A Amazon tem também já à venda o livro mais recente - em versão Kindle - do poeta e ensaísta brasileiro Alexandre Bonafim, cujo Prólogo/ Ensaio é também de minha autoria. A obra intitula-se O Anjo entre o Deserto e o Não (São Paulo: Editora Lobo Azul, 2020). Segue o dito Prólogo:
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As
figurações do Deserto na Poesia de Alexandre Bonafim
por Victor Oliveira Mateus
O
recente livro de Alexandre Bonafim, Aprendizagem
do Deserto, insere-se numa temática que tem, ao longo dos séculos,
percorrido a cultura ocidental: o deserto enquanto apelo e fonte de saber e de
transmutação do indivíduo que ousa vislumbrá-lo e percorre-lo. Contudo, esta
persistência temática nos diversos autores não conduz a uma homogeneização dos
resultados, já que cada olhar enforma de uma experiencia vivida específica e de
um sistema de valores e de crenças individual; poderemos, eventualmente,
encontrar zonas que se tangenciam nas diversas abordagens, mas sem que a
originalidade de cada uma delas seja posta em causa.
O deserto em Alexandre Bonafim apresenta,
assim, algumas características fundamentais: encontra-se associado ao dizer ( O deserto diz / com simplicidade / a luz;
Dizer o verdadeiro poema/ é sempre ter a língua
amputada) ; relaciona-se com a
interioridade e a ação ( Dentro dos meus pulsos / um deserto desatou a
ira / dos cavalos selvagens ) ; é
apanágio de poucos: daqueles que decidem empreender a aprendizagem referida no titulo deste livro e que ousam trilhar
esse caminho incomum ( Visto-me pelo
avesso ). O percurso intentado pelo poeta não é coisa pacífica ( Atravesso os campos devastados / as casas em
ruínas / a pátria sem nome; Nada no
mundo pode abrigar/ essa dor estrangeira/ extraterrena/(…) que perfura meus
ossos/ meus sonhos), é, por conseguinte, não só uma senda eivada de
obstáculos, por vezes tumultuosos, mas sobretudo uma aprendizagem que recusa todo o tipo de solipsismo; afirma-se antes
como um acrescentamento do eu mediante uma relação dialógica com o meio e com o
outro, e são estes os dois últimos vetores o fundamental desta Aprendizagem do Deserto, aliás, tal como
aparecem em grandes escritores de outras nacionalidades. Escutem-se, por
exemplo, as palavras da escritora suíça Annemarie Schwarzenbach: “ Atrás de nós
estendia-se a estrada que atravessa a planície desértica e abafada de Teerão
(…) Lá em baixo não havia nada, era um vale morto, muito distante do mundo,
muito distante de plantas e árvores – em vez delas, só pedras e o calor
incandescente que se agarrava ao solo com mil patas.” (1) Ou ainda as do
francês Le Clézio: “É lá, no deserto, que Lalla nasceu, ao pé de uma árvore,
como o conta Aamma. Lá, na região do grande deserto, o céu é imenso, o
horizonte não tem fim. Pois não há nada que detenha a vista.” (2) Ora, são
estas as ideias fundamentais que a acuidade e a maestria de Alexandre Bonafim
não consentem que se percam na sua cuidada tecedura do Deserto: a analogia deserto/ imensidão; a relação viagem/ aridez a
superar; o intercâmbio entre aprendizagem e aprimoramento do ver, do sentir e
do entender. A estas instâncias acrescenta ainda o poeta a forte presença do
outro: presença desejada, presença amada, mas muitas vezes também presença como
germe de mágoa e de desalento. A Aprendizagem
do Deserto é, neste livro e indubitavelmente, uma apreensão não resultante
de um qualquer delírio ou de uma relação fantasiada, mas de uma constante
interiorização obtida através de um complexo e contínuo diálogo com o mundo
natural, com a palavra e com o outro, outro esse, por vezes, sob a figuração de
uma forte proximidade afetiva.
Dialeto
O
teu rosto
jorro
de uma palavra
na
plenitude
de
um idioma cego
(…)
O
teu rosto
orquídea
melancólica
vermelha
como
a fuga
dos
pássaros
rumo
ao sul
Há,
no entanto, neste livro, uma deliberada urdidura da ambiguidade, que remete o
leitor, em dadas circunstâncias, para uma interconexão de referentes, como se
estivéssemos ante uma encantada casa de espelhos, onde o poeta tanto pode estar
a falar de um outro exterior a si, como de si próprio, como ainda do cume
absoluto da sua arte: o dizer poético, e caberá ao leitor, recusando todo o
tipo de passividade, aceitar o desafio e fazer-se cúmplice desta aventura
poética, desta aprendizagem; um
exemplo disto a que poderei chamar uma ambiguidade
triádica poderá ser encontrada no poema Cigano:
Ele
caminha entre o silêncio e o não
Nos
lábios o veneno
a
rosa vermelha
esmagada
pela melancolia
Ele
sempre busca a ardência
a
caricia de um delicado algoz
Outra
figuração do deserto bonafiniano pode
ser encontrada na sua maleabilidade estrutural. Dito de outro modo, este deserto pode surgir nos momentos mais
inesperados e nos contextos mais imperscrutáveis: na infância, no quotidiano,
na afetividade (Deitei-me sobre tua
pegada// De mim restou-me apenas/ o leve contorno do teu não), na memória ( Entre meus sonhos/ queima o que foi/ o que não foi/ como a faca/ a
perfurar na cicatriz/ uma nova ferida; Um pássaro cego/ voando do nada/ em
direção ao nada). Poder-se-á dizer deste deserto o que o filósofo Michael Foessel disse da Noite : “De fait, toutes les eclipses ne
sont pas astrales: la nuit peut surgir dans des contextes imprévus et parfois
simplement parce que des individus le décident “ (3). Também o deserto de Alexandre Bonafim não se
deixa espartilhar por quaisquer mapas ou cartografia, ele é uma instância muito
mais lata e rica; é essa parcela do Ser cujo
atravessamento, por vezes sofrido, trará ao poeta uma nova e enriquecida aprendizagem do Todo. Este tipo de hermenêutica do deserto pode ser encontrado também em muitos dos poetas portugueses
– e foram vários! – que nas últimas décadas poetaram sobre o tema, veja-se o
caso de Isabel Cristina Pires (4) – no poema Mapa-Múndi: ( No mapa do
mundo/ há um lugar/ onde ninguém foi./ Dói-nos/ esplendidamente. ) e no
poema Este Tempo Rápido do Mundo: ( Este tempo rápido do mundo/ rouba-nos o corpo à dança sem relógio/ e
dói no coração comido pelo nada./ Leva-nos consigo para dentro da aridez ).
Em ambos os casos, quer a poetisa portuguesa, quer o poeta brasileiro,
filiam-se num continuum onde o metapoético se mescla com uma espinhosa aprendizagem, atente-se, a título de
exemplo, às palavras de Alexandre Bonafim:
Poética
Poesia
se faz
com
arame farpado
contra
a carne crua
contra
a pele nua
Todavia,
apesar dos dois poetas perfilharem uma conceção abrangente do deserto, há na escrita de Cristina Pires
um pertinaz modo de olhar uma temporalidade específica e um cosmopolitismo não
detetáveis em Bonafim, que opta, antes, por uma sensualidade, um erotismo e um
alto lirismo raros na poesia contemporânea escrita em português, aliás, não é
por acaso que ele no seu livro utiliza uma única epígrafe: dois versos dessa
poeta maior que, no século XX, escreveu em português – Dora Ferreira da Silva.
A Aprendizagem do Deserto feita pelo poeta,
neste livro de Alexandre Bonafim, desemboca
num enraizamento quadrifendido do caminhante, simbolizando este o humano no seu
passar pelo aqui: o amor-paixão à boa maneira de Stendhal como pode ser visto
no poema Abraço; o alcançar de uma
regenerada voz poética detetável no poema Conhecimento
poético; uma recuperação do corpo (do outro amado? Do texto? De ambos?)
como assinala o poema Orgasmo e,
finalmente, uma apreensão, em lucidez e verdade, do eu:
Palavra secreta
Eu
sou o homem dos olhos impuros
mas
minha boca pode ver o anjo de seis asas
Minha
boca pronuncia a inocência
do
mais ardiloso vício
Eis
a aprendizagem feita através do deserto bonafiniano! Um acolhimento,
como acima se disse, feito em clarividência e autenticidade: do amor, do corpo,
da poesia e do humano. Este deserto
demarca-se, portanto, de tantos outros, como o de Buzzati (5), do qual tudo se
esperava e de onde nada de importante vinha, e que mais não era do que uma mera
fronteira de ansiosas esperas: de rituais, de envelhecimentos e mortes; o deserto de Alexandre Bonafim é, ao
invés, uma mescla de territorialidade e de
experiências passionais e ontológicas, pelo que se aproxima antes de obras como o
romance do anglo-sudanês Jamal Mahjoub (6), onde Gilmour e Tanner atravessam,
no sentido norte/ sul, um Sudão inóspito e, por vezes, desértico, mas em que no
final o Profeta irrompe ante Tanner ( Como pessoa? Como delírio provocado pela
malária?) e lhe revela todo o passado daquela região, bem como a verdadeira
natureza do humano, de que aquela gente é uma parca amostra, assim como também
Gilmour se acabará revelando como de facto é.
Em Aprendizagem
do Deserto, numa cuidada urdidura de vaivém, num luminoso filigranado de
imagens e de conseguidos processos de metaforização, Alexandre Bonafim dá-nos o fruto do seu apurado cismar
poético: uma constelação, onde, como já referi, o amor, o corpo, o humano e a
poesia se entrelaçam:
Constelações
Não
sei o nome oculto
que
te ilumina
por
debaixo da pele
e
acende constelações
no
teu íntimo mais secreto
Sei
que ao te afagar a brisa
de
dentro da tua carne
prorrompe
o voo de pássaros
alucinados
pela luz do verão
(1) Schwarzenbach, Annemerie. Morte na Pérsia. Lisboa: Edições Tinta-da-china, 2008, pp 23-24
(Tradução Isabel Castro Silva).
(2) Clézio. J.M.G. Le. Deserto.
Lisboa: Publicações D. Quixote. 1986. P 119 (Tradução Fernanda Botelho).
(3) Foessel, Michael. La
Nuit, vivre sans témoin. Paris: Éditions Autrement, 2017, p 156.
(4) Pires, Isabel
Cristina. Deserto Pintado. Lisboa:
Editorial Caminho, 2007.
(5) Buzzati, Dino. O
Deserto dos Tártaros. Barcarena: Marcador Editora, 2014.
(6) Mahjoub, Jamal. La
Navigation du Faiseur de Pluie. Paris: Actes Sud, 1998.
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