quinta-feira, 19 de maio de 2022



Queria confundir-me
num bando de pássaros em migração,
mas perco o meu tempo.


Sinto muito, não minto
e não saio deste labirinto.


Sigo de embaraço em embaraço,
ser adulto tem de ser isto.


Passam-se dias, semanas,
sem saber de ti,
pior, sem sentir saudade.


Bebo,
fumo mais cigarros,
faço bom e mau sexo,
vou ao cinema,
vejo demasiada televisão,
deixo os livros, quase sempre,
sem virtude, a meio
e os poemas também.
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 Raquel Serejo Martins. Valsa a vau. Lisboa: Poética Grupo Editorial, 2021, p 110.
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quarta-feira, 18 de maio de 2022



Este poema tem um gato e um pardal,

o gato mata o pardal,

o gato não come o pardal,

é um gato sem fome,

é uma morte inútil,

é a tua indiferença perante a dor de um pássaro,

és tu sem perceber que também sou pássaro

e que morro inutilmente todos os dias.


 Raquel Serejo Martins. Valsa a vau. Lisboa: Poética Grupo Editorial, 2021, p 38.

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            Não te esqueças


De levar o melhor de cada um,
a potência plural de cada um,
o olhar mais sincero de cada um
quem te salvou,
quem olhaste nos olhos,
quem amaste profundamente
quem amas profundamente
com toda a luz do teu coração.


Não te esqueças de te sentar no lugar mais improvável,
por exemplo:
em frente de uma repartição no domingo, às três horas da tarde
na berma de uma autoestrada, no meio de um estádio vazio,
a meio do trajeto para tua casa,
de te sentares na berma,
de pôr as mãos no joelho
de respirar profundamente;
de não esperar nada de ti nem de ninguém –
de esperar tudo – absolutamente tudo – de ti e de toda a gente.
De aproximar uma folha dos olhos.
De imaginar o mar prateado
de comer a dobrada mais fria,
de fazer festas a um cão malhado:
e Arder. Arder. Arder.


Que amanhã dez mil borboletas vão chegar a Michoacan,
que para os gregos humanidade era um verbo,
que tudo é caminho e perder-se faz também parte do caminho,
que virar certas páginas é um incêndio
que este é um poema para a vida
que os animais não choram –
que os animais não riem –
que és um animal privilegiado
que afinal os animais choram e os animais riem
e que tens de esquecer tudo novamente
e aprender tudo outra vez a cada segundo que passa,
que uma pessoa é uma coisa que arde,
que madura, que ri, que se sustenta dentro de um fio,
que agora mesmo alguém cai abruptamente,
que uma estrela do mar é virtualmente eterna
e pode nunca morrer –
que um poema pode nunca morrer –
que um poema nunca morre – que na verdade (e talvez
virtualmente)
morremos a cada segundo (com um relógio no pulso)
que agora mesmo, no centro da América, uma mãe decide não
respirar,
dançar por dentro, nascer novamente,
que, devagar, um caracol sobe um muro branco numa aldeia da
Sicília
que um homem começa a sua marcha,
que nada se detém quando um homem começa a sua marcha,
que um continente pulsa,
que só podemos ver com os olhos dos outros.


Não te esqueças de perder uma chave,
de chegar atrasado a todos os compromissos,
de te sentar a meio do teu percurso,
no lugar mais inesperado, na hora mais inesperada,


De respirar fundo
De arder...

               Não te esqueças.
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Nuno Brito. Ode Menina. Porto: Editora Exclamação, 2021, pp 22-23.
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terça-feira, 17 de maio de 2022


Junto ao cais aprendi alguns dissabores,
por exemplo: a altura em que atento
à sombra do copo de cerveja
me falaste com olhos húmidos
de uma tarde de pura liberdade
passeando por cidades desertas.


Não desaprendi a memória, não:
guardo-a comigo para usos modernos.
Soube esperar melhor alguns momentos
de pouca importância, já não anseio
sentado no espelhado colo da noite.


Na verdade, perdi-me a bom perder
de todos os enredos que me trazes agora à mesa
como um mapa nervoso de veios marinhos.


Dois amigos encontram-se uma, duas vezes,
para sempre perdidos da memória que foi.
Alguém, quiçá um de nós, se lembrará de dizer:
«É bom, ainda é bom estar aqui.»
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Frederico Pedreira. Coração Lento. Porto: Assírio & Alvim, 2021, p 64.
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segunda-feira, 16 de maio de 2022


A saudade era outra.
As praias corriam livres de gaivotas
para o fundo do mar.
Só amanhecia tarde.
Tudo era muito tarde para nós,
vivíamos juntos sem o sabermos.

*

O canto da ave
aterra no meu ombro
polido, entre a concreta confusão
os olhos vendados avançam
para mais uma hora chegada
ao lume das conversas.
*

A noite na terra:
tenho os materiais todos reunidos,
as trevas do trabalho — lápis, aparas,
as réstias do desengonçado estaleiro.



O ecrã baço faz destilar a pobreza do verbo.
As parcas notícias no televisor submarino
de uma pacata vila costeira —
música de câmara para a morte que tarda.
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Frederico Pedreira. Coração Lento. Porto: Assírio & Alvim, 2021, pp 24-25.
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terça-feira, 26 de abril de 2022


 O Ronda Leiria Poetry Festival decorreu de 22 a 25 de abril na cidade de Leiria com a presença de vários escritores portugueses e estrangeiros. Na foto, a Mesa 1 do dito Festival que foi dedicada às Revistas de Poesia e ocorreu na Biblioteca Municipal Afonso Lopes Vieira, no dia 23 pelas 11:00H. Nessa Mesa e da esquerda para a direita: Mirna Queiroz (Revista Pessoa), Maria João Cantinho (Revista Caliban), Paulo Costa (Revista Acanto e moderador do debate), Victor Oliveira Mateus (Revista Oresteia) e André Osório (Revista Lote).
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domingo, 17 de abril de 2022


O RONDA - Leiria Poetry Festival
decorre na cidade de Leiria de 22 a 25 de abril de 2022.
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Mesa 1: no dia 23 de abril de 2022, 11:00H, na Biblioteca Afonso Lopes Vieira
Tema da mesa: as Revistas de Poesia (nela estarão presentes autores que dirigem algumas das principais revistas de poesia de Portugal).
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André Osório (Revista Lote)
Maria João Cantinho (Revista Caliban)
Mirna Queiroz (Revista Pessoa)
Victor Oliveira Mateus (Revista Oresteia)
Moderador do debate: o poeta Paulo José Costa.
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sexta-feira, 25 de março de 2022

 Coimbra, 19 de Março de 1943 - Faz pena. A gente elege entre trinta mil almas meia dúzia de indivíduos para conviver, e, afinal, chega perto deles a defender uma pureza política, uma pureza profissional, uma pureza sexual, e caem sobre nós mil argumentos dum pragmatismo dúbio, suspeito, que confrange. Longe de se receber estímulo para combater as tentações, encontra-se um escorregadoiro conivente para o abismo delas - É o meio - repito de cada vez, a tentar iludir-me. Mas é inútil vendar os olhos. Até o meio geográfico se pode vencer, quanto mais o meio social. Na luta contra as atraccções inferiores do ambiente humano é que está precisamente a beleza duma vida. O meio! Eles é que são o meio, assim perdidos, duplos, comprometidos com a podridão até à raiz.


Miguel Torga. Diário II. Coimbra: 4ª Edição, pp 144-145.

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sábado, 19 de março de 2022


DIA MUNDIAL DA POESIA: 21 de março de 2022.
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Numa iniciativa conjunta da George Mason University (Virgínia, U.S.A.) e da P.U.C.M.M. (Pontifícia Universidad Católica Madre y Maestra  da República Dominicana) celebra-se, no próximo dia 21, o Festival Arte Vivo (de Poesia) com colaborações de autores de vários países. Atendendo ao facto de se terem de considerar os fusos horários dos diversos países, a colaboração portuguesa iniciar-se-á às 9:00H de Lisboa. O Festival prolongar-se-á ao longo das 24 horas desse dia e pode ser acompanhado nos canais do Facebook e do You Tube das referidas Universidades. A delegação portuguesa é formada pelos seguintes autores:
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Leocádia Regalo
João de Mancelos
João Rasteiro
José António Franco
Maria do Sameiro Barroso
Maria Toscano
Miguel Barreto
Victor Oliveira Mateus
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domingo, 13 de março de 2022


  Geres, 23 de Agosto de 1942 - Não queira coisas impossíveis, - dizia-me hoje uma mulherzinha que andava na serra à lenha, quando eu tentava subir a uma penedia inacessível.
   - Quero, quero! - respondi-lhe obstinado.
   Ela então olhou-me com uns doces olhos de ovelha tosquiada pela vida, e sorriu melancòlicamente. Depois, pôs o molho à cabeça, e partiu.
   E eu fiquei-me o resto da tarde ali, a ver cair o sol e a pensar em que sonho irrealizável teria aquela alma simples posto um dia o desejo, para com a sua desilusão formular uma frase tão carregada de renúncia e amargura.


   Miguel Torga. Diário II. Coimbra: 4ª Edição, p 58.
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terça-feira, 8 de março de 2022

Lamego, 22 de Março de 1940 - Não há nada que resista ao tempo. Como uma grande duna que se vai formando grão a grão, o esquecimento cobre tudo.        

   Ainda há dias pensava nisto a propósito de não sei que afecto. Nisto de duas pessoas julgarem que se amam tresloucadamente, de não terem mùtuamente no corpo e no pensamento senão a imagem do outro, e daí a meia dúzia de anos não se lembrarem sequer de que tal amor existiu, cruzarem-se numa rua sem qualquer estremecimento, como dois desconhecidos.   

    Esta certeza, hoje então, radicou-se ainda mais em mim.

   Fui ver a casa onde passei um dos anos cruciais da minha vida de menino. E nem as portas, nem as janelas, nem o panorama em frente me disseram nada. Tinha cá dentro, é certo, uma nebulosa sentimental de tudo aquilo. Mas o concreto, o real, o número de degraus da escada, a cara da senhoria, a significação terrena de tudo aquilo, desaparecera.


 Miguel Torga. Diário I. Coimbra: 7ª Edição, pp 135-136.

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segunda-feira, 7 de março de 2022

 

Coimbra, 6 de Dezembro de 1938 - Dia de confissão geral. Isto e aquilo da minha vida, do meu temperamento, desta incapacidade que tenho de criar harmonia. Os meus sete pecados mortais em carne viva.

...Quinto - a sede de amor absoluto que me devora;

    Sexto  - o clima tropical de violência e ternura que envolve o que penso e faço.  Absolvido.

     Depois do sétimo, porque não tentava eu dar forma capaz a tudo quanto dizia, que era realmente belo?   Porque não. Porque um homem não se escreve.

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 Miguel Torga. Diário I. Coimbra: 7ª Edição, p 85.

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sábado, 5 de março de 2022


         Pedaços


O teu pensamento
quebra-se nas palavras
dos teus lábios

Recolho com cuidado os pedaços
ordeno-os, firo-me,
e crio um novo pensamento
meu.
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 Thurídur Gudmundsdóttir. Pelos nossos corações passa a linha de fogo, antologia de poesia islandesa. S/c.; Ed. Contracapa, 2021, p 266 (Versão portuguesa de Amadeu Baptista).
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sexta-feira, 4 de março de 2022


Foi eleita ontem, dia 3 de abril de 2022, a lista dos novos corpos sociais do PEN CLUBE PORTUGUÊS:
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MESA DA ASSEMBLEIA GERAL:
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PRESIDENTE- Teresa Martins Marques
PRIMEIRA SECRETÁRIA - Rita Marnoto
SEGUNDA SECRETÁRIA - Teresa Sousa de Almeida
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DIRECÇÃO:
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PRESIDENTE- Fernanda Mota Alves
TESOUREIRO E VICE- PRESIDENTE- José Mário Leite
SECRETÁRIA- Maria João Cantinho
VOGAL- Elisabete M. de Sousa
VOGAL - Alcinda Pinheiro
SUPLENTE- Fernanda Gil Costa
SUPLENTE- João Rasteiro
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CONSELHO FISCAL:
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PRESIDENTE- Victor Oliveira Mateus
VOGAL - Rodolfo Begonha
VOGAL- Filipa Vera Jardim
SUPLENTE- Teresa Carvalho
SUPLENTE- Sérgio Guimarães de Sousa
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terça-feira, 1 de março de 2022


                     Vocação


Ali vai, o glutão e ébrio
quantas vezes não desejei
deixar a minha cruz da casa
e segui-lo?
poderia sentar-me a seus pés
à sombra de uma figueira
e admirar
as suas graciosas palavras
ou correr com ele na praia
ou vê-lo desenhar na areia figuras de peixes
ou ir buscar barro
para modelar pássaros
depois iríamos a uma festa
de algum cobrador de impostos
ou a uma boda camponesa
onde houvesse bastante
que comer e beber
com muito gosto armaria a tenda na praça
escandalizando os fiéis da paróquia
e derrubaria as mesas dos vendedores
no pátio do templo.
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 Vilborg Dagbjartsdóttir. Pelos nossos corações passa a linha de fogo, antologia de poesia islandesa. S/c.: Ed. Contracapa, 2021, pp 171-172 (Versão portuguesa de Amadeu Baptista).
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quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022


        Hora de voo


É o verão
que pinta de azul as empenas
do amanhecer.
Ninguém o pode negar.

A trombeta muda de som
quando é outono na montanha.
Canta, pássaro.

Ele coroou o vento de flores
que exalaram o seu aroma
desde que ela as viu.

Canta, pássaro
canta e afugenta os caminhos da noite.


  Stefán Hordur Grímsson. Pelos nossos corações passa a linha de fogo, antologia de poesia islandesa. S/c.: Ed. Contracapa, 2021, p 90 (Versão portuguesa de Amadeu Baptista).
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quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022


Se te dou a mão é por receio, é a maldade dos corpos
que como árvores se despem no vento. Solitárias.
A idade que tudo transfigura. A solidão nasceu
e em pedras deixou-se ficar nos leitos
onde as águas escorregam mudas e em pânico,
os seus leitos de morte, de pânico surdo.
Soou o desespero dos homens, as sombras mais severas
vibraram
ao peso do ar, e é noite.
Água escura sobre tão solitárias pedras,
no vazio das janelas
que se querem trancadas, por onde o vento
sem licença para entrar.
Os corpos não se despem mas pela mão unem-se
no seu lamento comum.


  Miguel Marques. Canto de Tebas. Silveira: Letras Errantes, 2021, p 46.
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terça-feira, 22 de fevereiro de 2022


Quando, meu Deus, irão inventar
um computador que tenha capacidade
não só de recordar
mas também de esquecer,
esquecer rangendo docemente?
Bem sei
que não vou ver esse dia,
no entanto continuo à espera,
ardentemente,
com a tremenda força de todos os meus defeitos.


  Penti Saaritsa. O mundo adormecido espera impaciente, antologia de poesia finlandesa. S/c.: Ed. Contracapa, 2021, p 302 (Versão portuguesa de Amadeu Baptista).

 

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022


Quando o verão tinha descarregado a sua chuva como folhas
e também as folhas tinham caído, tinha chegado Setembro,
vi deslizar um pássaro sobre a minha cabeça,
uma sombra de mim que vivia na terra,
presságio de Outubro, sem palavras, mas a mesma canção.

  Bo Carpelan in O mundo adormecido espera impaciente, antologia de poesia finlandesa. S/c.: Ed. Contracapa, 2021, p 129 (Versão portuguesa de Amadeu Baptista).
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domingo, 20 de fevereiro de 2022


Me acerqué a él, que se mantenía en el mismo sitio, con las piernas pegadas para aliviar el frío, con la lumbre del cigarro iluminando las yemas amarillentas. Miré sus pies sobre los adoquines que ahora brillaban de otra manera, con esas ráfagas que la escarcha recoge. Tenía la zapatilla derecha desatada. Me agaché y se la até lentamente, como si estuviera enseñando a un niño a abrocharse sus zapatos. Formé un arbolito perfecto con el cordón negro rodeando el tronco e hice doble nudo. Los coches pasaban a nuestro lado. La gente miraba de soslayo la imagen de un hombre arrodillado atando los cordones de un hombre en pie. Había llegado a esa dignidad sin proponérmela. Notaba el frío del adoquín subiendo por mi rótula. Al levantarme, pocos centímetros separaban su cara de la mía. Y seguimos juntos calle abajo.
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 Alejandro Simón Partal. La Parcela. Barcelona: Caballo de Troya, 2021, p 155.
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