quinta-feira, 5 de janeiro de 2023


            Estrela Cadente


Se disseres a palavra
eu ficarei tão contente,
cantarei como cantava
quando eu era inocente.


Se disseres a palavra
me espantarei novamente,
voarei como voava
e era pássaro e vidente.


Se disseres a palavra
voltarei rapidamente
como antes eu voltava,


Se disseres a palavra
será uma estrela cadente
que junto de nós brilhava.
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  José Eduardo Degrazia. Os melhores poemas. Porto Alegre: editora Bestiário, 2022, p 65 (Organização e Prefácio de Eduardo Jablonski).
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segunda-feira, 2 de janeiro de 2023


Attack

At dawn the ridge emerges massed and dun
In the wild purple of the glowering sun
Smouldering through spouts of drifting smoke that shroud
The menacing scarred slope; and, one by one,
Tanks creep and topple forward to the wire.
The barrage roars and lifts. Then, clumsily bowed
With bombs and guns and shovels and battle-gear,
Men jostle and climb to meet the bristling fire.
Lines of grey, muttering faces, masked with fear,
They leave their trenches, going over the top,
While time ticks blank and busy on their wrists,
And hope, with furtive eyes and grappling fists,
Flounders in mud. O Jesu, make it stop!

   Siegfried Sasson. The war poems. p 35.
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domingo, 1 de janeiro de 2023


  Todos os campos de girassóis a arder no coração


Quando me vestiram de Charlot
Eu não sabia quem era Charlot.
Tinha um chapéu e um colete negro
uma gravata negra sobre uma camisa branca
um olhar que não saberia descrever.
É difícil dizer com palavras um olhar.

A paz de um olhar humano é um incêncio
e a natureza de um incêndio é fazer nascer.

(Eu tinha umas pantufas vermelhas)
E uma camisola de lã grossa
E a minha avó -
foi certamente a minha avó -
vestiu-me de Charlot
num dia de Carnaval

O vento sopra quente
       e o trigo estremece -

O coração é um campo em chamas.


  Nuno Brito. Escrever um poema sobre a liberdade e vê-lo arder. Valle de Valdeflores: Ediciones Liliputienses, 2022, pp 85-86.
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domingo, 27 de novembro de 2022


PRÉMIO DE POESIA RUY BELO DE 2022

Obra Vencedora: 
Caderneta de Lembranças de A. M. Pires Cabral


Menções Honrosas:
Cerveja & Neve de Inês Dias

Livro da Perfeita Alegria de Eugénia de Vasconcellos


Júri:
José Manuel Mendes em representação da APE (Associação Portuguesa de Escritores)
Victor Oliveira Mateus em representação da APCL (Associação Portuguesa dos Críticos Literários)
Ricardo António Alves em representação da CMS (Câmara Municipal de Sintra)

Todas as decisões foram aprovadas por unanimidade. A cerimónia de entrega dos Prémios será comunicada oportunamente..


Para a notícia desenvolvida, ver aqui: https://cm-sintra.pt/atualidade/cultura/oram-anunciados-os-vencedores-dos-premios-literarios-de-sintra-2022
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quinta-feira, 17 de novembro de 2022


O romance O Diabo Desceu em Chichester encontra-se já em pré-venda e chegará às livrarias na primeira semana de dezembro.
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terça-feira, 1 de novembro de 2022


Soubeste levar contigo os meus sentidos


Não pergunto quem és,
porque só te posso oferecer simples palavras
atrás de um ecrã inerte.

Não espero respostas,
pois a tua presença justifica-se
pelos momentos que me fazem viver o verão,
apesar da lonjura que nos separa.

Então tu chegas,
e só procuro não te surpreender com sussurros
perante essa essência tua que me ensurdece.

Detestas os tectos de barro
que te impõe o lugar onde nasceste,
mas és capaz de te apaixonares pelas dissidências
que têm um inequívoco significado.

Descansa sobre ti um sedutor desejo
que alberga múltiplos rostos
atrás desses luzeiros escuros que esboça o teu olhar.

A tua incessante mudança é motivo para relegar os dias
à atracção da novidade, ao estado ensimesmado
daquele que descobre o fulgor
do dinamismo.

A pólvora das tuas palavras
pressupõe uma rebeldia de amanheceres
e provoca o desejo de carregar com serenidade
a impulsividade que existe em ti.
Muitos desejavam modelar o que seduz
por trás do teu sorriso.

Por vezes o mistério
esconde-se atrás de exuberantes virtudes.

Sempre que te vais eu fico a imaginar a tua sedução.
É que soubeste levar contigo os meus sentidos.


José Alfredo Pérez Alencar. Tambores no abismo. Fafe: Editora Labirinto, 2022, pp 59-61 (Tradução de Leocádia Regalo).
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sábado, 29 de outubro de 2022


elle ouvre toute grande sa main
contre l' effroi
sa langue aussi de plus en plus
toute grande, héroique

comment faire le guet autrement
loin
qui parle ainsi, d' où
sans pleurer, ni enrager ni trahir

sa langue multiplie son mauvais genre
sous l' oeil autre
des pères forcément, la forme
ce qui leur appartient

alors que tant de voiles et d'armes
sur tant de figures
plus forte que tout
cette main
et son excés de e frivoles

leur insolence d' étoiles font les syllabes curieuses
qui prolongent le croquis, la plage
bulbes sonores
plantés
côtte à côte, couteau et plaie
(...)


Denise Desautels. L'angle noir de la joie, suivi de D'où surgit parfois un bras d'horizon. Paris; Éditions Gallimard, 2022, pp 83-84 (Préface de Louise Dupré).
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domingo, 9 de outubro de 2022


LISTA DOS VENCEDORES DOS PRÉMIOS PEN 2022

Poesia

Vencedor: José Manuel de Vasconcelos, "Os grandes lagos da noite", Editora Húmus


Júri

Victor Oliveira Mateus (Presidente)
Ana Mafalda Leite
Ronaldo Cagiano


Ensaio

Vencedor: Pedro Cabral, "O paradoxo do cérebro. Memória. Autismo. Identidade", Editora Temas e Debates/ Círculo dos Leitores


Júri

Pires Laranjeira (Presidente)
Teresa Duarte Carvalho
Teresa Malafaia


Narrativa

Vencedor: Teresa Noronha, "Tornado", Editora Exclamação


Júri

Miguel Serras Pereira (Presidente)
Luís Naves
Patrícia Infante da Câmara
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domingo, 2 de outubro de 2022



A memória,
tribo de lâmpadas azedas.


  Alberto Pereira. Ecocardiograma. Vila Nova de Famalicão: Edições Húmus, 2022, p 53.


A infância,
um bouquet de colmeias no peito
e o sangue desenhado por Miró.


Idem, p 33.


Não sei se foi em Bach
ou nos olhos da minha mãe
que vi Deus nevar a primeira vez.


Idem, ibidem, p 16.
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sábado, 1 de outubro de 2022


                  O relógio avariado


é a memória
de velhos segundos
que alimenta
esse pulso?


os ponteiros mancos
de avanços 
e recuos


às dez para as oito
de qual luto?


qual foi o dia dessa morte
que ainda se agita ao fundo?


( se o que se ouve
em teu ritmo
não pode ser o eco
de algum espírito


se em ti
nada excede
a engrenagem


que fez
de tua máquina
miragem)


sussurram os segundos
que ainda te restam
na memória: é esse
o pulso?


teu luto
cego
   e surdo?


de tudo
o óbvio


do tempo
que não redime
os relógios


  Iacyr Anderson Freitas. Os campos calcinados. São Paulo: Faria e Silva Editora, 2022, pp 50-51.
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terça-feira, 27 de setembro de 2022

 O PEN Clube Português congratula-se por divulgar a lista dos finalistas dos Prémios PEN 2022 com o apoio da DGLAB.

Narrativa
Ana Margarida de Carvalho, Cartografias de Lugares mal Situados (10 Contos da Guerrra) (Relógio D’Água)
Djaimilia Pereira de Almeida, Maremoto (Relógio D’Água)
Mário Cláudio, Embora eu seja um velho errante (Dom Quixote)
Teolinda Gersão, O Regresso de Júlia Mann a Paraty (Porto Editora)
Teresa Noronha, Tornado (Exclamação)
Poesia
Daniel Jonas, Cães de Chuva (Assírio & Alvim)
Graça Pires, Antígona Passou Por Aqui (Poética Edições)
José Manuel de Vasconcelos, Os grandes lagos da noite (Húmus)
José Tolentino Mendonça, Introdução à Pintura Rupestre (Assírio & Alvim).
Luís Filipe Castro Mendes, Voltar (Assírio & Alvim)
Ensaio
Eduarda Neves, 35 Graus Celsius. ensaios sobre arte contemporânea (Palimpsesto)
Jorge Fazenda Lourenço, Jorge de Sena, 939 Randolph Road: Exílio, Erotismo, Escatologia (Documenta)
Manuel Frias Martins, A Lágrima de Ulisses. Regimes da Cultura Literária (Exclamação)
Maria Irene Ramalho, fernando pessoa e outros fingidores (Tinta da China)
Pedro Cabral, O Paradoxo do Cérebro. Memória. Autismo. Identidade (Temas e Debates, Círculo de Leitores)
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ssoas
 

domingo, 18 de setembro de 2022


Hacía una tarde suave y húmeda que olía a hojas negras putrefactas y a humo de madera. Cuando bajaron del automóvil ante la verja de sua casa, el olor del cedro salió a recibirlos. Durando el trayecto apenas habían hablado, excepto cuando Laurie le indicaba el camino a Ralph.
Al salir de la iluminada sala les pareció que estaba ya muy oscuro (...). Por una gieta de las cortinas asomaba un resplandor de fuego. El cedro extendía sus largas manos oscuras en el gesto de un mago que incita al sueño.
- Así que esta es tu casa - dijo Ralph.
- Sí, hace cuatro horas que es mía... Parece distinta.
Ralph se quedó mirándola en silencio y posteriormente dijo en voz baja:
- No podía ser de otra manera.
Avanzaron juntos por el sendero sin hablar hasta que Ralph preguntó:
- Te la vas a quedar?
- Si puedo.
- Tienes que quedártela. Es una parte de ti. Venderla te traería mala suerte.
Laurie se volvió bajo las negras alas del cedro.
- Crees en la suerte?
- Soy marino - contestó Ralph.

Laurei supo que debía de haberse dormido porque el fuego se estaba apagando. Ya se habían adormilado en un par de ocasiones pero no durante mucho rato; abrían los ojos con la caída de las brasas y echaban a las últimas llamas un manojo de piñas o unas ramitas de abeto del montón. (...) Cada vez hacía más frío, pero todavía se estaba bien; tenía la sensación de que si no se movía, el tiempo también se detendría y no haría falta que existiera nada más que aquello.


  Mary Renault. El Auriga. Barcelona: Debolsillo, 2007, pp 398-399.
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quarta-feira, 14 de setembro de 2022

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(…) e, ao mesmo tempo, não será através do olhar que as palavras precedem as frases, pois jamais se viu alguém articular palavras antes de as organizar em frases, por mais incorretas e coxas que possam ser? Os gramáticos, que expõem doutrinalmente a ciência perfeita, ensinam primeiro o alfabeto, depois a morfologia, depois a sintaxe; mas esta ordem didática é uma ordem “de fabricação” que implica um longo trabalho anterior, e o que nesse trabalho de elaboração inventiva aparece como “elementar”, não é um átomo alfabético – fruto secundário de uma abstração, são “totalidades faladas”; a prova é que os “métodos diretos”, cujo objetivo é acelerar a aprendizagem das línguas vivas, esforçam-se por imitar a ordem viva e de criar o mais rapidamente possível essas totalidades faladas graças à manipulação simultânea de todos os seres gramaticais: substantivos, verbos, conjunções (…) porque nós não falamos apenas com adjetivos, nem apenas com preposições, os métodos visam dar-nos desde o princípio a totalidade da frase, e é posteriormente que a desdobram com uma precisão crescente. Notemos, aliás, que as letras e as sílabas têm apenas realidade “gráfica”; oralmente, quero dizer na vida da linguagem, não existem letras, nem sílabas, mas relações, movimentos intelectuais que visam exprimir-se; é que as palavras em-si  comportam algo mais do que uma realidade escrita ou visual; porque, na língua falada, as palavras empregues isoladamente são elas mesmas quase sempre preposições implicadas ou “gestos” verbais, quero dizer, ainda totalidades, mas totalidades nas quais a distinção mental do sujeito, da cópula e do predicado não se articulou em discurso: não assinalou Bergson nas palavras uma tendência natural para se anastomosar em frases? (Cf. “Matiére et mémoire”, p 124). Fragmentos da preposição que é, como observa Henri Delacroix (Cf. “Le langage et la pensée”, p 492), verdadeira unidade da linguagem, as palavras tornam-se átomos indiferentes e indeterminados; mas todas essas generalidades, se entrecruzam por um jogo de relações gramaticais, adquirindo um sentido preciso e particular. É porque o esforço intelectual vai do sentido para os signos, e não dos signos para o sentido: as nossas ideias só são suscetíveis de ser pensadas no interior de um contexto espiritual que as oriente.

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 Vladimir Jankélévitch. Henri Bergson. Paris: Presses Universitaires de France, 1959, pp 17-18 (Tradução de Victor Oliveira Mateus).

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terça-feira, 6 de setembro de 2022


Héracles de pé junto à janela olhando o escuro antes da madrugada.
Quando faziam amor
Gerião gostava de tocar em lenta sucessão cada um dos ossos das costas de Héracles
à medida que se dobravam para longe de si
até a um qualquer sonho obscuro, passando as mãos
desde o início do pescoço
até ao fim da coluna, causando-lhe arrepios como uma raíz à chuva.
Héracles faz
um som baixo e move a cabeça na almofada, abre lentamente os olhos.
Começa.
Gerião o que se passa? Fogo, detesto quando choras. O que foi?
Gerião pensa intensamente.
Amei-te um dia, agora não te conheço. Não o diz.
Estava a pensar no tempo - ele tacteia -
sabes, como as pessoas estão distantes no tempo juntas e distantes
ao mesmo tempo - pára.
Héracles limpa as lágrimas do rosto de Gerião
com a mão. Não podes apenas foder e não pensar? Héracles sai da cama
e entra na casa-de-banho.
Depois volta e fica de pé junto à janela um longo bocado. Quando regressa
para a cama já está a amanhecer.
Bem Gerião é só mais um sábado de manhã eu a rir e tu a chorar,
diz, enquanto se deita.
Gerião vê-o a puxar o cobertor até ao queixo. Como nos velhos tempos,
Como nos velhos tempos, diz igualmente Gerião.


  Anne Carson. Autobiografia do vermelho. S/c.: não (edições), 2020, pp 149-150 (Tradução de João Concha e Ricardo Marques).
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quarta-feira, 31 de agosto de 2022


Face a outro ser humano os nossos comportamentos definem-se.

Gerião estava surpreendido consigo mesmo. Agora via Héracles quase todos os dias.
O instante natural
formando-se entre os dois drenou cada gota das paredes da sua vida
deixando para trás apenas fantasmas
farfalhando como um velho mapa. Não tinha nada a dizer a ninguém.
Sentia-se solto e brilhante.
Ardia na presença da mãe.
Já quase nem te conheço, disse ela encostada à porta do quarto dele.
(...)
O amor não
me tornou gentil ou bondoso, pensou Gerião enquanto ele e a sua mãe se olhavam
a partir de cantos opostos da luz.
Ele enchia os bolsos com dinheiro, chaves, rolos. Ela bateu levemente com o cigarro nas costas da mão.
(...)
A que horas voltas para casa? Perguntou ela. Não muito tarde, respondeu.
Uma pura e ousada vontade de desaparecer invadiu-o.
Diz-me Gerião o que é que tu gostas neste rapaz nesse Héracles podes dizer-me?
Se te posso dizer, pensou Gerião.
Mil coisas que não podia contar passaram-lhe pela cabeça. Héracles sabe muito sobre arte. Temos boas conversas.
Ela olhava não para ele mas através dele à medida que colocava o cigarro por acender no bolso da frente da camisa..
"Como é que a distância se mostra?" é uma simples pergunta directa. Estende-se a partir de um interior sem espaço até ao limite
do que pode ser amado. Depende da luz. Acendo isso? disse ele tirando
a caixa de fósforos
dos jeans enquanto caminhava até ela. Não querido. Ela afastava-se.
Devia mesmo deixar isto.


  Anne Carson. Autobiografia do vermelho. S/c.: não (edições), 2020, pp 48-49 (Tradução de Ricardo Marques e João Concha).
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terça-feira, 30 de agosto de 2022


Estou sentada na
beira da cama
imparcial, transformei-me em cristal, tu entras

trazendo amor em forma de
uma caixa de cartão (vazia)
um bolso (vazio)
algumas mãos (também vazias)

Tem cuidado digo mas
como podes tu
     a coisa
vazia surge das tuas mãos, enche
o quarto lentamente, é uma
premência, uma ausência de
premência
     Como criatura do fundo
do mar com ossos de vidro e olhos
de bolacha trazida
à superfície, rompo-

-me, os pedaços de mim
brilham brevemente nas tuas mãos vazias


   Margaret Atwood. Políticas de poder. Lisboa: Relógio D' Água Editores, 2022, p 93 (Tradução de Ana Luísa Amaral).
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segunda-feira, 29 de agosto de 2022


        A voz poética não fidedigna


Não ouças o que eu digo; partiram-me o coração.
Não há nada que eu veja objetivamente.

Conheço-me a mim mesma; aprendi a escutar como um psiquiatra.
Quando falo apaixonadamente,
é quando sou menos de confiança.

Realmente é muito triste: toda a vida me elogiaram
pela minha inteligência, os meus poderes de lingagem, de perspicácia.
No fim, foram um desperdício -

Nunca me vejo,
de pé nos degraus da entrada, a dar a mão à minha irmã.
É por isso que não posso explicar
as nódoas negras no braço dela, onde termina a manga.

Dentro da minha mente, sou invisível: por isso sou perigosa.
As pessoas como eu, que parecem abnegadas,
somos nós as anormais, as mentirosas;
somos aquelas a quem se devia dar o desconto
a bem da verdade.

Quando me calo, é quando a verdade irrompe.
Um céu limpo, as nuvens como fibras brancas.
Por baixo, uma casinha cinzenta, com azáleas
de vermelho e rosa brilhante.

Para se ter a verdade, é preciso resguardarmo-nos
de ver a irmã mais velha, tapá-la;
quando se magoa assim uma coisa viva,
nos seus mais fundos mecanismos,
todas as funções se alteram.

É por isso que não sou de confiança.
Porque uma ferida no coração
é também uma ferida na mente.


   Louise Gluck. Ararate. Lisboa: Relógio D' Água Editores, 2021, pp 41-43 (Tradução de Margarida Vale de Gato).
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domingo, 14 de agosto de 2022


                    Clarão


Certas noites, quando sou o último
a sair da sala, gosto de fingir
que me esqueço de apagar a luz
e deixo a luz acesa toda a noite

     É claro que são mais uns quantos euros
     na conta da EDP ao fim do mês.
     Mas há coisas mais vastas do que o dinheiro,
     coisas que não é com euros que se medem.

Foi bom ter havido toda a noite
aquele clarão silencioso,
que, como o chicote na mão do domador,
espancou as trevas e as reenviou
para o sujo lugar donde tinham vindo.

Sim, uma vezes por outras, é aconselhável
esquecer-se a gente de apagar a luz,
e fazer assim com que a noite
não seja enormemente noite.
Fazer com que um sucedâneo do dia
se sobreponha à noite,
para não tropeçarmos nos escolhos
que fazem da noite aquele lugar de trevas,
perigos, ameaças, aflições.


    A. M. Pires Cabral. caderneta de lembranças. Lisboa: Tinta-da-China, 2021, p 10.
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quarta-feira, 10 de agosto de 2022


                Et nunc manet in te

Meu amor,
a casa está tão sozinha que
os pássaros vêm morrer lá dentro.
Nada mudou, mas falta
a mão para acariciar o gato
e acolher a ninhada secreta,
o sorriso que enchia o tanque
a fazia crescer a horta.

Já ninguém apanha as laranjas mais altas
ou usa a sombra da nogueira.
E até os ciprestes se tornaram redundantes
ao ponto de os abatermos:
a ausência diz-se melhor no esplendor
inútil das rosas sem esse olhar,
nas papoilas raras que duram
o tempo de uma fotografia.

Um dia, deixaremos também uma casa assim,
casulo abandonado a sobreviver-nos.
Um de nós escutará as asas ansiosas
na chaminé, antes de pousar o livro
e amparar o último pássaro.
Só parecerá menos triste
porque não teremos, então,
nada mais a perder.


  Inês Dias. Cerveja & Neve. Lisboa: Averno, 2020, pp 58-59.
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sábado, 6 de agosto de 2022

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 Ana Luísa Amaral, 1956/04/05 - 2022/08/05

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A Ana Luísa é uma das mais importantes vozes poéticas das últimas décadas. Como pessoa era de uma inteireza rara, de uma generosidade invulgar. Esta partida deixa em "nós", para além da saudade, um vazio difícil de preencher. Jamais esquecerei tantas gentilezas recebidas! Alguns dos seus poemas estão em Antologias e em Revistas que coordenei. Há pessoas, que, apesar de partirem fisicamente, ficam também - e sempre - dentro de nós.

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terça-feira, 26 de julho de 2022


      o tempo não faz concessões ao tempo


o olhar vai nu, desfasado das intenções que o tempo ardeu
dos dois lados do espelho.
atrás das costas move-se uma brisa imparável.
pressinto a doença no corpo que desenlaça discretamente a
luz e segue adiante.
o tempo não faz concessões ao tempo.
a sombra jurou fidelidade à luz desde o primeiro engano.


   Maria José Quintela. Breviário de Sombras. Fafe: Editora Labirinto, 2022, p 31.
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domingo, 24 de julho de 2022


                 Altro Compimento


È il primo di febbraio: e quando stamattina
ho aperto le persiane, nella terra di un vaso
ho scorto questo segno - una testina viva
un mezzo centimetro di verde senza colpa
che sarà tulipano, corolla fiammeggiante,

bucava la sua tana e il corso anticipava

e proprio l'altro giorno sui colli e nei giardini
scoppiavano mimose con squilli nel tepore
e dicono che i ghiri, i tassi e le marmotte
stravolti nel letargo si affaccino anzitempo
a vivere il risveglio traditi nell' istinto

e cosa ancora accade che sfugge al nostro sguardo
non tanto li all' esterno, ma al nostro microcosmo
dell' anima l' abisso, la sfida addormentata

a un orizzonte degno - un altro compimento.
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  Luca Bardoni. Anno naturale. Firenze: Passigli Editori, 2021, p 38 ( prefazione di Tommaso Lisa).
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sábado, 23 de julho de 2022


Não regresses do teu naufrágio,
tenho pedras no coração e uma neblina nos olhos
que me ofusca a memória.


Não regresses do teu naufrágio,
as palavras morreram onde as cotovias
procuravam amoras, framboesas e poemas de lume.


Não regresses do teu naufrágio,
os barcos atravessaram o sol, os bosques estão em silêncio,
o teu nome foi escrito nos lábios do vento.


  Luís Aguiar. No regaço da madrugada. Fafe: Editora Labirinto, 2022, p 25.
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quinta-feira, 21 de julho de 2022


                  La buscadora y la sombra


No SE ENCUENTRA lo que se busca,
                                             si una no está preparada.
Yo fui buscando una luz, arañando el silencio de tus
ojos, rasgando el manto de los nada, con un dejo in-
consciente de amargura. Y encontré lunas llenas de
lágrimas, extendidas por la humedad de los páramos.
Encontré una llama sin (co)lapso y una flor equívoca
con un corazón tan negro como el resplandor del sol.
La luna masculina/ alemana me dijo: "hay que sombrear
la luz, darle la oscuridad de una orquídea y el latir
de un corazón verdadero". Toda fui huida, retorno,
negror, al fin Sombra: Sombra del hombre bajo mi
pesado párparo de luz y lloré, improvisando el
Olvido, de memoria, porque quien busca la luz
tiene que descubrir el verdadero sentido de la Sombra.


   Santiago Aguaded Landero. Volaverunt opus nigrum. Sevilla: Algaida Editores, 2018, p 65.
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