quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021


 

Há dias em que o coração aperta e vou às árvores

Como que para me vingar. Aceno com o lenço

Para o longínquo e muito custosamente

Decido não chorar, enquanto faço


Com que o machado corte, ampute, abata, arruíne.

Depois lamento o trabalho que faço,

Nem mais nem menos do que um homicídio

Em massa, pior ainda porque é premeditado.


É detestável o confinamento, a intenção

Sonegada de me aproximar dos outros,

O ridículo de algumas situações em que caímos.


Como se adiam os beijos que não damos?

Com que cobardia andamos afastados?

Que derrotados poemas são estes que escrevemos?


 Amadeu Baptista.  poeira escura. Leça da Palmeira: edições Eufeme, 2021, p 55.

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terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

 

Tão triste que isto é mesmo se a alva chega.

Ouço os primeiros gorjeios da carriça,

Ouço o trinado dos melros. O guarda-rios

Canta. E eu sozinho aqui, transido deste frio,


A preparar a erva que o gado reclama,

Ansioso por um púcaro de chá que me alente

A alma, da gelada geada que à minha volta grassa.

Fose eu um fantasma e estaria a salvo.


Fosse eu um espectro e estaria certo

De não ter que me proteger do frio que faz,

Da ameaça do vírus que anda à solta.


Digo 'bom-dia' à vizinha que ontem me ignorou.

Ela olha-me nos olhos e abre um sorriso.

Pede-me que lhe desculpe o pavor que mostrou.

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 Amadeu Baptista. poeira escura. Leça da Palmeira: edições Eufeme, 2021, p 43.

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segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

 

O poema Partida do livro Regresso (Editora Labirinto, 2010) traduzido para castelhano pelo Prof. Alfredo Pérez Alencart

Aqui:  https://salamancartvaldia.es/not/259275/partida-victor-oliveira-mateus-traducido-castellano/?fbclid=IwAR1jRgtQsOLnayx-t5LsvI1QpDwii-4VUKlljK1q3cT2mUuvAR6N-FwU0uc

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sábado, 20 de fevereiro de 2021


 Foram hoje anunciados os vencedores da 2ª Edição do Prémio Internacional de Poesia António Salvado, assim, o Júri - que tive a honra de integrar - decidiu atribuir:
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Aos livros em Língua Portuguesa:
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1º Prémio: "Elegia dos Pássaros" de Fernando Fitas
Menção Honrosa: "Passageiro do Real" de Renato Filipe Cardoso;
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Aos livros em Língua castelhana:
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1º Prémio: "Ángel Áspero" de Ernesto Luis Orozco
Menção Honrosa: "Armadura y escotes" de Maria Alejandra Chemes.
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sábado, 16 de janeiro de 2021


 

                                              29


escrevo e reescrevo no limiar do desconforto. submeto as palavras a vigilância contínua. torturo-as com um teste constante de crédito e descrédito.

prolongo este monólogo de compreensão lenta. como se não houvesse uma palavra melhor do que outra e um deus indulgente me tolerasse a batota. o flagrante delito na transição da sombra para a luz.

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 Maria José Quintela. Para Não Dizer Que Não Falei dos Equinócios. Fafe: Editora Labirinto, 2020, p 35.

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sexta-feira, 8 de janeiro de 2021


 Está já à venda, na Livraria online da Editora Labirinto e nas Plataformas livreiras, a obra Altos Cumes de Tiago Patrício. Obra vencedora da Primeira Edição de um Prémio Internacional de Poesia. A Segunda Edição do dito Prémio será anunciada em breve.
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quarta-feira, 6 de janeiro de 2021


Tentei ignorar o tempo
golpeado de incertezas,
recusando o desgaste
dos caminhos percorridos
e das lembranças
deslizando sobre a pele.

Tão dúplice a farpa da sedução.

Tão perecíveis os amores.

Tão tardia a serenidade
da vida e da morte.

Tão vulneráveis os passos
em que me atrevia.
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 Graça Pires. Jogo sensual no chão do peito. Fafe: Editora Labirinto, 2020, p 49 (Prefácio de Eugénia Vasques).
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domingo, 3 de janeiro de 2021


 

  Mario Perniola, “El Arte Expandido” (Editorial Casimiro)

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Por F. Castro Flórez

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Mario Perniola (Asti, 1941/05/20 – Roma, 2018/01/09) teve na Estética uma das principais linhas da sua filosofia e com o tempo foi-se aproximando da Arte Contemporânea. No 1º capítulo de ”El Arte Extendido”, subordinado ao tema das estratégias artísticas e da desestabilização do mundo da arte, Perniola fala da bolha especulativa que começou no final dos anos 50 do século XX e refere como o paradigma das vanguardas históricas foi entronizado sobretudo pelo padrão de reverência que se cria à volta de Marcel Duchamp e como surge daqui uma estratégia da notoriedade, e, também, como esses processos vão gerando sobretudo uma desestabilização da arte, mas igualmente uma perda de relevância da crítica da arte, que se transforma num discurso meramente publicitário, muito eficaz – segundo Perniola – no plano mediático, mas na realidade subordinado à lógica do dar notícia dos excertos dos debates artístico-culturais, particularmente atentos às chaves de transgressão e mesmo de escândalo, ou de indignação por parte do público. Segundo Perniola, o que vai sucedendo no mundo da cultura é, sobretudo, a impressão que o mundo da arte é algo que não se leva a sério nem sequer pelos próprios agentes do mundo da arte - ora, se eles, ou nós mesmos, não o tomamos com seriedade, por que é que tem de tomar o público ou o resto do contexto cultural?, ,e sobretudo, essa sensação de que qualquer um pode fazer qualquer coisa como uma rutura entre os saberes eruditos e a cultura da crítica ligada àquilo que os mass media ou o sistema mercantil vai propondo e gerando.

A segunda secção deste livro intitulada: todos os artistas são anarquistas, jogando com a máxima de Joseph Beuys “todo o homem é um artista” e, sobretudo, como o mundo da arte se está destruindo, se está desmantelando, por culpa das suas contradições internas, e está agarrando-se a tudo e mais alguma coisa para tentar sobreviver, e analisa o fenómeno da via sexy e a estratégia de expansão comercial da arte contemporânea, especialmente o projeto da Galeria Saatchi online, e também analisa como a figura do crítico foi substituída pela figura do curador; a figura do crítico foi deitada pela janela fora e pela porta grande entra a figura do comissário, a figura do curador; o crítico no sentido tradicional, segundo Perniola, está completamente deslegitimado, é uma antiguidade ou, em alguns casos, é uma curiosidade, alguém que vem dizer o espetacular, para que se mantenha a sensação de que tudo corre bem, de que tudo é bem vindo. A Galeria Saatchi será o ponto para o perorar decisivo sobre o tema da arte que legitima e valora qualquer coisa e que não estabelece critérios de controle, e que não gera outra coisa além de uma espécie de continuidade como se estivesse pedalando por ali abaixo, sem freio.

No capítulo seguinte, Perniola começa a falar da Bienal de Veneza do ano de 2013 com curadoria da Massimiliano Gioni, intitulada “O Palácio enciclopédico”, e como supõe uma interessante, neste caso, desestabilização do mundo da arte e, sobretudo, como tenta colocar através um projeto curatorial  em forma  de crítica de arte e coloca-nos uma reflexão sobre que papel pode ter hoje a teoria e, incluso, a filosofia, no mundo da internet, no mundo das Redes e da Enciclopédia colaborativa da Wikipédia, analisa, com enorme atenção, o arranque dessa preocupação pela enciclopeidade e retoma a obra do diletante italo-americano Marino Aurati, e como coloca através das distintas obras que apresenta a exposição uma intensa, e extensa, reflexão sobre a arte incluindo as margens, as periferias, às vezes com enclaves como a arte psicoterapêutica e as análises psicanalíticas de Carl Jung, as incursões esotéricas  de Rubin Steiner, as posições visionárias de Aleister Crowley e também, podemos dizer, essa relação entre a Outsider Art e aquilo que são as experiências desmaterializadoras do concetual, do minimal e do global art. Considera Perniola que esta exposição é tremendamente importante que tem uma profunda carga antropológica que nos coloca essa didática de como superar o espetacular num âmbito de tão curto espetacular como é a própria bienalização, e como se pode ir para além de uma arte anedótica ou de uma arte de caráter meramente lúdico, uma espécie de estética da ludicidade, propõe-se também analisar correntes pontuais e aspetos específicos da arte contemporânea como o que se chama “o realismo histérico”, essa espécie de mutação do realismo e do naturalismo, tanto a partir da “body art” como em certas formas de realismo crítico ou também analisando o que aconteceu com a performance e com a crítica das formas da teatralização, vai revendo as obras que se apresentam na exposição , prestando atenção, por exemplo, à questão do pós-estúdio e, sobretudo, posições como a de Bruce Nauman quando afirma: "não estou vinculado ao estúdio, mas prendo-me a qualquer coisa que possa ser arte" e, neste sentido, a arte é mais uma atividade do que um produto, e vai analisando quais seriam os aspetos do ato institucional da arte - e não seria a ideia de que a arte totalmente identificada com a vida do artista nos levaria a prescindir de produzir obras e levar-nos-ia a um retorno do Romantismo para os nossos dias?, esta reflexão sobre o retorno do Romantismo é algo que, em outros livros, Mario Perniola já havia colocado e que aqui deixa como interessante hipótese.

O segundo ponto que lhe interessa é que para uma coleção ser credível, não só deve ser homogénea, mas também tem de explicitar as razões epistemológicas que gera e articula tal coleção; frente ao formalismo burocrático do pós-concetual o que lhe interessa é refletir sobre o sistema de ordenação, aquilo a que chamaríamos a ordem do discurso

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terça-feira, 8 de dezembro de 2020

 Informação sem sabedoria


47. A verdadeira sabedoria pressupõe o encontro com a realidade. Hoje, porém, tudo se pode produzir, dissimular, modificar. Isto faz com que o encontro direto com as limitações da realidade se torne insuportável. Em consequência, implementa-se um mecanismo de "seleção", criando-se o hábito de separar imediatamente o que gosto daquilo que não gosto, as coisas atraentes das desagradáveis. A mesma lógica preside à escolha das pessoas com quem se decide partilhar o mundo. Assim, as pessoas ou situações que feriam a nossa sensibilidade ou nos causavam aversão, hoje, são simplesmente eliminadas nas redes virtuais, construindo um círculo virtual que nos isola do mundo em que vivemos.


48. Sentar-se a escutar o outro, característico dum encontro humano, é um paradigma de atitude recetiva, de quem supera o narcisismo e acolhe o outro, presta-lhe atenção, dá-lhe lugar no próprio círculo. Mas "o mundo de hoje, na sua maioria, é um mundo surdo (...). Às vezes, a velocidade do mundo moderno, o frenesim impede-nos de escutar bem o que outro diz. Quando está a meio do seu diálogo, já o interrompemos e queremos replicar quando ele ainda não acabou de falar. Não devemos perder a capacidade de escuta" (...).


49. Ao desaparecer o silêncio e a escuta, transformando tudo em cliques e mensagens rápidas e ansiosas, coloca-se em perigo esta escuta básica de uma comunicação humana sábia. Cria-se um novo estilo de vida, no qual cada um constrói o que deseja ter à sua frente, excluindo tudo aquilo que não se pode controlar ou conhecer superficial e instantaneamente. Por sua lógica intrínseca, esta dinâmica impede aquela reflexão serena que poderia levar-nos a uma sabedoria comum..


50. Podemos buscar juntos a verdade no diálogo, na conversa tranquila ou na discussão apaixonada. É um caminho perseverante, feito também de silêncios e sofrimentos, capaz de recolher pacientemente a vasta experiência das pessoas e dos povos. A acumulação esmagadora de informações que nos inundam não significa maior sabedoria. A sabedoria não se fabrica com buscas impacientes na internet, nem é um somatório de informações cuja veracidade não está garantida. Desta forma, não se amadurece no encontro com a verdade. As conversas giram, em última análise, ao redor das notícias mais recentes; são meramente horizontais e cumulativas. Mas não se presta uma atenção prolongada e penetrante ao coração da vida, nem se reconhece o que é essencial para dar um sentido à existência. Assim, a liberdade transforma-se numa ilusão que nos vendem, confundindo-se com a liberdade de navegar frente a um visor. O problema é que um caminho de fraternidade, local e universal, só pode ser percorrido por espíritos livres e dispostos a encontros reais.

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    Francisco, Papa. Fratelli Tutti, Carta Encíclica Sobre a Fraternidade e a Amizade Social. Lisboa: Paulinas, 2020, pp 32-34.

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domingo, 6 de dezembro de 2020

 

   A criança, frente a uma mãe que lhe surge como maravilhosa, grandiosa, sabendo tudo, capaz de tudo prever ou tendo um comportamento demasiado atencioso, corre o risco de construir uma inquietação específica relativamente à sua condição infantil, é a posição daquele que não está ainda concluído, então a função materna coloca a mãe numa posição de objeto  omnipotente.

   Uma má mãe pode assumir papeis diferenciados. Semelhante à fada Carabosse, ela lançará um mau olhado sobre a criança tornando-a dependente dela, indo mesmo para além dos pedidos da criança antes mesmo que ela os tenha manifestado, o que faz com que ela nunca chegue a saber aquilo que quer ou sente na realidade. Ora, todos nós temos necessidade, para nos construirmos, de abandonar o imediato que nos satisfaz, de conseguir distanciamento relativamente ao objeto. Separar-se da sua mãe equivale a abandonar a satisfação imediata e renunciar ao prazer que agrada para poder encontrar a via do seu próprio desejo, pois o aparelho psíquico precisa de se desenvolver e de diferir a satisfação.

   Essa mãe, que se coloca de imediato no lugar do seu filho e que julga saber - antes mesmo dele - aquilo de que ele tem necessidade, pratica uma espécie de engorda não permitindo uma boa diferenciação do estado oral (1). Por essa razão, o seu filho terá dificuldade em exprimir as suas necessidades, em distingui-las das pretensões dela e não conseguirá saber onde se situa o seu próprio desejo. Esta mãe má por excesso que acabo de descrever é uma mãe tóxica: ao tornar-se indispensável, intoxica o seu filho impedindo-o de crescer.(...) O pai nesta díade fusional mãe-filho não consegue o seu lugar, não tem mesmo lugar. Só existem ela e o filho.(...) Podemos ver nesta situação a origem de numerosas depressões chamadas anaclíticas e sobretudo de múltiplas toxicodependências ou farmacodependências - cujo desenvolvimento é considerável na nossa época - que acabam chamando a atenção para o facto de que a criança não pode adquirir a sua autonomia de homem.

   (...) Hoje, é o ciclo do desenvolvimento desestruturado que aumenta: perturbações da personalidade, perturbações identitárias e do comportamento, dependências, personalidade frágil ou procura desenfreada do prazer por incapacidade de se ter distanciado da mãe e integrado a perda e o desmame como estruturantes, daí o número considerável dos estados limite, mas também o incremento da rigidez perversa ou da paranoia (...). Daí também as passagens ao ato agressivo, à delinquência, à depressão e sobretudo às toxicodependências que conhecem hoje um aumento considerável.

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(1) O Estado Oral é o 1º Estádio do desenvolvimento do Aparelho Psíquico segundo Freud (N.T.).

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 Barbier, Dominique. La fabrique de l' homme pervers. Paris: Odile Jacob, 2017, pp 165-171 (Tradução de Victor Oliveira Mateus.)


sábado, 5 de dezembro de 2020


 A poetisa boliviana Paura Rodriguez Leyton mediou uma Mesa com Alfredo Pérez Alencart ( Espanha - Peru) e Victor Oliveira Mateus (Portugal), no dia 3 de dezembro pelas 16:00H (hora do Peru), 17:00H (hora da Bolívia), 21:00H (hora de Portugal), 22:00H (hora de Espanha). A referida Mesa constava da leitura de textos e de um debate subordinado ao tema: "A Poesia frente aos limites da Ciência" e inseria-se na "VII Semana Internacional de la Poesía en la Ciudad de los Anillos" (Bolívia).

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No dia 6 de novembro, pelas 14:00H (hora do Brasil) e 17:00H (hora de Portugal), o editor brasileiro Marcos Pamplona esteve à conversa com Victor Oliveira Mateus numa emissão da Rádio KotterTv.

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terça-feira, 1 de dezembro de 2020

sexta-feira, 27 de novembro de 2020


 
Para onde me caiu a palavra,
a imortal (1) solidão, que se levanta
por detrás de um íngreme desfiladeiro;
por detrás das imagens,
que, pesadas, sufocam este sono
de onde nunca ninguém regressou?


Para onde me caiu a palavra,
o desistente olhar, que, sem coração
nem brilho, apenas desenha
esse implacável incêndio,
onde a morte é uma flor
bem no centro do vazio?
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(1) Primeiro verso e título de poema de A Rosa de Ninguém. Tradução de João Barrento.
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  Mateus, Victor Oliveira. A Norte do Futuro, Antologia de Homenagem a Paul Celan no centenário do seu nascimento. S/c.: Poética Edições, 2020, p 94 (Organização e Prefácio de Maria Teresa Dias Furtado).
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domingo, 22 de novembro de 2020


                             Cidade Incompleta

     Deja, oh rico!, comer lo que te sobre,
     porque algo más que un perro será un pobre,
     y tú no querrás ser menos que un lobo.

      José María Gabriel y Galán, A un rico


Se a cidade se impõe pelos excessos
de farta luz, pela abundância
de risos, de ruídos, 
desses desmandos com que me cruzo,
rua após rua, na voracidade
de um tempo sem contornos.


Se a cidade não é mais do que este enfeite
com que os possidentes se convencem,
enquanto desenham seu desnorte
e as sobras apodrecem nos intervalos da fome.
Então, não é cidade nem é nada,
mas rumo sem glória nem meta;
estação inacabada 
vereda incompleta.
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 Mateus, Victor Oliveira. Regreso a Salamanca, Antología en homenaje a Gabriel y Galán. Salamanca: Edifsa, 2020, p 84 (Selección y notas de Alfredo Pérez Alencart).
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domingo, 15 de novembro de 2020


                                                  Donald Winnicott (1896/04/07-1971/01/25)


    A propósito dos cuidados maternos, torna-se essencial evocar a contribuição de Winnicott, que foi um excelente observador das relações precoces mãe-bebé. Para este pedopsiquiatra inglês, existem três funções maternas, indispensáveis para o desenvolvimento harmonioso da criança.

- A presença materna no momento adequado oferece à criança a ilusão de experimentar que é ela que é capaz, na sua omnipotência, de dar existência à sua mãe, que surge no momento oportuno, quando ela tem necessidade. Há, então, esta impressão que ela criou o objeto. Diz-se que ela fez a experiência da omnipotência criadora ou alucinatória que consiste em fazer aparecer a sua mãe quando a criança dela tem necessidade. É aquilo a que Winnicott chama a "presentificação do objeto" (object-presenting).

- A mãe sustenta a criança através dos cuidados maternos e tem um papel de para-excitação. Ela tempera as excitações cuja intensidade demasiado importante ultrapassariam as capacidades da criança de lhe fazer face. Esta função é fundamental no desenvolvimento do eu. A integração do eu está associada ao desenvolvimento sensório-motor e à capacidade de criança em reconhecer aquilo que sente: fome, sede, frio, desconforto. Desta integração deriva a aquisição do "eu". Esta capacidade em controlar-se é designada por holding por Winnicott.

- Os cuidados prodigalizados à criança participam na capacidade desta integrar os seus limites corporais e, por consequência, ter noção da sua interioridade.  (...) a manipulação física do bebé - handling - intervém na personalização.

   Graças ao holding (...) e ao handling (...). A criança adquire o sentimento de habitar o seu corpo. (...) A criança relaxa pouco a pouco o seu lado fusional sem precisar de conhecer angústias insuportáveis devidas à perda brutal do holding e do handing. E, mesmo quando sente sentimentos de cólera pela ausência da mãe, a criança é já capaz de manter nela uma representação da mãe.

  É a isto que Winnicott chama a mãe suficientemente boa, que ele define como aquela que é capaz de aceitar que a sua criança viva as primeiras frustrações que irão estruturar o seu desejo graças à falta que ela vivenciará como motor. Essa mãe não será nem ausente em demasia, mas também não demasiado possessiva ou invasora. Ela aceita que a sua criança se diferencie dela e aceda à emergência do desejo. Uma resposta caótica, desordenada ou imprevisível às necessidades da criança pode ter um valor de ingerência ou de negligência e dará à sua construção do mundo um caráter fragmentado. O que pode, também aí, favorecer a eclosão duma estruturação perversa a título defensivo para evitar uma fragmentação psicótica da criança.

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 Barbier, Dominique. La Fabrique de l'homme pervers. Paris: Odile Jacob, 2017, pp 85-87 (Tradução de Victor Oliveira Mateus).

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