sem esse olhar,
nas papoilas raras que duram
o tempo de uma fotografia.

Um dia, deixaremos também uma casa assim,
casulo abandonado a sobreviver-nos.
Um de nós escutará as asas ansiosas
na chaminé, antes de pousar o livro
e amparar o último pássaro.
Só parecerá menos triste
porque não teremos, então,
nada mais a perder.


  Inês Dias. Cerveja & Neve. Lisboa: Averno, 2020, pp 58-59.
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sábado, 6 de agosto de 2022

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 Ana Luísa Amaral, 1956/04/05 - 2022/08/05

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A Ana Luísa é uma das mais importantes vozes poéticas das últimas décadas. Como pessoa era de uma inteireza rara, de uma generosidade invulgar. Esta partida deixa em "nós", para além da saudade, um vazio difícil de preencher. Jamais esquecerei tantas gentilezas recebidas! Alguns dos seus poemas estão em Antologias e em Revistas que coordenei. Há pessoas, que, apesar de partirem fisicamente, ficam também - e sempre - dentro de nós.

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terça-feira, 26 de julho de 2022


      o tempo não faz concessões ao tempo


o olhar vai nu, desfasado das intenções que o tempo ardeu
dos dois lados do espelho.
atrás das costas move-se uma brisa imparável.
pressinto a doença no corpo que desenlaça discretamente a
luz e segue adiante.
o tempo não faz concessões ao tempo.
a sombra jurou fidelidade à luz desde o primeiro engano.


   Maria José Quintela. Breviário de Sombras. Fafe: Editora Labirinto, 2022, p 31.
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domingo, 24 de julho de 2022


                 Altro Compimento


È il primo di febbraio: e quando stamattina
ho aperto le persiane, nella terra di un vaso
ho scorto questo segno - una testina viva
un mezzo centimetro di verde senza colpa
che sarà tulipano, corolla fiammeggiante,

bucava la sua tana e il corso anticipava

e proprio l'altro giorno sui colli e nei giardini
scoppiavano mimose con squilli nel tepore
e dicono che i ghiri, i tassi e le marmotte
stravolti nel letargo si affaccino anzitempo
a vivere il risveglio traditi nell' istinto

e cosa ancora accade che sfugge al nostro sguardo
non tanto li all' esterno, ma al nostro microcosmo
dell' anima l' abisso, la sfida addormentata

a un orizzonte degno - un altro compimento.
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  Luca Bardoni. Anno naturale. Firenze: Passigli Editori, 2021, p 38 ( prefazione di Tommaso Lisa).
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sábado, 23 de julho de 2022


Não regresses do teu naufrágio,
tenho pedras no coração e uma neblina nos olhos
que me ofusca a memória.


Não regresses do teu naufrágio,
as palavras morreram onde as cotovias
procuravam amoras, framboesas e poemas de lume.


Não regresses do teu naufrágio,
os barcos atravessaram o sol, os bosques estão em silêncio,
o teu nome foi escrito nos lábios do vento.


  Luís Aguiar. No regaço da madrugada. Fafe: Editora Labirinto, 2022, p 25.
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quinta-feira, 21 de julho de 2022


                  La buscadora y la sombra


No SE ENCUENTRA lo que se busca,
                                             si una no está preparada.
Yo fui buscando una luz, arañando el silencio de tus
ojos, rasgando el manto de los nada, con un dejo in-
consciente de amargura. Y encontré lunas llenas de
lágrimas, extendidas por la humedad de los páramos.
Encontré una llama sin (co)lapso y una flor equívoca
con un corazón tan negro como el resplandor del sol.
La luna masculina/ alemana me dijo: "hay que sombrear
la luz, darle la oscuridad de una orquídea y el latir
de un corazón verdadero". Toda fui huida, retorno,
negror, al fin Sombra: Sombra del hombre bajo mi
pesado párparo de luz y lloré, improvisando el
Olvido, de memoria, porque quien busca la luz
tiene que descubrir el verdadero sentido de la Sombra.


   Santiago Aguaded Landero. Volaverunt opus nigrum. Sevilla: Algaida Editores, 2018, p 65.
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segunda-feira, 18 de julho de 2022


                                  Vida


Os meus mortos não morreram nem sequer me pertencem.
Vivem na fímbria das estrelas, em animadas conversas
com deuses de parte incerta, que lhes invejam a graça,
o estilo e o modo peculiar como dobram
com a ponta da língua algumas consoantes mais afoitas.
Os meus mortos espreitam-me sempre do lado de lá.
Vigiam-me o sono com os seus delicados olhos de âmbar
e ciciam palavras redentoras que me agasalham os dias
e apaziguam as noites mais escuras.
Os meus mortos visitam-me sem se fazerem anunciar.
Trazem-me memórias embrulhadas nos mais finos cetins,
cobertas com uma fina película de orvalho,
que apenas me atrevo a abrir
quando pouso a cabeça sobre a almofada
e ouço as suas vozes suaves virem ao meu encontro.


  Sérgio Almeida. revolver. Lisboa: Guerra e Paz Editores, 2022, p 32.
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quarta-feira, 13 de julho de 2022


      Inventário


Nu
desprevenido
sentado sobre um tufo de urtigas
delas sofrendo a irritação
tomada como dádiva
de quem assim se oferece em calado amor
e mágoa
aceitando a espinha encravada na garganta
espinha miúda e ligeiro memorial
da vida contra o nada

tão vasto é o drama da terra
entre humanos e seus cúmplices e vítimas
no circuito imparável do terror
- feroz diagonal da sufocação -

esta pequena dor
não constará no inventário divino


   Levi Condinho. Colheita serôdia, inéditos e dispersos. Vila Nova de Famalicão: Edições Húmus, 2020, p 33.
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terça-feira, 12 de julho de 2022


             Ressonância magnética


O amor verdadeiro não cabe nas palavras
é um incêndio sem nome uma longa viagem
que a solidão percorre à luz de ouro dos dias
Tal como a força do mar com seu rumor sem fim
recebe-o um areal sempre desabitado
ou as falésias firmes prontas à combustão
do sol nascente
Envelhece lado a lado o amor mais perfeito
mas é diante do frio que bem se faz sentir
a marcha do crepúsculo a folhagem do tempo
caída no lago das palavras perante espigas que
resistem
na estranha lealdade que junta
o coração aos dedos infinitos
Apesar das razões do corpo
das suas vadiagens perdidas
o amor verdadeiro é uma morada
que dispensa o sentido


   José Manuel de Vasconcelos. Os grandes lagos da noite. Vila Nova de Famalicão: Edições Húmus, 2021, p 7.
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quinta-feira, 7 de julho de 2022


LIVRA-ME DO REINO DA QUANTIDADE

 

 Livra-me do reino da quantidade.

Não permitas que seja valorado

pelo número de amigos ou de seguidores

que pudesse ter numa coisa chamada rede.

Faz de mim esse milagre minúsculo como a folha de um salgueiro acabada de irromper.

Apaga a minha assinatura eletrónica dos servidores que me sufocam.

Limpa de servilismos a minha rotina.

Faz com que me escutem ainda que seja eu o único que diz o que digo.

Faz com que não tenha de pedir milhares

ou dezenas de milhar de assinaturas para obter uma ligeira mutação na ordem do mundo.

Livra-me das estatísticas, dos megafones, dos muitos.

Livra-me do engenho que seduz os fáceis.

Faz com que não tenha de me integrar em equipas.

Destrói a palavra cronograma.

Apaga os documentos em que anotei

o que vou pensar e sonhar nos próximos anos.

Concede transparência ao meu futuro.

Investe-me com a sabedoria da árvore,

Guarda para mim uma partícula da integridade de Sócrates

quando molha os seus pés no rio de Atenas.

Que possa sonhar único, escrever como único

rodeado de únicos.

Deixa-me que vista as minhas melhores roupas

para ler os clássicos.

Não tenha de olhar para as listas de ficção ou da não ficção,

as cifras de audiência, o número de visitantes.

Retira-me da cultura de massas que me oprime a caixa torácica

com o seu descaramento crescente em proporção geométrica.

Faz com que a razão como um vento delicado cruze no meu cérebro outros cérebros sem gritos.

Dá-me força para prosseguir ainda que não tenha ninguém

que acompanhe o meu pensamento.

Dá-me um coração sensato, mas não excluas a loucura nem a valentia necessárias

para me opor com elegância às necessidades,

para ser invulnerável às modas,

para prescindir das bibliografias com um golpe de audácia.

Cumpre a tua promessa: Que se abram as portas.

Arromba as grades das reuniões, dos conselhos, comités, comissões e assembleias,

para que possa irromper a manhã em que sopra a primavera impaciente.

Apaga as convocatórias e as notificações.

Tu, que és inimigo acérrimo de todo o absurdo,

anula de vez as entelequias.

Faz com que não tenha de preencher mais formulários.

Livra a minha pele os códigos de barras.

Deixa que tire de cima de mim as cifras alfanuméricas que o Poder me impõe.

Conduz-me ao meu tempo, à época da água.

Deixa que me descalce no meio do prado.

Deixa-me ser o último qualitativo.

Concede-me que viva como Montaigne

ou como Jaccottet à luz do inverno.

Liberta-me do reino da quantidade.

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 Juan Antonio Gonzalez Iglesias. Confiado. Madrid: Visor Libros, 2015, pp 32-34 (Tradução de Victor Oliveira Mateus).

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quarta-feira, 6 de julho de 2022


           margem

 

afinal não era difícil

 

 tranquei as portas

entaipei as janelas

calafetei todas as frestas

 

 deixei num estendal perdido

rodilhos robertos restos

 

 e trouxe para dentro

os livros a música os amigos

apenas os mais leais

 

 e digo entredentes

fodam-se uns aos outros

que a mim não fodem mais

 

 (Inédito)

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domingo, 3 de julho de 2022


os dias de Soror Alicante do Céu
no mosteiro de Soole


o castigo e o cinto
a lã ao postigo
(é pecado mijar
no silêncio da grade)


o mendigo enganado
o bardo e o frade
de cotão no umbigo
e espinho do cardo


o carneiro inchado
a donzela porreira
de seio fanado
e liga de freira


o cilício de nastro
o amante filtrado
o cu de alabastro
da alcoviteira


o fim do silêncio
a angústia monástica
a fita de enxofre


(que lua fantástica!)
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  António Ferra. lengas e narrativas. Vila Nova de Famalicão: Edições Húmus, 2022, pp 41-42.
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sexta-feira, 1 de julho de 2022


                Elegia retomada

Turistas que pastais ao sol poente
olhai:
António Nobre passou por aqui um dia
achacado e só
(os males de Anto, já se vê)
à frente do cortejo tísico de velhas como choupos,
de pescadores e virgens enluaradas.
É certo que em Paris não aprendera línguas
mas escrevia fluentemente o português
e sobretudo lia
lia Garrett mais este livro triste que é Portugal
escrito sobre as margens do nosso largo rio emocional,
lia-o por dentro como mais ninguém nas linhas
e entrelinhas onde cresciam musgos
e misérias.
Mas porquê lixar-vos com estas tretas?
- os Cursos de Verão são na Faculdade de Letras
e ainda vão na 44ª edição! -
Ficai à vontade!
Passados os estivais calores de '75
podeis de novo encharcar-vos da melancolia deste país
em que de Abril
só restam m/águas mil:
servi-vos do sal ou do céu
com que temperamos a humidade que nos vai na alma
bebei-nos o sol de norte a sul
fotografai-nos os rostos espantados
para entulho e glória dos Museus do Subdesenvolvimento
contemporâneo.
Mas sabei que um rio subterrâneo
recomeça dentro de nós a comprimir-se contra as margens.


   Urbano Bettencourt. outros nomes outras guerras, Antologia. Lajes do Pico: Companhia das Ilhas, 2014, pp 13-14.
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